Foto: Reprodução/Unsplash

Por Ligia Krás

No início da pandemia, eu, uma pesquisadora e analista de tendências culturais, sociais, econômicas e tecnológicas com mais de 20 anos de experiência , me vi completamente desorientada quando as pessoas me perguntavam sobre aquilo que mais sei fazer: observar e analisar discursos, experiências e comportamentos das pessoas em associação a cenários especìficos e pensar estrategicamente sobre possíveis caminhos a seguir.

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Resumindo: Pesquisar tendências, sem medo do quanto essa expressão com o passar dos anos possa, equivocadamente, ter ganhado conotações relacionadas a frivolidade. Estudei em uma das melhores universidades de Ciências Sociais do Brasil e por 7 anos me aprofundei em metodologias de pesquisa qualitativas para compreender como captar e analisar as expectativas, anseios, medos, sonhos e desejos das pessoas, o que me possibilitou nesses 20 anos entre Universidade, consultorias e cargos em grandes empresas de pesquisa a comandar times de pesquisa qualitativa, muitos cursos de metodologia de pesquisa e insights, treinar novos pesquisadores, aliar método a conhecimento e ajudar outros pesquisadores a compreender que as pessoas mudam o tempo todo de acordo com o ambiente em que vivem e não está escrito em lugar nenhum que isso leva um tempo exato para mudar.

Mas sempre tivemos alguns métodos que nos ajudavam a traçar o tempo de maturação e disseminação de determinado movimento social/ cultural/econômico. A pandemia do Covid-19 foi um baque no universo da pesquisa de tendências: Uma avalanche de novos comportamentos que mudavam em fases cada vez mais rápidas, sem tempo para que se analisasse corretamente o direcionamento correto daquela macro ou micro trend.

Se hoje nossa principal pergunta é quando estaremos vacinados, ao longo dos últimos 8 meses perguntas chegavam o tempo todo, fosse por meio de pesquisas em meu trabalho, por entrevistas que me pediam para responder, em lives, de amigos ou na leitura do noticiário do dia. Em comum, a maioria vinha carregada de eternidade, de mudança drástica e ligadas novamente ao futuro, raramente como uma análise do caminho que percorremos até aqui:

“As pessoas vão parar de ir às agencias bancárias?”

“As pessoas vão voltar a comprar roupas nas lojas depois de conhecer a experiência digital?”

“Os apps de relacionamentos e encontros vão falir?”

“As máscaras ficarão para sempre? “

“A moda morreu? “

“Seremos mais humanos agora?”

“Já estamos melhores tecnologicamente e como humanos para a próxima pandemia?”

“Se estamos isolados agora significa que no futuro seremos mais coletivos pois pensamos nos outros?”

Foto: Reprodução/Unsplash

A quantidade imensa de dúvidas, questionamentos, medos, incertezas também trazia respostas que o próprio tempo ia mostrando, e tudo isso ia formando dezenas, centenas talvez milhares de novas tendências que logo desapareciam e emergiam outras. O “novo normal” que nasceu no primeiro semestre de 2020 curiosamente pregava que deveríamos amenizar um pouco nossa sede de antecipação de futuro que vinha cada vez mais se intensificando em discursos publicitários, de lifestyle, de produtos e meta de vida e com isso transformando a sociedade atual em uma sociedade cada vez mais ansiosa, frustrada e deprimida por viver em função de uma expectativa que nunca se cumpre, pois estar no futuro o tempo todo não é mais como em filmes, uma utopia e sim aquela palavrinha que tanto estamos lendo nos últimos tempo: distopia.

Essa matéria para Bazaar Brasil foi construída durante 6 meses. O insight veio quando a aclamada futurista Amy Webb que palestraria no SXSW 2020 em Austin, no Texas teve sua palestra presencial cancelada e transferida para o mundo visual. Ainda não se tinha conhecimento naquele momento que o futuro próximo seria uma invasão das lives, principalmente nas áreas criativas.

“Tentar controlar o futuro desperta mais ansiedade”

Amy Webb, CEO do Future Today Institute e nome onipresente no festival de cultura e tecnologia SXSW, em Austin (Texas), confessou para a Bazaar ainda no início da pandemia que estava mais ocupada do que nunca: ” Todo mundo quer saber como será o futuro depois que a pandemia diminuir – eles querem saber como o mundo será diferente. Trabalho 18 horas por dia criando modelos e cenários para nossos clientes, e meus colegas pesquisam como as tendências que acompanhamos estão se acelerando ou desacelerando como resultado do novo coronavírus. Também estive oferecendo meu tempo, sempre que posso, para ajudar agências e líderes governamentais a desenvolver estratégias de longo prazo”.

