Foto: Arquivo Bazaar
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por Anna Paula Buchalla

Se você não adotou esse esquema, certamente conhece alguém que come de três em três horas para emagrecer. Barrinhas, nuts, frutas, sucos de caixinha, embutidos, queijos light e todo o tipo de lanchinho “saudável” (cuidado, nem sempre é…) entre as refeições principais. Parte-se daquele princípio de que, ao se manter constantemente alimentado, o organismo entende que não é preciso estocar gorduras e calorias – e o resultado são alguns quilinhos a menos. Bem, a novidade é que, ao que tudo indica, essa teoria caiu por terra.

Desde que o jejum intermitente apareceu no concorrido mercado das dietas, novos estudos surgiram para provar que a privação, mais do que a saciedade, parece ter resultados mais frutíferos se o objetivo é perder peso. Um deles, em especial, chamou a atenção da comunidade médica.

Liderada por Mark Mattson, chefe do Laboratório de Neurociência do Instituto Nacional de Envelhecimento e professor na Universidade Johns Hopkins, ambos nos Estados Unidos, a pesquisa revelou que os benefícios do jejum podem ser comparados aos da prática de atividades físicas, em termos de perda de peso. E há benefícios até para o cérebro. Segundo o médico e sua equipe, a restrição alimentar faz crescer o número de neurônios, melhorando a conexão entre eles – o que, além de dar um up na memória e na atenção, no fim das contas acaba impactando as escolhas alimentares.

Foto: Arquivo Bazaar
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O ataque à regra das três horinhas parte do princípio de que quem mais se beneficia com o consumo das comidinhas rápidas é a própria indústria alimentícia, que fatura alto com os snacks prontos. O assunto é polêmico e foi até tema de um documentário, o What The Health, que detalha como as empresas financiariam esse tipo de dieta. O fato é que, polêmicas à parte, a ciência começa a apresentar os primeiros estudos que negam a associação entre comer pouco em intervalos curtos do dia e o aumento do metabolismo.

Um deles, o do vencedor do Nobel de Medicina em 2016, Yoshinori Ohsumi, revela que, ao contrário, comer a cada três horas pode levar ao aumento do peso. “Principalmente se for priorizado o consumo de carboidratos nesses intervalos, há um estímulo à produção de insulina. O corpo entende que é preciso se proteger estocando glicogênio ou gordura”, explica o médico Theo Webert, especialista em nutrologia e qualidade de vida. Em seu estudo, Ohsumi comprovou que a dieta restritiva tem efeitos infinitamente mais benéficos à saúde, entre eles, a renovação celular.

Segundo o biólogo, ao se privar de alimentos, o organismo reage com a chamada autofagia, ou seja, ao ficar certo tempo sem comer, elimina as células ruins e cria outras novas, mais eficazes – seja para trabalhar melhor o metabolismo, seja para outras benesses, como combater inflamações, prevenir o envelhecimento e evitar doenças degenerativas. “O que sabemos até aqui é que, sim, comer de três em três horas não serve para todo mundo. Há muitas pessoas que vão se beneficiar muito mais do jejum do que dessas refeições regulares no processo de perda de peso”, diz a nutróloga Paula Vasconcelos, do Espaço Volpi, de São Paulo.

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Segundo a especialista, o jejum está ganhando destaque entre as dietas saudáveis. Ajuda a regular alguns hormônios, como a insulina (que é estimulada toda vez que comemos) e o GH (hormônio do crescimento, que atua no metabolismo). É prático para quem tem muitas atividades e não tem tempo de parar para comer ou preparar refeições. “Gosto do jejum para pacientes que conseguem ficar muitas horas sem comer, sem sentir fome ou ter qualquer problema, como tonturas. Aqueles que já não têm o hábito de tomar café da manhã, por exemplo, podem se beneficiar muito do jejum. Quem sofre de alterações hormonais, como insulina alta, também pode ter bons resultados.”

Existem várias formas de jejum. O ideal é começar com 12 horas de privação para 12 de alimentação, chegando a 16 horas de jejum e 8 horas de alimentação, de duas a cinco vezes por semana. Há médicos que pregam o modelo “5 por 2”, que consiste em fazer o jejum por algumas horas durante dois dias da semana e nos outros cinco dias comer normalmente. O maior risco é no período de adaptação. Pode-se sentir tontura, fraqueza ou dor de cabeça. E fome. Dieta para os fortes, enfim.