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Toda geração tem aquele momento em que a indústria da moda “descobre” que homens podem usar salto, babado, rendas e maquiagem, e apresenta essa revelação como se fosse algo novo e revolucionário. Surgem editoriais de “moda sem gênero”,
think pieces sobre fluidez, painéis com especialistas falando sobre o futuro da masculinidade, e, enquanto isso, em algum arquivo, um macacão amarelo de renda e um blazer roxo observavam tudo em silêncio.

 

Muito antes de Harry Styles usar vestido em um ensaio fotográfico, de Billy Porter surgir com uma roupa “ousada” no Oscar ou de qualquer outra celebridade receber aplausos por “quebrar normas de gênero”, Prince Rogers Nelson fez isso primeiro, há quarenta anos, no meio-oeste estadunidense, em um lugar que mal havia terminado de engolir as novidades dos anos 70.

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Ele nasceu em 7 de junho de 1958, em uma família de músicos em Minneapolis, Minnesota. Quando morreu, em abril de 2016, havia deixado mais de 500 canções inéditas trancadas em um cofre, 39 álbuns de estúdio e uma reformulação do que significa masculinidade.

 

No início: biquíni, meia calça e gravata borboleta 

Antes de “Purple Rain” e de qualquer coisa que o mundo conhece como “Prince”, havia um jovem que subia no palco usando calcinha preta de biquíni, meia calça, uma gravata borboleta e um sobretudo customizado com tachinhas. Era 1980, o álbum se chamava “Dirty Mind” e animava as plateias com uma fusão de funk, new wave, punk, R&B e rock.

O trench coat do look era uma referência política: Prince desfez a alfaiataria militar com tachinhas e “fetichizou” o traje com meias e cuecas. Além de tudo, o que o tornava único era o contexto: ele fazia isso sendo um homem negro nos anos 1980, nos Estados Unidos, em um momento em que as expectativas sobre masculinidade – sobretudo a negra – eram muito mais rígidas.

 

Foto: Reprodução/Instagram @prince

Como ele mesmo disse à New Musical Express em 1996: “Acho a liberdade sexy. Acho a liberdade tão sexy que não consigo nem explicar. Você acorda todo dia sentindo que pode fazer qualquer coisa.” 

 

Uma nota sobre a história do salto

Antes de mergulhar na era “Purple Rain”, vale uma notinha para entender o efeito dos pés de Prince. Por grande parte da história, o salto alto era visto como masculinidade, usado por guerreiros, reis e nobres em sinal de força e virilidade. Cavaleiros persas já os usavam desde o século X para manterem o equilíbrio nos estribos. Mas foi no século XVII que os saltos altos ganharam destaque na moda, com Luís XIV da França popularizando o “salto Luís”, sinônimo de realeza e elegância. Só depois disso o salto se tornou exclusivamente do guarda-roupa feminino.

Nos anos 80, quando Prince apareceu de salto ele não estava fazendo algo novo para a história da moda, mas com certeza estava “desfazendo” uma proibição relativamente recente.

 

“Purple Rain” chega ao topo

Em 1984, Prince fez algo que pouquíssimos artistas conseguiram: lançou ao mesmo tempo o álbum número um, o single número um e o filme número um nos Estados Unidos. Antes dele, apenas os Beatles e Elvis Presley haviam conquistado esse feito. O fenômeno foi impulsionado pelo longa-metragem homônimo produzido pela Warner Bros., uma aposta que transformou a trilha sonora em um marco cultural e rendeu a Prince o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original em 1985. Mas o topo das paradas não foi um esforço solitário: ele moldou essa era contando com a colaboração de mulheres na produção e na sua banda de apoio (a The Revolution), uma postura completamente incomum para a indústria fonográfica da época.

O álbum, lançado em junho, saltou para o topo da Billboard 200 em agosto, passando 24 semanas consecutivas no topo e vendendo mais de 25 milhões de cópias no mundo inteiro. Mas para falar da era “Purple Rain” é inevitável falar de quem traduziu esse som em imagem: os figurinistas Louis Wells e Marie France, que buscaram referências no romantismo europeu dos séculos XVII e XVIII, em James Brown e em elementos punk.

O resultado (as camisas com babados, os blazers cravejados, as calças de renda de costas abertas) era político e estético. Prince levou essa identidade visual do cinema direto para os palcos, performando a turnê histórica com os mesmos trajes do filme. O impacto dessas peças permanece tão vivo na cultura que, em 2023, uma de suas icônicas camisas brancas de babados daquela era foi arrematada em um leilão da RR Auction por mais de 33 mil dólares.

