Look do inverno 2014 de Pedro Lourenço - Foto: Getty Images
Look do inverno 2014 de Pedro Lourenço – Foto: Getty Images

Por Sylvain Justum,

Há quanto tempo você ouve dizer que a moda brasileira é legítima expressão da nossa cultura; que, portanto, é importante estabelecer uma identidade, para, assim, lapidar a imagem do Brasil lá fora e aliviar os eternos estereótipos de samba, cerveja e bunda? Mais recentemente, você também deve ter escutado dizer que o setor está em um momento delicado, com dificuldades estruturais, de matéria-prima ou mão-de-obra. Pois é, o setor, que movimenta R$ 52 bilhões por ano e gera emprego para quase dois milhões de pessoas, vem bancando o equilibrista há algum tempo. A celeuma criada por causa da liberação, via Lei Rouanet, da captação de R$ 2,8 milhões, por Pedro Lourenço, e de R$ 2,6 milhões, por Alexandre Herchcovitch, reacende a discussão. O benefício foi conseguido graças a uma intervenção da ministra da Cultura, Marta Suplicy.

As reações acaloradas acontecem, na verdade, pelo fato de Pedro e Alexandre desfilarem em Paris e Nova York, respectivamente – Alexandre também mostra suas coleções no São Paulo Fashion Week. Ronaldo Fraga, outro nome aprovado e que busca R$ 2,1 milhões, desfila apenas no Brasil, o que, parece, o absolve de maiores julgamentos. “Há muito tempo a moda luta para ser entendida como cultura e nada mais natural que usufrua de recursos públicos tal como a música e as artes plásticas”, pontua Ronaldo, afirmando que independe do local onde é apresentado, um desfile merece sim apoio do governo. “A política pública de moda está sendo construída agora e é claro que existe dificuldade em dividir o bolo”, completa o estilista mineiro lembrando que vivemos em um momento dual, “ao mesmo tempo em que a moda brasileira tem visibilidade inédita, a indústria têxtil passa por uma crise histórica”.

O fato dos desfiles serem eventos fechados ao grande público, entretanto, serviu de agravante na polêmica. “Não vejo diferença em uma exposição de quadros ou fotos e um desfile”, opina Alexandre. “Muitas exposições, peças de teatro e outros canais de expressão artística inscrevem projetos nessa lei. Não há motivos para que a moda também não inscreva os seus, já que também é uma forma genuína de expressão cultural”, explica. Pedro faz coro: “Buscamos explorar temas menos óbvios, mas que também representam o nosso país”. Pedro trabalhou curvas e traçados de Oscar Niemeyer em sua coleção de inverno 2011 e pretende explorar o universo de Carmem Miranda nos dois próximos desfiles, para os quais vai à campo arrecadar os tais R$ 2,8 milhões. “A ideia é abrir portas para que outros projetos, de estilistas menos conhecidos, também recebam algum incentivo. Acho estranho que, depois de tanto tempo e com tantos talentos no nosso mercado, apenas 3 ou 4 tenham conseguido cavar um espaço nas passarelas do exterior”, explica.

Alexandre concorda: “O setor pode ser beneficiado, pois mais projetos de moda que estão parados por falta de recursos poderão vingar”. Detalhe importante nesse papo todo: não é porque um projeto está inscrito na lei Rouanet que já é garantia de dinheiro. Depois da aprovação existe a fase de captação junto às empresas e inicia-se um logo caminho de convencimento junto a elas para que apostem nos projetos de moda.

“As pessoas esquecem que não existe uma indústria de moda propriamente dita no Brasil. Nosso mercado é dominado pelo fast fashion. Não temos tecido, não temos maquinário e os impostos são surreais”, desabafa Pedro. “Nossas condições beiram o impossível. Na França, quando Lacroix quebrou, o governo ajudou. Que ajuda a Huis Clos recebeu? Apesar de belas palavras, o governo olha para outros setores, mas não para a moda. Marta tem o mérito de ter agido nesse sentido”, conclui.