Irmãs de Goeye contam a história da marca em livro

Com fotografia de Christian Maldonado, publicação está prevista para ser lançada em novembro de 2019

by Silvana Holzmeister
Foto: Christian Maldonado

Foto: Christian Maldonado

Mais do que comprar uma roupa, levar uma peça especial para casa tem a ver com experiência. É o que vem instantaneamente à cabeça ao chegar na De Goeye, na movimentada Rua Joaquim Antunes, em São Paulo. Atravessar a porta instalada na fachada discreta e minimalista é um convite para desacelerar. O aroma suave e o corredor com folhagens verdinhas conduzem primeiro a um lounge com café e, somente depois, à loja. Nesse momento, você já está preparada para saborear araras repletas de peças criadas a quatro mãos pelas irmãs Fernanda e Renata de Goeye.

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Por lá, tudo começa pelo tecido, pode levar cerca de quatro meses entre o protótipo e a peça final e é dividido por fases em vez de coleções – porque a ideia é de soma e não de divisão. Foi para registrar esse universo, que tem a ver com comportamento, preciosismo e dinâmica de ateliê, que a dupla convocou o fotógrafo Christian Maldonado. A ideia inicial era reunir um material que pudesse transmitir a essência da marca nas mídias digitais. “Mas o resultado ficou tão bom que decidimos imprimir em formato de livro”, contam Fernanda e Renata na sala de criação, cercadas de amostras e mapeamentos das séries produzidas recentemente e as que virão muito em breve.

Foto: Christian Maldonado

Foto: Christian Maldonado

Com lançamento previsto para o início de novembro, a publicação, com cerca de 120 páginas, vai contar, em textos e imagens, a história e o savoir-faire da marca que sintetiza raízes ligadas a um luxo nonchalant. O projeto inclui, ainda, a terceira irmã, Claudia, que cuida da área administrativa. Daí o título do livro: “AS3″.

Maldonado conta que o ponto mais fascinante do processo foi a criação de uma narrativa a partir de um montante de 1.300 fotos clicadas com a câmera sempre na mão. Há uma poética na edição das imagens, retratando a história por trás da marca e as conexões entre os departamentos da empresa. O livro, de autoria do fotógrafo, vai sair pela Schoeler Editions, que ele comanda ao lado de outros três parceiros. Um deles, Marcelo Greco, assina a edição da publicação, e Cesar Peña o projeto gráfico, enquanto Tissy Brauen foi convidada para fazer a produção.

Na marca, tudo está muito voltado para a herança familiar. O nome e o logotipo da marca dizem muito sobre tempo, confiança, sinceridade e união de talentos. Escrito com letras puristas, De Goeye era a butique que Enrique, o bisavô francês do trio, manteve entre os anos 1940 e 1970 na região central de São Paulo e onde vendia artigos selecionados de marcas como Hermès e Piaget, marcas que têm no fazer artesanal e na qualidade dos materiais os maiores trunfos. O resgate desse passado diz muito sobre o presente.

Foto: Christian Maldonado

Foto: Christian Maldonado

O endereço atual foi pensado para entregar um produto especial, que começa no corpo de uma modelo e termina no da cliente. Além da loja e da criação, o espaço tem um salão de modelagem e costura com seis profissionais para exercícios na peça-piloto e produção do modelo final e que ainda dá todo o suporte para os ajustes sob medida. “Temos uma equipe unida que ama o que faz”, diz Fernanda.

Invariavelmente, as criações começam por preciosos tecidos importados, italianos e franceses, de fornecedores que também produzem para marcas como Chanel. “Procuramos por fábricas que produzem sob medida, nas cores que precisamos e em pequenas quantidades”, explica Renata. A ênfase é para fibras naturais, como seda, linho e algodão, que dão vida a peças que transitam por compromissos diversos e encaram, sem cerimônia, um sem número de looks. “Adoramos a ideia de uma roupa como reflexo do comportamento”, explica Fernanda.

É esse conceito que sustenta a decisão de reunir as criações em fases. Atemporais, convivem em perfeita sintonia e não são estranguladas por liquidações. “Estruturamos o processo para que as peças possam ser misturadas”, reforça Renata. Outra assinatura é o perfume étnico. “Não é intencional. Tem a ver com a nossa história de vida”, explicam as duas.

Quando ainda eram bem pequenas, o pai foi transferido pela multinacional em que trabalhava para a Nigéria, na África, e entre 1980 e 1984, a família morou em Lagos. “Isso ficou na gente e nossa mãe é superétnica”, reforça Fernanda. Mas não pense em estampas africanas. É um link que fica evidente nas araras, quando salta a visão de conjunto de um rústico sofisticado.

Foto: Christian Maldonado

Foto: Christian Maldonado

Essa herança familiar e cultural é pilar do design da marca. Algo que estava sendo germinado nos projetos individuais que a antecederam. Fernanda comandou a Raia de Goeye ao lado da antiga sócia, Paula Raia, até 2010, onde Renata trabalhou durante um tempo até seguir voo solo com a Erre, que tinha um mood mais casual, e contava com Claudia no financeiro. Foi em 2013 que as irmãs perceberam que deveriam unir forças.

A De Goeye nasceu low profile há cerca de quatro anos e há dois ocupa o espaço no bairro de Pinheiros. “Encaramos como um começo mesmo, e o negócio tem um tempo para tomar forma, ganhar posicionamento”, analisa Fernanda. O livro promete eternizar esse percurso.