 

1.200 pares de sapatos, cor Pantone e um museu em Londres

Prince tem sua própria cor Pantone. Em 2017, a Pantone e o espólio do artista revelaram o “Love Symbol #2”, um roxo escuro inspirada no piano Yamaha violeta que o músico havia encomendado para sua última turnê e que nunca chegou a usar antes de sua morte.

Mas o roxo era só o plano de fundo. Quando o museu Paisley Park, em Chanhassen, Minnesota, abriu a exposição The Beautiful Collection, o acervo continha aproximadamente 1.200 pares de sapatos, todos feitos sob medida e de cores variadas. Havia botas com pêlo artificial, tênis plataforma e até patins com rodas de acrílico transparente iluminadas. Sapatos decorados com contas e lantejoulas, com nuvens pintadas à mão, com tema do Batman, com as assinaturas reproduzidas da Rainha Elizabeth I e de Pancho Villa.

O Victoria & Albert Museum de Londres adquiriu para sua coleção permanente um par de sapatos de cetim preto com estampa floral usados por Prince em 1994. Os zíperes traziam o símbolo “Love Symbol #2” (glifo que funde os signos de Marte e Vênus, significando masculino e feminino como um só) e também tinham reforços de metal especiais entre o salto e a sola, necessários para suportar os famosos saltos acrobáticos de Prince no palco. 

A crítica de moda do New York Times, Vanessa Friedman, escreveu após sua morte que o salto alto era “o fio condutor do guarda-roupa do músico por quatro décadas, a base sobre a qual ele construiu todas as mudanças de moda e personagem”.

 

O look amarelo de renda que parou a TV

Em setembro de 1991, Prince subiu ao palco do MTV VMAs vestido de amarelo de cima a baixo para performar “Gett Off”. A plateia já havia “engolido” bastante coisa vinda dele. Mas quando ele virou de costas e mostrou o que parecia ser suas nádegas completamente à mostra, foi um escândalo.

Era uma ilusão. Marliss Jensen, artista visual que trabalhava com ele,  revelou anos depois que os recortes na roupa não eram recortes de verdade: eram pedaços de tecido tingidos exatamente no tom de pele de Prince.

A jogada funcionou e a performance foi parodiada por Jamie Foxx no In Living Color. Howard Stern apareceu no VMAs do ano seguinte vestido de “Fart Man” numa versão paródia do mesmo traje. Trinta anos depois, Lil Nas X e Lizzo prestavam tributo ao visual no mesmo palco. No VMA de 2023, Bebe Rexha apareceu num vestido de couro com recortes nas costas que fazia referência ao “butt suit” amarelo de Prince.

 

A era “Slave”: da identidade para arma política

O Love Symbol (aquele glifo meio egípcio, meio nota musical, que unia os signos universais de masculino e feminino) apareceu pela primeira vez na capa do álbum de 1992. Criado pelos designers Mitch Monson e Lizz Luce, o símbolo buscou inspiração em Carmen Electra e Mayte Garcia, enfatizando temas de fluidez de gênero e sensualidade.

Em 7 de junho de 1993, o artista optou por mudar seu nome de palco para esse símbolo completamente impronunciável. A imprensa teve que criar um apelido: “The Artist Formerly Known as Prince”. A mudança foi uma reação à disputa contratual com a Warner Bros. Ele escolheu um símbolo impronunciável como uma forma de ser impossível de rotular ou registrar como marca. 

O Love Symbol funcionava ao mesmo tempo como tática contratual, declaração pessoal sobre identidade e um desafio de branding que forçou todos ao redor a mudarem a forma como o referenciavam. 

Prince passou a aparecer em público com a palavra “Slave” escrita na bochecha. “As pessoas acham que sou um louco por escrever ‘slave’ no rosto”, ele disse à Rolling Stone em 1996. “Mas se não posso fazer o que quero fazer, o que sou eu? Quando você impede um homem de sonhar, ele se torna um escravo.”

Foto: Reprodução/Instagram @prince

O mundo chegou até ele

Quando olhamos para trás, percebemos que Prince fez tudo isso sem rede de apoio. Não havia um movimento cultural que o amparasse, nem uma conversa pública sobre fluidez de gênero. O historiador de moda Casci Ritchie, autor de um livro sobre o estilo de Prince, resumiu assim: “Acredito que ele empoderou muitas pessoas a reescrever as próprias regras de moda e incentivou uma autoexpressão sem fronteiras.”

Sua influência, segundo Ritchie, alcança Janelle Monáe, Lil Nas X, Lizzo, Tyler, the Creator, André 3000 e Harry Styles. Inclusive, Monáe chegou a nomear seu hub criativo como “Wondaland” em referência direta ao Paisley Park, residência, estúdio de gravação e refúgio criativo de Prince.

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O fato é que a indústria que hoje fala sobre fluidez como uma grande novidade, está vivendo em um mundo que Prince já colonizou há 40 anos.