Prada, inverno 2019 - Foto: Divulgação
Prada, inverno 2019 – Foto: Divulgação

Frankenstein somente compreende que suas feições imperfeitas fazem dele um monstro quando é rejeitado por seu criador. Sua conduta a partir daí garante o sucesso da obra escrita por Mary Shelley há 200 anos. Os questionamentos metafóricos da autora sobre a humanidade caem tão bem no cenário contemporâneo que Miuccia Prada se inspirou no anti-herói duas vezes este ano.

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Em janeiro, entre ternos bem cortados para o menswear, ela incluiu 20 vestidos com florais bold conectados a referências vindas do militarismo, traçando uma atmosfera romântica nada convencional. Sombria, quase um sentimento de frio que atravessa a espinha, acabou virando uma coleção inteira feminina, apresentada no mês seguinte, na mesma passarela montada na Fondazione Prada, em Milão.

Famosa por não dar ponto sem nó, a estilista italiana estava interessada em falar sobre o ser humano e suas fraquezas – como insegurança e escuridão –, e o cenário europeu contemporâneo, que não é nada positivo. Ao transportar a história de Shelley para o domínio das mulheres, foi natural que surgisse uma noiva para aquecer o sofrido coração de Frankenstein.

Prada, inverno 2019 - Foto: Divulgação
Prada, inverno 2019 – Foto: Divulgação

Com cabelos trançados como os da Vandinha da “Família Addams” – a série criada nos anos 1960 chega ao cinema no segundo semestre, em formato de animação –, as modelos mostraram uma coleção híbrida, misturando alfaiataria e couture, masculino e feminino, contos de fadas e punk, uniformes e rendas, botas pesadas e sapatos cobertos de glitter, flores e bolsos utilitários.

Miuccia Prada não está sozinha ao mostrar que a visão romanceada de um mundo perfeito deu lugar a um cenário colérico. De Londres a São Paulo, as marcas têm levado para a passarela neste 2019 discussões sobre as batalhas femininas diárias, sintomas bélicos que tomam conta de várias capitais, atitudes de retrocesso social e críticas a intransigências. Tudo isso sob o guarda-chuva de uma falsa impressão de que uma tendência romântica, com florais e shapes lady like, invade o closet.

Valentino, inverno 2019 - Foto: Divulgação
Valentino, inverno 2019 – Foto: Divulgação

Há, no ar, uma visão nostálgica de leveza, inocência e felicidade eclipsada por acontecimentos sociais e políticos. São sonhos distantes capturados também pela antena sensível e realista de Pierpaolo Piccioli. Em parceria com Jun Takahashi, da Undercover, ele criou a estampa do beijo neoclássico do século 19 entrelaçado a uma rosa pop-punk que alinhavou toda a coleção, junto com fragmentos de textos sob influência do Movimento pela Emancipação da Poesia, que, anonimamente, estampa muros ao redor do mundo com um pouco de ternura.

Marc Jacobs, inverno 2019 - Foto: Divulgação
Marc Jacobs, inverno 2019 – Foto: Divulgação

Marc Jacobs transitou entre extremos e delicadeza, investindo em exercícios de volumes e materiais.

Erdem, inverno 2019 - Foto: Divulgação
Erdem, inverno 2019 – Foto: Divulgação

Entre vestidos cobertos por uma nuvem de tule preto, lenços finalizados com laços expressivos, bordados e estampas dramáticos, o jovem designer Erdem Moralioglu (Erdem) transformou em moda a vida e o estilo da principessa italiana Orietta Doria Pamphilj (1920–2000), cujo pai foi preso por resistir ao fascismo de Mussolini, para falar de como lidamos com o passado.

Simone Rocha, inverno 2019 - Foto: Divulgação
Simone Rocha, inverno 2019 – Foto: Divulgação

Seguindo caminho semelhante, mas dentro de sua pegada autoral, Simone Rocha – outro nome em ascensão – passeou entre a artista plástica Louise Bourgeois e o controverso filme de terror “A Tortura do Medo”, de 1960, em que um psicopata gravava as expressões de terror das mulheres que matava.

Saint Laurent, inverno 2019 - Foto: Divulgação
Saint Laurent, inverno 2019 – Foto: Divulgação

Até mesmo Anthony Vaccarello arriscou uma visão particular sobre o tema, com o microvestido de paetês e decote em formato de coração com garras – ou seriam dois felinos espelhados, como se estivessem digladiando?

Alexander McQueen, inverno 2019 - Foto: Divulgação
Alexander McQueen, inverno 2019 – Foto: Divulgação

Outro momento primoroso dos desfiles inverno 2019 foi a coleção da Alexander McQueen. Sarah Burton traduziu a vibe bad romance em uma alfaiataria inventiva, nada fácil, ora flertando com a couture, ora com o movimento punk. Para arrematar, flores modeladas em tecidos preciosos e estampadas. Forte, sensível, inconformista.

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