Jéssica Pureza – Foto: Débora Schaan

Por Lígia Krás 

Se, um dia no passado, pessoas faziam testes vocacionais e sucesso profissional era medido por um termômetro de tudo que elas fizeram em uma trajetória linear, focada apenas em uma área de atuação, agora a jornada mudou de rumo e, pode-se dizer, o futuro nunca foi tão polivalente.

No livro “The 100-Year Life: Living and Working in an Age of Longevity”, os autores Lynda Gratton e Andrew Scott, acadêmicos da London Business School, previram que as pessoas irão diversificar  suas competências para desenvolverem entre quatro a seis carreiras diferentes durante a vida.

Nos mercados de moda e lifestyle, a realidade não é diferente: em conversa com Bazaar, dois profissionais contam como conciliar carreiras distintas em que nem sempre uma é a que paga suas contas ou a que realmente é sua vocação, mas que, juntas, ajudam abrir portas, estabelecer um network de respeito e pensar de forma mais livre e sem tanta rigidez.

Thor Nordgarden – Foto: Eleonora Mikalsen

Indomável como a natureza 

O norueguês Thor Nordgarden, com aquele visual vinking genuíno que só os nórdicos conseguem manter sem cair no estereótipo, trabalha em tempo integral como lenhador. Ou carpinteiro. Ou marceneiro. “Treework é a definição certa para o trabalho que faço, porque também crio coisas com a madeira das árvores: mesas para salas de estar, mesas de cozinha e móveis para uso externo. Eu também faço pequenas construções, tudo isso com as toras que eu mesmo abato. Executo todo o processo, a maioria só com motosserras, machados e meus músculos. É um processo artesanal, sem pressa: corto as árvores e muitas vezes carrego as toras com minhas próprias mãos, depois as coloco para secar por meses ou anos”, explica o lenhador.

Seus produtos têm um tipo de design diferente, que não se parece com nada no mercado. “Meu objetivo é fazer coisas de madeira que a maioria das pessoas nunca viu antes, e deixá-las curiosas.”

Thor Nordgarden – Foto: Eleonora Mikalsen

Por outro lado, Nordgarden começou a modelar e não parou, desde um photoshoot clicado pela fotógrafa Eleonora Mikalsen com roupas da Livid Vintage, marca cool de jeans e vintage em Oslo. “Tenho comprado roupas vintage em fleemarkeds em Oslo, Paris, Londres e Nova York nos últimos 20 anos”, conta ele, ao alto de seus 1,90 de altura. E, como se não bastasse, sua verdadeira paixão é a música, o que nos faz questionar se, entre os três ofícios, há algo em comum na visão dele: “Gosto de combinar o novo e o antigo, no meu estilo, com muito jeans e couro (principalmente em jaquetas) e muito desse estilo é baseado na música, no rock dos anos 60 e 70. Me inspiro em Bob Dylan e Jimi Hendrix com os chapéus que uso, que vêm do Novo México e do México. Um estilo que usei no palco com bandas de rock com as quais toquei, como Serena Maneesh e Wovenhand, e com meus próprios projetos musicais solo. Eu diria que tanto meu trabalho em madeira quanto minha música e trabalho como modelo têm em comum um estilo um pouco selvagem e rústico, a simplicidade, é algo natural, passo muito tempo na floresta trabalhando, não é algo calculado, brinco que eu já era um lenhador hipster antes disso se tornar cool, e é exatamente a falta da curadoria perfeitinha que traz a minha inspiração.  Mas procuro mostrar uma beleza indomável no em tudo que faço e na forma como o transmito. Assim como a natureza é”.

Jéssica Pureza – Foto: Rodrigo Silveira

Designer da própria experiência 

Quem também é adepta deste movimento de carreiras fluidas é Jéssica Pureza, UX designer, uma das profissões mais promissoras da atualidade,  cuja função é desenhar, analisar e projetar a experiência dos usuários de produtos e serviços e requer uma boa compreensão de áreas como tecnologia, design, comportamento e design thinking. Além de estudar sobre todas essas áreas sem parar, pois estar sempre atualizada é um pré-requisito essencial, Jéssica também atua no mundo da moda. Em 2018, quando estava voltando de um estágio em UX design, uma booker lhe parou na rua para entregar o cartão de visitas da sua agência. Desde então, ela passou a ter dois empregos: um como UX designer e, outro, como modelo comercial. Com 1,80 de altura e dona de uma beleza estonteante e estilo impecável, Jéssica parece ter nascido para ser modelo, mas ela vê no ofício uma atividade secundária: “É uma experiência bastante cansativa, pois muitas vezes passo o dia trabalhando em frente ao computador e à noite tenho que participar de gravações que terminam somente quando o dia amanhece. Logo em seguida, tenho que voltar a trabalhar como designer em frente ao computador sem ter um tempo de descanso”, explica a gaúcha, para em seguida completar com brilho nos olhos: “Apesar disso, tem sido muito interessante experienciar como as campanhas comerciais exibem produtos desenvolvidos por designers como eu. Participar de gravações e shootings, inclusive, me ajudam a entender como eu posso apresentar de uma forma mais atraente os produtos que desenvolvo como designer e também me ajudam a pensar em estratégias de comunicação com o público para o qual eu estou projetando”.

Essa necessidade de se colocar no lugar do outro para entender melhor como projetar e desenhar soluções para usuários diversos  se chama de empatia no universo UX. E fora desse universo também. A intersecção que a profissão de modelo e a de designer de experiências proporcionam para Jéssica é o principal ponto dessa jornada, é o comportamento-chave que diferencia apenas a busca pela renda extra ou indefinição de vocação que sempre marcou e padronizou o mundo do trabalho.

Jéssica Pureza – Foto: Acervo pessoal

O que observamos atualmente em pessoas com multitalentos, carreiras, áreas de atuação é que além de uma carreira ajudar a sustentar a outra em termos financeiros, o que vem mudando cada vez mais é o sentido que elas devem ter para quem as exerce. De não romper com princípios e principalmente de não serem plásticas, fakes, de proporcionarem experiência e inspiração em ciclo fluido e contínuo.
Mesmo imersos em culturas completamente diferentes, vivendo em hemisférios norte e sul, o que Nordgarden e Jéssica mostram é que o futuro do trabalho é cada vez mais multi, mas com o objetivo de atingir uma real harmonia com o estilo de vida genuíno de cada pessoa.