Igor Zahir – Em busca do rosé perfeito
Foto: Divulgação

Por Igor Zahir

Para começar este texto, acho necessário esclarecer que dei este título após passar quase dois meses degustando e apreciando (ou não) alguns rótulos de vinho rosé, após uma experiência traumática de comprar um rótulo fora do prazo de validade que se mostrou extremamente desagradável. Por mais que o assunto já tenha sido desmistificado por tantos profissionais, muitas pessoas ainda acreditam naquela absurda história de carochinha de que “quanto mais velho for o vinho, melhor”. Apesar de render conversa para uma outra coluna, nosso foco hoje é o rosé!

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Quase como um “meio-termo” entre os tintos e os brancos, eles adquirem características únicas, e uma das mais importantes que o consumidor precisa levar em conta é: eles são feitos, quase sempre, para serem bebidos em até três anos a partir da safra. No caso dos mais leves, a temperatura ideal para servir fica entre 6°C e 8°C, já os mais encorpados ou estruturados são melhores entre 10°C e 12°C.

Referência mundial no assunto, a especialista Elizabeth Gabay, que detém o poderoso título de Master of Wine e colabora para os guias escritos por Hugh Johnson e Jancis Robinson, é um daqueles nomes que a gente lembra automaticamente, ao falar sobre vinho rosé. Em entrevistas e textos publicados em suas redes sociais, ela costuma quebrar os tabus em torno do seu estilo de vinho preferido:

“Algo interessante é que não há correlação entre cor e doçura. Se você definir um rosé dizendo que é da cor rosa, vai estar cometendo um erro, porque eles não são todos rosa. A minha definição técnica de um vinho a classificar como rosé é um vinho que não termina a fermentação na pele. É um costume do século 19 para categorizar como eles categorizavam todo o resto. Nossa compra de vinho deve passar da categorização de cores e ser classificada por gosto. Por exemplo, o vinho pálido seco deve fazer parte dos vinhos brancos e não dos rosés. Depois, há os vinhos rosés mais escuros e tânicos com mais estrutura e sabores diferentes. A cor é enganosa”, explica a autora do livro “Elizabeth Gabay’s Buyer’s Guide to the Rosés of Southern France”, com mais de 850 dicas de compras especializadas no sul da França.

Estatística

Segundo uma pesquisa feita recentemente pelo Conseil Interprofessionnel des Vins de Provence (CIVP), nos últimos 18 anos o crescimento global do consumo de rosé subiu em 40% de 2002 a 2018. De 2013 a 2018, a demanda por rosés mais claros cresceu de 49% do mercado mundial para 69%. Além disso, a busca por rosés secos cresceu de 16% para 22%.

A França continua sendo o maior consumidor de rosé (34% do consumo mundial em 2018). Embora seja apreciado em todo o país, pelo menos 30% desse rosé é consumido na Provence, refletindo o histórico estilo de vida da região. Os Estados Unidos ocupam um distante segundo lugar no consumo global, com 20%. A França produz 28% dos rosés do mundo, enquanto os EUA produzem 19%, recentemente ultrapassando a Espanha.

No Brasil, o consumo de vinho rosé aumentou 35% desde 2020, de acordo com pesquisa da Ideal Consulting, empresa de inteligência de mercado. De maneira geral, o vinho foi a bebida eleita pelo brasileiro para atravessar a pandemia que se iniciou no ano passado. No caso dos rosés, se tornam queridinhos pela imagem de descontração, por combinar com nosso clima tropical e pela estética de suas cores e design mais “instagramáveis”- sim, tem tudo a ver com a mania nacional de postar nas redes sociais à beira da piscina ou na praia durante o verão.

Giro de rosés

A seguir, uma lista com rótulos de diversas partes do mundo, para colocar na wishlist de bebidas da primavera-verão:

Hampton Water
Fruto da colaboração entre Jon Bon Jovi, seu filho Jesse e Gérard Bertrand, o Hampton Water foi produzido na região francesa de Languedoc-Roussillon com as uvas Grenache, Cinsault e Mourvèdre. Ótimo para acompanhar entradas e aperitivos, frutos do mar e peixes.

Terra Amata Côtes
Direto da Provence, o Terra Amata Côtes tem notas cítricas, florais e minerais, além de ser leve, fresco e com equilíbrio na boca. Harmonize com pratos mais elaborados, como escargots gratinados com espinafre, mussarela de búfala, tomates maduros e berinjelas ao forno; pissaladière; ratatouille polvo na brasa com páprica picante; ou queijos de cabra frescos.

Château Lauriga Jardin de Roses
Elaborado com Syrah e Grenache, o Château Lauriga Jardin de Roses tem notas florais e de frutas como toranja, cereja, morango, e toques minerais. Ótimo para acompanhar pratos potentes do verão, como paella com frutos do mar; filé de linguado; ravioli com lagostins; abobrinha e cogumelos ao “jus de mer”.

Pedro Cancela
O Pedra Cancela foi elaborado com 100% Touriga Nacional, teve breve contato com as cascas (apenas 45 minutos) e tem aroma de frutos do bosque com interessante toque mineral. Este rosé da região do Dão, em Portugal, tem corpo leve e é ótimo para acompanhar embutidos e queijos de massa mole, como camembert, brie e o clássico português Queijo Serra da Estrela, feito com leite de ovelha.

António Saramago Rosé 2018
Também produzido com a cepa Touriga Nacional, o António Saramago Rosé 2018 vem da Península de Setúbal, com notas de frutos vermelhos da floresta. Com boa acidez, equilibrado e bom volume de boca, é recomendado para acompanhar pratos de peixe, marisco e salada.

Luna Malbec
O argentino Luna Malbec foi elaborado com as uvas dos vinhedos da Finca La Anita em Agrelo. Com notas de frutas frescas e flores, como rosa mosqueta, é refrescante e vigoroso, com toque adocicado de marmelo. Harmoniza com peixes ensopados, embutidos como salame e copa, ou risoto de linguiça com alecrim.

Palo Alto Reina Rey Rosé 2020
Feito com Malbec e Cabernet Sauvignon, o Palo Alto Reina Rey Rosé 2020 tem notas de frutas vermelhas que lembram cereja. Produzido em Luján de Cuyo, Mendoza, que fica a 900 metros acima do nível do mar – ou seja, com clima seco continental de grande exposição ao sol que permite um perfeito amadurecimento da fruta -, harmoniza com comidas orientais, como sushi.

Barberani Amore Umbria IGT Bio Vegano
Italianíssimo, o Barberani Amore Umbria IGT Bio Vegano vem da região de Umbria, é feito com 100% Sangiovese, e tem notas de morangos silvestres, groselha, flores cítricas, fruta fresca, pêssego amarelo e framboesa. Com frescor persistente, harmoniza com crustáceos, peixe cru, massas e risotos à base de verduras, sorvete e macedônia de frutas.

Amitié Colheitas Tempranillo
O Amitié Colheitas Tempranillo, mais brasileiro impossível, faz parte de uma viticultura tropical no semiárido do Vale do São Francisco em uma época onde o clima é mais ameno e com maior amplitude térmica. Combina com carnes brancas, queijos macios, entradas, pratos leves e frutos do mar.

Aventura White
Produzido com a polêmica uva Isabel, o Aventura White tem corpo muito leve e frutado, acidez marcada e notas florais e de frutas vermelhas. Com tons de casca de pêssego, harmoniza bem com canapés, saladas, peixes, frutos do mar, aves e carnes brancas em molho cremoso.

@igorzahir_somm é sommelier e colunista da Bazaar.