Clô Orozco - Fotos: Harper's Bazaar
Clô Orozco – Fotos: Harper’s Bazaar

por Maria Prata

A primeira vez que ouvi falar de Clô foi como a “madrasta do Badá”. Eu tinha 15 anos, mal sabia que trabalharia com moda, e estudava com o filho de Carlos Alberto Dória, seu marido na época.

Me lembro de entrar no apartamento deles e me maravilhar com tanta sofisticação. Ficava imaginando como seria aquela mulher que decorou cada canto com tamanho capricho. Não demorou muito tempo para descobrir. O apartamento em Higienópolis, de concreto aparente, cozinha aberta para a sala com panelas e apetrechos dos mais incríveis pendurados a ganchos, claro, era a tradução perfeita da pessoa elegante, porém discreta; sofisticada, porém ultracool, que Clô Orozco foi.

Hoje, portanto, a moda fica menos tudo isso. Menos inteligente. Menos delicada, feminina. Menos Huis Clos. O inferno são os outros, disse Sartre no livro que, em suas mãos, virou moda. Mas o inferno que ela mesma estava vivendo, o qual acompanhávamos de perto, mas com certa distância, foi insuportável para ela.

Clô não aguentou tantas coisas pelas quais muitos de nós, profissionais da moda brasileira, estamos passando. Falta de dinheiro, de espaço, de possibilidades. Falta  total, em seu caso, de esperança de qualquer melhora. Teve de enxugar a empresa e, junto a ela, tantos sonhos. Não aguentou.

A morte da Clô, além de notícia tristíssima, é o retrato mais duro de uma época. E, por isso, fala alto, com cada um de nós. Resta saber como vamos reagir a este susto. Clô Orozco morreu. Nossa moda, que nunca será a mesma sem ela, ainda podemos tentar salvar.