Fotos: Agência Fotosite e divulgação
Maison Margiela, Gucci, Lanvin, Marc Jacobs e Céline, tudo do inverno 2015 – Fotos: Agência Fotosite e divulgação

Por Luigi Torre

Foram duas revoluções de estilo que marcaram os novos rumos desta temporada: uma italiana e uma franco-belga com sotaque inglês. Pouco antes, já havia sinais de tais mudanças, mas foram as estreias de Alessandro Michele no feminino da Gucci e de John Galliano no prêt-à- porter da Maison Margiela que definiram o zeitgeist do momento. Depois de estações apáticas, dominadas pelo minimalismo, pelos básicos deluxe e pelo já desgastado termo normcore, a moda volta a estar na moda – e com toda pompa e extravagância. Se a norma pedia invisibilidade (se misturar e desaparecer na multidão), agora é o oposto: ter voz, imagem e identidade própria. Cada um a seu modo.

A palavra aqui é pluralidade, qualidade cada vez mais em alta na vida moderna. E pluralidade de estilos, referências, décadas, texturas, adereços, estampas, cores, de tudo! Na Lanvin, Alber Elbaz fala disso há tempos. Dries Van Noten também, e, recentemente, o assunto se tornou a obsessão de Miuccia Prada, em sua Miu Miu. Mas o que confere frescor ao tema são os novatos. Neste inverno 2015, Phoebe Philo olha para a difícil tarefa de sintetizar os conceitos femininos e rompe com o minimalismo gráfico das coleções passadas da Céline. O que chama a atenção é a variedade de ofertas, dos macacões texturizados com patches de flores às maxibolsas, slip dresses em duas camadas, com pompons de pele, e a beleza que muda de modelo para modelo. A vontade de somar se faz presente também na reviravolta que Galliano orquestra na Maison Margiela. Também se valendo de belezas únicas para cada modelo, o estilista adiciona alta dose de romantismo e dramaticidade em looks de alfaiataria desconstruída, ao lado de vestidos estilo anos 1920, com franjas, brocados e jacquards de aspecto envelhecido e com o avesso no direito. Com uma apresentação performática, a cada entrada na passarela ficava latente o foco nas identidades distintas.

Mas quem melhor representa esse novo momento é Alessandro Michele, na Gucci. Com ricos tecidos de aspecto vintage, estampas e bordados dos mais preciosos, ele anula a definição entre os gêneros e dá cara própria a cada um de seus modelos – os quais, sobre uma passarela que simula uma estação de metrô, parecem recém-saídos do Brooklyn, em Nova York. Excêntricos, sem dúvida. Românticos, mais ainda. Mas em nada escapistas ou irreais.

Não deveria ser surpresa, então, que muitas dessas coleções têm como referência a estética do cineasta Wes Anderson – com destaque para Os Excêntricos Tenenbaums, longa em que o figurino é essencial na definição dos personagens. Nesta temporada, a roupa também volta a ser ferramenta primordial na construção da imagem. Só que, agora, com mais glamour, mais exuberância, bom humor e diversão. Afinal, os tempos ainda andam bicudos, mas ninguém aguenta mais ouvir falar em austeridade. Nem a gente, nem as marcas (Maison Margiela e Gucci já dão sinais positivos de vendas, mesmo em fase de economia difícil). Some a tudo isso a saturação de imagens pasteurizadas, meio que ressaca do boom digital, quando tudo precisou ficar rapidamente compreensível. E se esse conceito parece distante do closet prático-chic construído nos últimos anos, não se preocupe. Nesse momento, básicos e excêntricos formam um casamento perfeito, e são porta de entrada para um mundo de possibilidades. Divirta-se.