A stylist Daniela Dupim – Foto: Arquivo Pessoal

Por Daniela Dupim

A moda nunca esteve tão engajada nas questões sociais como hoje. É bárbaro já vermos essa movimentação e entendermos que nem tudo é ter o poder de consumo.

De uma forma global, seres humanos passaram a valorizar o minimal, relembrando alguns sentimentos, convivendo rotineratinamente ao lado de quem amamos e tendo novos hábitos.

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Quando explodiu o coronavírus na Itália, eu estava por lá trabalhando em meio a semana de moda. Lembro-me do pavor nos olhos do público. Senti medo em pensar na possibilidade de não conseguir voltar para casa, em Abudhabi.

Mas confesso que ainda era distante entender que em pouco tempo o mundo estaria vivendo o que Milão vivia. Minha agenda de compromissos seguia normalmente, com fotos, consultorias e projetos que aguardavam eu chegar com as novidades da semana de moda italiana.

Ao chegar em casa, passei a compreender que algo estava para mudar, mas mais uma vez a minha agenda complexa me desconectou e ali eu corria para produções e me preparava para maratona de trabalho. Um dos compromissos foi um grande evento com empresárias da moda brasileira a ser realizado em um hotel em Dubai.

Já no segundo dia deste evento, como residente no país, comecei a perceber mudanças do governo para em relação a Covid-19. Shoppings, mercados, restaurantes e eventos importantes passaram a anunciar os seus possíveis cancelamentos/fechamentos, em poucos dias.

A cidade que não para e o luxo que não dorme ficaram vazio e tímido. Entendi que era hora de me recolher e, pela primeira vez, não sentia aquela imponência da sempre grande e milionária Dubai.

Como consultora criativa e stylist, fui observando o nosso mercado de moda – considerado uma das maiores potencias do mercado de luxo – também teve de repousar, fechando as atividades, incluindo todas as grandes grifes internacionais que são fortemente ativas no mercado árabe.

Mas, diferentemente do mundo, tudo isso em nosso momento mais forte do mercado: às vésperas do Ramadan, que acontece em abril. É a celebração mais importante do calendário Islâmico, o mês que famílias se juntam para realizar as refeições quando o sol põem e festejam depois de passar o dia em jejum e orações.

É o período mais importante no calendário comercial para o mercado de moda no país. Mulheres chegam a comprar até 15 looks para esse período. É como se estivéssemos em quarentena em pleno Natal no Brasil.

Falo muito sobre o novo consumidor que já estava crescendo na nova geração, mas teríamos que chegar no velho consumidor, eliminar velhos hábitos. São coisas da vida, às vezes são por amor e outras pela dor.

O que restou é abraçarmos a tecnologia, já que o mercado de compras online está fervendo – e sigo brindando com um bom vinho mais uma semana de quarentena.