Uma coisa é fato: nunca precisamos tanto ler notícias, ver vidas, analisar relatórios de tendências de especialistas e monitorar tanto os dados. Mas eles nos dizem para cuidar da saúde mental. Como encontrar um equilíbrio entre os dois? Quando questionada sobre isso, Amy pensa um pouco: “Uma pergunta que me fazem muito é ‘você tem pesadelos todas as noites quando está dormindo?’ Muito do meu dia é gasto imaginando o inimaginável. Penso que existe uma interseção interessante entre a ciência cognitivo-comportamental e o que faço como futurista.

A ciência cognitivo-comportamental diz que, quando estiver se sentindo ansioso, não tente reprimir ou interromper esses sentimentos. Em vez disso, observe-os, expresse curiosidade sobre esses pensamentos negativos e categorize-os. Você não deve evitar coisas que o deixem ansioso, mas expor-se a elas. Como futurista, tenho que abraçar e aceitar a incerteza – e faço isso usando dados, estruturas e cálculos. Estamos todos vivendo com uma quantidade esmagadora de profunda incerteza agora. Em vez de combatê-lo, você pode optar pela incerteza com curiosidade. Às vezes, fazer perguntas realmente difíceis é o que leva a soluções que você nunca imaginou antes”.

A especialista ainda divaga sobre como todos estamos todos sofrendo com o que ela chama de “infodêmico”: a combinação de muita informação e muita desinformação. “Muitas vezes, mais dados não são melhores – são apenas sobrecargas de informações. Se você não possui as ferramentas para analisá-lo, esses dados não são apenas úteis, eles podem gerar o FOMO: o medo de perder. Na verdade, eu me preocupo com o fato de que, no nosso clima atual, trocamos o FOMO por um medo abjeto. Isso era verdade antes do surto do Covid-19, e certamente é verdade agora.

“Com as mídias sociais. Você está sendo agredido com informações o tempo todo. A informação tornou-se ambiente. As notificação de nossos telefones e relógios estão desordenadas, nossos alto-falantes inteligentes emitem manchetes e, de alguma forma, somos constantemente lembrados de que as coisas estão acontecendo. Na verdade, não vejo empresas gerenciando isso muito bem. Em vez disso, vejo muitas pessoas pedindo painéis – um lugar, para todas as informações, com um algoritmo que analisa e prioriza as coisas importantes, e talvez outro algoritmo que analise e refine as informações mais importantes. Um painel não resolverá o problema. Ser mais seletivo sobre as fontes de informação e definir expectativas realistas sobre como gerenciar o fluxo de dados é o que aliviará sua ansiedade”, acrescenta a futurista.

Uma das causas de frustração e ansiedade desenfreada entre os profissionais desse mercado, é quando conseguimos analisar um cenário e imediatamente outro já entra em evidência. No meu devaneio sobre previsão de tendências, compartilhado com tantos colegas da área, é impossível conter a curiosidade sobre o que Amy, uma das principais futuristas da atualidade, pensa a respeito. A resposta, é claro, desperta ainda mais reflexões.

“Os cenários devem sempre ser flexíveis. Pense nisso: novos eventos estão acontecendo o tempo todo. Estar disposto a enfrentar uma profunda incerteza significa ser iterativo. As pessoas continuam perguntando sobre o nosso ‘novo normal’ ou quando a vida ‘voltará ao normal’. O que eles realmente deveriam estar perguntando é ‘quando teremos menos mudanças acontecendo?’ Se você está tentando controlar o futuro, ficará vulnerável a sentimentos de ansiedade. Existem muitas variáveis externas sobre as quais não temos controle. O ponto principal dos cenários é construir estados futuros plausíveis para que possamos criar os resultados desejados. Mas você tem que aceitar que pode haver muitos caminhos para chegar a esse futuro”.

“Transformações reais de comportamento social demandam tempo”

As palavras são de Ken Fujioka, sócio-fundador da ADA Strategy, a respeito da obscuridade em que se encontra aquilo que, para nós, pesquisadores e estudiosos de tendências, sempre foi um modo de vida. “O que tenho tentado fazer é ficar mais atento ao filme que está se formando ao longo do tempo, do que às fotografias que estão sendo reveladas todos os dias. Sem dúvida estamos assistindo a mudanças importantes, mas tento tomar cuidado para não interpretar como tendências de longo prazo novos hábitos adquiridos temporariamente por força de uma necessidade”, explica o consultor.

