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Arquitetando Memórias: a mulher amante de brechós

Arquiteta gaúcha apaixonada por vintage faz uma curadoria de memória, sustentabilidade, arquitetura, moda, arte e storytelling

by Ligia Kas
Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Quando criança a arquiteta gaúcha Marlene Chaves odiava seu nome “Meu nome era considerado um nome antigo, era nome de tia, de avó, não de criança. Ninguém na escola se chamava Marlene, as meninas se chamavam Carolina, Daniela, Fernanda, só eu tinha aquele nome tão fora do comum”. Hoje, aos 37 anos, ela ama seu nome e entende que nada nesse mundo é por acaso. Amante de tudo que é antigo, retrô e vintage, Marlene brinca que é uma sacoleira vintage “só que não garimpo em Miami, lá é só para curtir praia”.

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Morando em Porto Alegre, Marlene se casou com um cientista político de Chicago e as viagens para os Estados Unidos passaram a ser frequentes. Rata de brechó, ela visitava todas as second hand stores em suas viagens. Os lugares que visitava serviam para garimpar peças incríveis, mas também inspirar em seu trabalho. “Acho que moda é um universo muito amplo e quando visito brechós meu lado arquiteta, decoradora, paisagista, designer de interiores, tudo isso aflora muito em mim, são muitas conexões e ideias que tenho e vice-versa, se visito uma cidade com arquitetura histórica, estética única, isso reflete muito nas minhas escolhas na moda. O processo de construção criativa é muito semelhante, não é só forma e estética”. Não à toa, seu estilista favorito é Emilio Pucci. Nos anos 70 a Pucci foi inovadora ao criar além de roupas artigos de design, decoração e móveis.

No Brasil a conexão entre moda e arquitetura é mais recente. Marcas como Melissa ajudaram a disseminar essa cultura em parcerias colaborativas com designers e arquitetos de renome como Zaha Hadid, que foi a primeira mulher a vencer o Prêmio Pritzker, o maior prestígio na arquitetura. A sandália criada pela Melissa e Zaha Hadid ficou tão famosa que virou uma escultura gigante dentro da galeria da marca de sapatos de plástico em São Paulo. Marlene reconhece a importância de Hadid na moda, mas seu arquiteto favorito quando pensa nessa conexão é Luis Barragán, um mexicano que já inspirou marcas de luxo como Louis Vuitton. Uma das marcas favoritas de Marlene, a DelPozo também usa e abusa das referências do arquiteto mexicano.

Foro: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Foi em 2013 durante as férias em Chicago e no Arizona com o marido, que Marlene teve a ideia de garimpar peças que tivessem além dos códigos necessários nos dias de hoje, como sustentabilidade e qualidade, o senso de estética, forma, fantasia, criatividade. Assim nasceu a Usufruída, um brechó 90% online e 10% experiência arquitetônica, como ela define. Em parceria com o amigo e sócio Marcio Lima, um produtor cultural com anos de experiência no meio artístico de Porto Alegre, ela realiza eventualmente o Brechó Usufruída em um loft com arquitetura no estilo Soho nova-iorquino na principal rua de Porto Alegre, a Rua dos Andradas, mais conhecida como Rua da Praia.

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

No espaço amplo, com o charme da luz natural da rua da praia e quase em frente à Casa de Cultura Mario Quintana, Marlene espalha nas araras cada peça que garimpou em suas viagens. Embora garimpe algumas marcas de luxo, roupas e bolsas das marcas Dior, Yves Saint Laurent e Christian Dior ela conta que sua paixão é pelo lifestyle 80/90 que está super em voga agora: “Eu leio muito sobre tendências e me baseio 50% nelas e 50% no meu conhecimento na hora de garimpar as peças que vendo na Usufruída. Hoje garimpo muitas peças Wrangler e Lee que são compradas da fonte, da lojinha que nunca tirou da caixa a camisa, no interior dos EUA. A calça Lee que o roqueiro hispter ou mod amaria ter original da época. Eu também aposto muito em marcas como Fila, Ellesse, Le Coq Sportif, Diadora. Todos com referência retrô, no mínimo dos anos 90 pra baixo. Houve uma época em que se falava que as marcas e estilistas não gostavam do movimento vintage, dos brechós e lojas de segunda mão. Isso é pura bobagem, a Fila, por exemplo, vive um revival incrível vendendo muito e com conceito cult graças ao resgate da marca pelas pessoas que tem esse lifestyle, que curtem o visual tenista anos 80. O mesmo aconteceu com a Lacoste e muitas outras marcas só tem a se beneficiar quando uma marca passa a ser objeto de cobiça em brechó, é sinal que ela ainda mora no coração das pessoas”.

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Além dos bazares ocasionais que Marlene promove no loft do centro histórico de Porto Alegre, seu investimento tem sido no Instagram e plataformas virtuais. E uma das ideias que tem investido é no storytelling, pedindo que cada pessoa que compra alguma peça em seu brechó, envie em até um ano um texto contando uma história interessante que viveu com aquela roupa ou acessório, com uma foto usando o produto. Os textos e fotos são postados nas redes sociais da Usufruída. A ideia é, além de incentivar o consumo consciente e sustentável, contar memórias que as roupas carregam e incentivar que a pessoa, caso passe a peça adiante também incentive seu futuro usuário a relatar histórias vividas com aquele look.

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

“É uma arquitetura de memórias através da moda. Talvez vire uma exposição futura, talvez um livro, ainda não sei, por enquanto estou adorando ler historinhas sobre roupas que já viveram histórias lá nos Estados Unidos, que garimpei com amor e carinho tão longe e que participam de momentos tão legais da vida de outras pessoas. Me sinto um agente importante porque não estou só vendendo roupas, estou passando adiante e perpetuando a história de objetos carregados de memórias e referências”.

Marlene afirma que além dos clássicos vestidos, saias, conjuntinhos, casacos e jaquetinhas sempre compra muitos looks lindos masculinos e plus size. Os preços variam entre R$ 30 e R$ 250.

O próximo Usufruída Brechó acontece no sábado (15.06), das 14h as 21h, na Rua dos Andradas, 673, no centro histórico de Porto Alegre.

Instagram: usufruida_brecho

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