Versão da joia com banho de ouro amarelo – Foto: Divulgação

Pense em uma joia que, ao mesmo tempo, guarda seu perfume favorito. A ideia não é nova. Já no século 19, garrafinhas decoradas com ouro, prata e pedras preciosas faziam sucesso entre as damas europeias. De tão ornamentadas, viravam facilmente pingentes para colares escondidos por decotes de vestidos de festa suntuosos.

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Esses frascos com acento art nouveau hoje estão em museus e em alguns dos melhores antiquários. Foi justamente por causa do formato que as joias da neomarca Monolito, criadas pela designer colombiana Andrea Vargas Dieppa, captaram imediatamente minha atenção.

Suas peças, que também acondicionam perfume, são verdadeiras esculturas, mas o tamanho, quase uma extravagância, é suavizado pelo minimalismo das formas geométricas. “Os frascos são baseados em imagens que remetem ao masculino e feminino”, diz a designer, que optou por representar os gêneros por meio do quadrado e da esfera.

Frasco Tisk em prata – Foto: Divulgação

Ela conta que, em suas pesquisas, deparou com a forma pré-colombiana da Vênus. “Achei impressionante, o que me levou a focar bastante no feminino. A primeira safra (lançada no ano passado) é uma abstração muito gráfica de todas essas ideias”, afirma Andrea, que, ao invés de lançar coleções, prefere sequências atemporais. “Sempre pensei em uma continuação com um toque de novidade.”

Vêm daí os novos anéis, endereçados ao dedo mindinho. “Alguns são bem grandes para essa posição”, diz ela. É esse descompromisso com coleções fechadas que explica o fato de escolher nomes somente para as peças. “Eles vêm de cidades imaginárias da literatura, retirados do Dictionary of Imaginary Places”, revela, referindo-se, por exemplo, aos pingentes Sitara e Tupia.

Apaixonada por viagens e miniaturas, ela conta que tudo começou trabalhando com artesãos colombianos em pequenos objetos que, mais tarde, viraram os frascos e, então, joias. Elas consomem cerca de 15 horas dos ourives e são feitas de liga metálica alpaca (junção de cobre, níquel e zinco), prata e ouro. “Frascos são um conceito do mundo antigo e do mundo novo. Tinham um uso indispensável, e muitos designs carregavam ideologias profundas”, observa Andrea, que se orgulha de incorporar ao projeto a praticidade aliada ao conceito contemporâneo de sustentabilidade.

Sua preocupação social está relacionada à reciclagem dos materiais utilizados e ao fato de ser possível renovar a quantidade de perfume, que pode ser a deliciosa fragrância “Shandy Shandy” – nome que ela tirou de um livro sobre uma sociedade secreta e significa alegre, lunático.

Pendente aberto e funil para encher o frasco com perfume Tisk, em alpaca com banho de ouro rosa – Foto: Divulgação

A fórmula traz notas de pimenta zimbro, jasmim rosa, cera de abelha, mirra, incenso, patchouli e camurça, e foi desenvolvida com o amigo e perfumista francês Barnabé Fillion, que está por trás de fragrâncias de Paul Smith e Aesop. “Verdade seja dita, foi um projeto que fizemos apenas por diversão, mas acabou sendo uma criação fantástica, que merece ser compartilhada”, diz Andrea, que estudou design gráfico em Nova York e passou dez anos na Cidade do México, onde dividiu, com a designer Elisa Restrepo, o comando da marca de sapatos artesanais Dieppa Restrepo.

Atualmente morando em Bogotá, a designer também está se debruçando sobre o desenvolvimento de móveis e projetos de decoração de interiores, além das joias que guardam perfume e que estão à venda, no Brasil, na multimarcas Pinga, em São Paulo. “Monolito significa uma pedra, era então o nome ideal (para a marca), pois se referia à singularidade de cada peça e a sua criação”, conta ela. O que move esse processo, acrescenta, é encontrar o equilíbrio entre utilidade e arte.