Em formato 100% digital pela primeira vez, o terceiro dia da semana de moda Casa de Criadores, apresentado na quarta-feira (25.11), teve muitos vídeos experimentais e criativos.

Acima você assiste a apresentação completa, e abaixo listamos os destaques dos shows:

Heloisa Faria

A coleção “Amuleto” fala de proteção e do olhar para si, na construção da autoestima baseada no conforto, liberdade e afeto. “Nesse contexto, durante o confinamento, pude olhar com calma para a história da marca dentro do meu próprio guarda-roupa, peças atuais ou que desenvolvi anos atrás”, conta a estilista Heloisa Faria sobre suas propostas apresentadas na Casa de Criadores.

E deste “olhar para si” surgem peças desconstruídas para serem reconstruídas com outra função e design, tanto partindo de roupas vintage quanto de roupas da marca de anos atrás. Tecidos de coleções passadas deram origem a peças para serem usadas sobrepostas.

A proteção do corpo físico foi a base para o desenvolvimento dos looks criados com o tecido Resiklo, da Tecelagem Canatiba. Cheias de bolsos e funcionais, as peças tiveram uma forte referência nas mulheres de Kasimir Malevitch, operárias sempre vestidas para enfrentar a lida diária, hoje com o agravante da pandemia. Em parceria com a CHT, o tratamento antiviral Viroblock foi aplicado em toda a coleção.

Alexandre dos Anjos

Alexandre dos Anjos – Foto: Divulgação

“Acessar divindades que vivem em dimensões invisíveis, fazer a ancestralidade interna emergir, pulsar, queimar e florescer, meu corpo é como a terra fértil, meu corpo entende que é ancestralidade, meu corpo entende que é divindade e eu entendo que sou Deus”, resume Alexandre dos Anjos sobre sua nova coleção.

Com temática africana, ele pinta manualmente jaquetas jeans e costura direto no manequim vestidos com belas estampas.

Ellias Kaleb

“Inspire” é o tema da coleção de Ellias Kaleb para a próxima temporada. Em um vídeo filmado ao ar livre, o estilista mostrou uma linha muito artística, com a estampa do mesmo cenário do show estampada em vários looks. Toda em tecido off-white, o upcycling fica claro nas amarrações inusitadas que aparecem com força, como que uma proteção às dificuldades que estamos enfrentando. Uma moda sem gênero para pessoas guerreiras.

Dario Mitmann

“Plasma” é um projeto artístico que pesquisa moda, tecnologia, música e comportamento de Dario Mitmann. “O projeto piloto Plasma 00 apresenta dois processos criativos complementares, inside e outside. Nesses processos, elementos físicos e virtuais mesclam-se, guiando tanto o percurso da pesquisa quanto a narrativa do desfile”, conta o estilista. Entenda:

Inside
Qual o futuro da vestimenta quando nossos corpos se tornam avatares em ambientes virtuais? Na primeira fase do projeto, partimos dessa pergunta de fora para dentro: a modelo Gabriella Van de Beld é escaneada e seu corpo torna-se digital. A partir da existência do avatar, foi criada uma skin inspirada em biodesign e futurismo tecnológico. Nesta fase, abordamos possibilidades das roupas numa realidade imaterial e necessidades imagéticas do corpo que a veste.

Outside
Como podemos expandir os limites da realidade aumentada? Na segunda fase do projeto, partimos dessa pergunta de dentro para fora: peças criadas digitalmente ganham materialidade por impressão 3D. A partir do desafio de criação de produtos à distância, o desenvolvimento aconteceu na nuvem para só depois ser exportado para o mundo físico. Inspiradas em construtivismo aliado a tecnologia, as peças abordam como processos computacionais podem gerar uma estética própria, harmoniosa e caótica ao mesmo tempo.

Bold Strap

A coleção “Bold Army”, apresentada pela marca Bold Strap, é uma afronta ao militarismo machista e ditatorial. Uma crítica à construção e limitação do binarismo de gênero e uma resposta em forma de deboche às ameaças neo-fascistas da política atual. A Bold Army também é sobre fetiche e acima de tudo é sobre a celebração do queer.

As roupas apresentam signos da estética dos uniformes militares como camuflados, bolsos utilitários, caps, luvas, harness e tecidos estruturados como sarjas, aplicados com o objetivo de desconstruir a rigidez e binarismo do militar por meio de maxiestampas fetichistas (ilustradas pelo artista plástico Fepelino), materiais transparentes como rendas, telas e plásticos, e também incorporando formas baseadas no universo da lingerie.

A coleção apresenta elementos e estampas que remetem ao perigo, como arames farpados, cobras e dragões e chamas de fogo, tudo isso como uma resposta irônica à acusação de que os LGBTQIAP+ representam uma ameaça à família, à moral e aos bons costumes.

Diegogama

A coleção “F43.1”, de Diegogama, tem no estresse o seu eixo construtor. Não como uma escolha, mas como uma condição de criação em meio a tanta incerteza. Se o fora não é agradável, voltar-se para dentro se torna uma ação impreterível. O estilista busca na sua bagagem uma forma de conseguir entender modos de lidar com o presente.

Padronagens são criadas a partir de traumas no sentido literal da palavra: uma ferida, uma ruptura, um erro. Isso é representado pelas listras que se deformam pelas peças, pela estampa “Fora do Ar” que surge a partir de imagens de monitores de TV de tubo sem sinal ou pelo desencontro de listras de tecidos.

As formas amplas características da diegogama são domadas. Godês criam pregas e um formato de casulo é criado como uma resposta a essa busca por segurança que protagonizou o sentimento de todos ao longo do ano.