A pergunta que fica no ar é: como separar o joio do trigo, no meio da caótica quarentena eterna que se instalou no mundo desde a descoberta da nova Covid-19? Como saber o que é macro ou micro tendência, o que é apenas acontecimento efêmero diante de toda a volubilidade comportamental que ficou evidente após todas as máscaras que passamos a usar?

Quem compartilha dessa confusão de sentimentos sobre essa linha tênue é Lorena Botti, coolhunter da Vicunha, que desenvolveu o primeiro tecido jeans brasileiro anti-coronavirus. “Sinto ansiedade pela possibilidade de não conseguir ‘ler’ as atualizações constantes e ‘captar’ o que podem ser novas oportunidades de mudança, mas ao mesmo tempo sinto uma tranquilidade gigantesca, algo que me deixa muito em paz. Tenho tido cuidado em não romantizar o momento, mas de certa forma para mim este cenário tão complexo tem o seu lado bom. Estamos sentindo na pele tudo o que a comunidade investigativa previu. É cada vez mais evidente o quanto necessitamos desacelerar e o mais bacana de tudo é experienciar o quanto esta desaceleração pode ser ótima tanto para nosso psicológico quanto para nossa entrega profissional”, diz Lorena, consciente de que sua visão vem de um contexto particular e, de certa forma, privilegiado:

“Apesar de todas as mudanças e incertezas, este tempo de isolamento social tem sido extremamente rico para mim. Quando tudo começou entrei em estado de choque, não conseguia focar e ‘render’. Em seguida passei por um estágio de aceitação, a relação entre nosso estado psicológico e trabalho parece algo óbvio, mas sinto que muitas vezes não paramos para pensar nisso e agora estamos tomando consciência desse link. Pós estes primeiros estágios, aceitei que não exigir tanto de mim é ‘A’ tendência. Agora que me sinto mais tranquila e mais conectada comigo mesma, percebo cada dia mais o quanto este ‘estar presente’ tem contribuído tanto para meu lado pessoal quanto para o meu profissional. No final das contas percebo que esta sensibilidade toda está me fazendo entregar melhor”.

Nunca fomos tão ambíguos

Voltando para o que mencionei lá em cima sobre a volubilidade humana, vale a pena discutir sobre como este cenário está fazendo a gente sentir na pele muitos conceitos que ainda não estavam muito popularizados. Lorena aponta o VUCA, acrônimo inglês que significa Volatibilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade, e que nunca fez tanto sentido quanto agora! O cenário atual nos dá a certeza de que nada será como antes e que este mundo cada vez mais fluído impactará até mesmo a forma de como prevemos tendências na moda.

“Quando analiso o universo da moda sinto também que este momento antecipou muitas tendências previstas. Estamos acostumadas a ler e falar sobre assuntos como valorização do local e do preço justo, e apesar de já existirem muitas iniciativas em relação a isso sinto que o momento atual ajudou a popularizar estes assuntos dentro do universo dos profissionais que trabalham na indústria da moda. Estilistas, técnicos, proprietários de marcas, especialistas, consultores e tantos outros profissionais do jeanswear tem se unido e criado grupos de discussão em relação ao tema. Tenho visto este movimento de conscientização e incentivo à valorização do feito no brasil ganhar muita força! Estas iniciativas estão trazendo uma discussão bastante intensa em relação a como produzimos e criamos a moda feita no brasil. Desde a matéria prima até a peça pronta, tudo está sendo repensado”, conclui a coolhunter.

A futuróloga Li Edelkoort, uma das maiores gurus mundiais em pesquisas de tendências, defende exatamente que “essa economia da esperança tem potencial para transformar a sociedade a partir de dentro”, como disse em entrevista ao site Dezeen.

“Após a Covid-19, muitas pessoas entenderam que deveriam mudar seus padrões de comportamento, produzindo demais ou consumindo de forma descontrolada. O conforto de estar em casa e trabalhar em casa, gastando tempo em vez de dinheiro, levou as pessoas a se afastarem do vício em coisas materiais e a um domínio de compartilhar, cuidar e fazer”, decretou a especialista. “Os desastres são conhecidos como ferramentas poderosas de ignição para formas radicais de transformar as práticas de negócios”, acrescenta ela, prevendo que a moda abandonará suas práticas “insanas” e que o mundo verá um renascimento da produção doméstica em pequena escala.

Em outras palavras, o pensamento da pesquisadora se complementa ao da trend forecaster Lili Tedde, que representa o Studio Edelkoort no Brasil: “Nós nunca precisamos tanto buscar a esperança, talvez até fé mesmo, um princípio quase esquecido, e acreditar na capacidade de reconstrução da sociedade. Vejo como uma oportunidade para o mercado local se unir e se desenvolver”.

