Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Em setembro de 2017, na temporada de moda de Milão, a Versace fez um desfile histórico em homenagem ao seu fundador, Gianni Versace. Donatella, irmã do estilista e atual diretora criativa da grife, levou para a passarela não apenas releituras das mais emblemáticas criações de moda de Gianni, mas também um time de tops que foram símbolo dos anos 1990: Carla Bruni, Claudia Schiffer, Naomi Campbell, Cindy Crawford e Helena Christensen . Ao som de “Freedom”, de George Michael, as veteranas foram estrelas do show.

Mas a trajetória de Donatella ao assumir a direção da marca italiana não foi fácil. Em entrevista concedida à dupla Michael Ebert e Sven Michaelsen para a revista digital SSENSE, ela se abriu e falou sobre drogas, a dura realidade de herdar uma marca tão poderosa e sobre a polêmica série que retrata a morte de seu irmão na TV, “Amernican Crime Story: The Assassination of Gianni Versace”. Confira alguns trechos marcantes do bate-papo a seguir:

 

Sobre o testamento de Gianni, que deixou para você 20% da empresa; ao seu irmão Santo, 30%; e para sua filha Allegra, na época com 11 anos, os 50% restantes…

Gianni idolatrava a minha filha e sempre a chamava de ‘minha princesinha’, mas ele colocou um tremendo fardo sobre ela com esta decisão. Ao dar metade da Versace para minha filha, ele me obrigou a assumir a responsabilidade pela empresa até que ela atingisse a maioridade. Sem esta condição, eu poderia ter deixado a empresa após sua morte.

Sobre a pressão e seu vício em cocaína…

Eu cometi um erro após o outro quando tentei inserir a essência de Gianni nas coleções da Versace. Mas nunca foi suficiente. Sempre que eu tentava algo novo, as pessoas balançavam a cabeça e diziam: ‘O que ela está fazendo agora?’ Foi só depois de sete ou oito anos que me tornei mais forte e aprendi a lidar com a pressão de ter um gênio como irmão.

Nos poucos momentos em que fiquei sozinha com o meu vício, percebi que estava muito, muito doente – mas então o próximo compromisso estava me esperando novamente. Algumas noites eu não conseguia mais funcionar e me envergonhei na frente dos meus filhos. Meu ódio por mim se tornou cada vez mais intenso.

Sobre a sua aparência…

Meu cabelo ficou mais loiro, minha maquiagem mais exagerada. Eu senti como se o mundo todo estivesse olhando para mim  e criei uma máscara para me proteger. Eu não queria que ninguém visse pelo que eu estava passando.

Eu era o novo rosto da Versace. Quem compra moda de uma designer fraca e instável que está louca porque usa drogas e, portanto, não consegue se segurar? Ninguém! Então eu criei uma segunda Donatella: fria e distante, agressiva e assustadora.

Sobre a série “American Crime Story: O Assassinato de Gianni Versace”…

Eu não tinha ouvido falar do livro “Vulgar Favors” (de Maureen Orth) até o ano passado. Depois de ler, enviei uma lista de erros factuais para a produtora que trabalhava na série de TV.

Sobre a alegação de Anna Wintour, “Armani veste a esposa e Versace veste a amante” …

Sim, eu amo essa atribuição de papéis. As amantes se divertem muito mais do que as esposas.

No momento mais feliz de sua vida …

Gianni me fez sua confidente mais íntima aos 12 anos de idade. Ele fez minissaias legais de couro para mim, me levou a discotecas e me tratou como uma mulher. Eu amava sua loucura e sentia os olhares invejosos das minhas amigas sempre que íamos a um show de rock. Foi o momento mais feliz da minha vida. Me sentia como uma adulta, mas tinha a perspectiva de longo prazo de uma criança. Pensei que minha vida inteira seria assim.

Leia também:
Versace deixará de usar pele de animais nas suas coleções

Sobre a sexualidade de Gianni …

Ele foi um dos primeiros homens na Itália a lidar com sua sexualidade abertamente. Eu tinha 11 anos quando ele me explicou exatamente o que estava acontecendo com sua sexualidade. Eu o agradeci por sua franqueza e me senti enobrecida.

Sobre seu ego…

Não tenho medo de pessoas que possam fazer mais do que eu. Pelo contrário, estou à procura deles. Porque qualquer estilista que apoia apenas sua própria ideia logo se afundará. Meu ego pode lidar com um funcionário de 25 anos e dizer para ele: ‘Ontem pensei que sua ideia estava errada, mas agora ela faz sentido para mim e é melhor do que a minha’

Sobre mudar o seu visual…

Não mudaria, pois não me reconheceria. Karl Lagerfeld não se reconheceria sem óculos de sol. Além disso, ser loira é um estilo de vida. Você enfrenta o mundo como uma Amazona. Eu sobrevivi às catástrofes da minha vida por causa da força que meu cabelo loiro me dá.

Estar sozinha …

Por que as mulheres precisam de homens hoje? Certamente não para provar força, determinação e independência. Os homens são necessários apenas para affairs e para o relaxamento físico.

Sobre como se vestiria se tivesse que estar diante de Deus …

Eu usaria salto alto.