Raf Simons durante a semana de moda de Milão
Raf Simons durante a semana de moda de Milão

Por Vivian Whiteman

Quando status e poder funcionam como termômetros para medir o sucesso de uma vida, atos de desprendimento costumam ser vistos com misto de desconfiança e espanto – e também como indício de que algo pode estar mudando a maneira como escolhemos viver. Foi assim quando Raf Simons anunciou sua saída da Dior, em plena fase de boas críticas, vendas e aplausos. O belga foi seguido por Alber Elbaz, que deixou seu posto na Lanvin.

Antes deles, ainda que por motivos diferentes, a não-renovação do contrato de Alexander Wang, depois de apenas três anos, com a Balenciaga, o desligamento de Marc Jacobs da Louis Vuitton e mais todos os já sabidos casos extremos (do ataque de nervos de Christophe Decarnin, na Balmain, ao suicídio de Alexander McQueen e o surto antissemita de John Galliano) serviam de alerta.

Muito se especulou sobre o porquê dos recentes movimentos dos designers. Raf contou que se dedicaria a sua marca própria e a outros projetos pessoais – ou seja, voltaria a ser dono do próprio nariz e, mais ainda, de seu próprio tempo. Em seu último desfile para a marca, o de inverno 2016, ele falou bastante – e abertamente – sobre como vinha questionando muito o atual sistema. Inquietação define. Já Alber, que vinha botando a boca no trombone fazia algum tempo, foi mais enfático. Em carta aberta, explicou que o excesso de atividades, produtos e coleções a entregar tinha virado motivo de atrito constante entre ele e o alto-comando da grife.

Alber sempre foi um dos grandes defensores da desaceleração da moda, ao lado de tantos outros estilistas atolados em prazos e coleções produzidas a toque de caixa. Mas não se trata apenas de profissionais criativos que avaliaram estar “trabalhando demais” e decidiram dar no pé. É claro que o processo de construção de coleções tem sido pasteurizado, para dar conta dos lançamentos contínuos, que a imaginação tem perdido espaço demais para o pragmatismo comercial, que a dança frenética da novidade tem gerado cada vez mais mesmice. Mas não é só isso.

Estilistas talentosos são pessoas sensíveis a certos movimentos do mundo, às vezes inconscientemente. Como tantos outros indivíduos que pensam além do óbvio e têm intuições, eles vivem o tempo, não apenas o observam passar ou o preenchem com tarefas vazias. Os críticos e trendsetters mais perspicazes também já sentiram algo no ar. De repente, há pessoas ricas, bemsucedidas e famosas que estão repensando limites. Gente que abre mão de ter mais fama, mais dinheiro, mais poder, mais trabalho, mais status. Tudo em nome de uma realização mais quieta, de um tipo de vitória menos cercada por fogos de artifício.

É claro que Raf já era conhecido antes da Dior, porém, ninguém ignora que Dior é um dos maiores “sobrenomes” que um designer pode ter. Mas ele preferiu terminar o casamento, não sem antes reformular a imagem da maison e trazê-la para o agora com brilhantismo. Certo senso de dever cumprido, aliado a uma negação bastante nobre – no sentido de não entregar mais do mesmo –, reconhecimento da paixão pela vocação, declaração de amor à moda e o que ela pode ser como ofício: tudo isso fez reverberar a renúncia de Raf e fez dela um statement.

O slow fashion, o movimento pela moda sustentável, a onda pela valorização dos processos transparentes (que se preocupam com
a origem da matéria-prima, o modo de trabalho etc.), tudo vinha apontando para um esquema menos massacrante. Mas, de alguma maneira, as decisões de Alber e Raf falaram mais alto para muita gente, milhões de fichas finalmente caíram. Talvez pelo enorme montante de dinheiro e prestígio do qual eles abriram mão, talvez por isso e pela atitude. Em vez de apenas pedir mudanças, de fato se tornaram a mudança que defendem para a moda. Não há cinismo, não trema diante do poder de um exemplo autêntico.