Foto: Markus Winkler na Unsplash

Para Emilia Magnan, psicóloga e especialista em carreiras, a idéia que se formou ao longo do tempo é que as pessoas tinham o controle sobre as coisas, mas nossos padrões de comportamento atuais tem ciclos mais curtos, pois as coisas se transformam cada vez mais rapidamente A gente ainda espera muito essas coisas mais controláveis por isso essa angustia, essa impotência sobre prever o que vai acontecer daqui dois anos, mas não tem mais como acontecer, não é possível dentro dessa realidade que se transforma cada vez mais rápido manter esse controle, vemos vários debates sobre a síndrome do impostor atualmente, então para quem está de fora desse desafio cotidiano de captar, analisar, prever, criar estratégias relacionadas a acontecimentos futuros a cobrança é muito grande, a necessidade estar atento sempre ao que está acontecendo e o consequente estado de pânico diante da imprevisibilidade acometem cada vez mais esses profissionais, que realmente devem respirar, desacelerar e aceitar que nem tudo pode ser previsto em um ano como esse.”

Um dos nomes que mais tem despontado no Brasil quando o assunto é tecnologia e movimentos contra exclusão, a colaboradora do MIT Technology Review Nina da Hora tem uma filosofia de vida muito próxima do que a Psicóloga Emilia Magnan prega.

” Estou há sete meses em casa isolada, com meus sete cachorros e minha família. Isso com certeza me deixou mais ansiosa em relação à ansiedade de prever o futuro. Eu acho que é muito complicado prever o futuro com várias intervenções que a gente tem passado no dia a dia, então eu levei muito pro lado do presente, de olhar para problemas reais que nos cercam: o desenvolvimento da tecnologia no Brasil, segurança pública piorando, saúde pública piorando, a fome no país aumentando, então assim, várias outras questões que nos atravessam, que me fazem ter muita ansiedade com o nosso presente. Eu lidei desta forma e também tentando não construir um planejamento individual, mas um planejamento coletivo. Eu tenho refletido muito nestes últimos sete meses sobre relações entre diversos temas, pessoas e em como a gente está lidando com isso no presente.”

Talvez um dos maiores ensinamentos que nós, pesquisadores e analistas de futuro aprendemos em 2020 é que o futuro não é nada do que há tantos anos se glamouriza e persegue. A busca por um status de “conexão com o futuro” por usar um sapato em janeiro que só irá massificar em julho, de escutar uma banda indie que só vai explodir no próximo grande festival de música ou ter os gadgets recém lançados e que cada vez são substituidos mais rapidamente por novas versões, tudo isso só acelera ainda mais a ansiedade e dá o efeito rebote, que é precisar de pausas, de voltar para o estado mais primitivo, mais desapegado. O conceito de “Trendy” que tínhamos nos anos 90, 2000 não se sustenta mais.

Durante esses últimos 8 meses o que de fato vimos que importou no mundo e está conectado a um real futuro sâo movimentos de protesto por inclusão, de George Floyd nos EUA a grandes cadeias lojistas brasileiras, ao enfrentamento e aceitação de corpos reais ao lado de fotos inundadas de filtros de apps, a luta mundial contra uma xenofobia que cada vez se torna mais micro, com culturas, países, regiões, costumes disputando quem é superior ou melhor, a voz ativa de consumidores e trabalhadores no mundo todo reagindo imediatamente em ambientes digitais contra empresas com políticas e posturas duvidosas, preconceituosas ou de favorecimentos e as marcas, corporações e até mesmo startups tendo que recuar e se humanizar, compreendendo que o atual momento é cada vez mais de transparência e fiscalização em cima de injutiças e práticas de favorecimento ou exclusão. Pessoas se isolando e sacrificando seu prazer individual em prol de um coletivo saudável.

A tecnologia e o Design de experiências trabalhando para produzir produtos e serviços que possibilitem as pessoas transitar, interagir, se sentir seguras, a aceleração da transformação digital mais que multiplicada para que o maior número de pessoas possa ter acesso não só ao consumo, mas a resolução de problemas e essa mesma transformação digital sendo supervisionada de pertinho pelas pessoas para que não seja exclundente, para que não reproduza ainda mais experiências que perpetuam preconceitos, injustiças, para que se mude padrões de linguagem que não fazem mais sentido em um mundo tão sofrido e com problemas sérios. Esse é o real futuro que importa e é traçado em 2020 e que deve figurar em todo report de tendência de respeito.