Foto: Thiago Santos

Por Jorge Wakabara

Você se lembra do movimento HotSpot, lá de 2013? Uma mistura de concurso e incubadora, ele contou com várias categorias, entre elas a de moda. Quem ganhou foi a Llas, das irmãs Lorena e Laura Andrade, que chegou a desfilar no SPFW e fazer um barulho, e também concorreram nomes como Lucas Leão, que hoje faz parte do calendário da semana de moda paulista. Ainda estava ali Marco Normando, um jovem talento de Belém do Pará. Na época, quem ficou entusiasmado com o que viu na coleção de Marco, Próteses Ilusórias (que, aliás, era o TCC dele do curso de moda), foi um dos mentores, Alexandre Herchcovitch, que o chamou para trabalhar com ele.

Convite aceito, Marco se mudou para São Paulo e trabalhou com Herchcovitch por três anos e meio. “Foi uma ótima escola, meu primeiro trabalho”, ele recorda. “Comecei como assistente de estilo e fui galgando meu espaço. No final, entrei na parte de alfaiataria e me apaixonei por ela.” Na marca própria, que leva seu sobrenome, lançada em 2019, técnicas de alfaiataria formam uma cama para suas criações, em experimentações com paletó, pregas em calça e shorts, e muita camisaria.

Foto: Thiago Santos

O termo “normando”, aliás, vem de Normandia, região do noroeste da Europa, que por sua vez tem origem viking, o “povo do Norte”. Só que o Norte de Marco Normando é bem diferente, mais para o brasileiro: nas suas referências estéticas estão a Floresta Amazônica, o povo que vive na beira do rio, o boto rosa, a folha do tajá… “É inerente a mim, morei 20 anos em Belém. Carrego muita coisa de construção identitária, símbolos, imagens culturais. Não é que não seja pensado, mas é muito natural.” O Círio de Caraparu, que acontece no interior do Pará, e traz os participantes com roupa de marinheiro, inspira a gola marinheiro de um top, por exemplo.

A última leva de roupas lançadas é considerada por Marco uma segunda parte da primeira coleção: “É uma tradução mais literal, no sentido de gráfica, das coisas que já trabalhamos antes, como a vitória-régia e o pirarucu”. Esses elementos aparecem em pinturas feitas à mão pela artista Júlia Milaré na tela-roupa em tecidos reciclados, algodão orgânico, algodão egípcio e linho puro; elegância brasileiríssima. Também entra nessa mistura o modernismo, principalmente arquitetônico: as linhas limpas e a mistura de curvas orgânicas com formas geométricas inspiram assimetrias e o minimalismo saboroso de Marco. “O modernismo também tem essa ideologia de trazer algo regional, algo brasileiro como identidade. Identifico-me muito com esses valores”, o estilista explica.

Foto: Thiago Santos

Tudo é slow fashion, feito em ateliê, coisa que foi dificultada nesse período pandêmico de distanciamento social, mas Marco não se abala: “Tenho essa preocupação com a construção das peças, gosto de fazer as coisas com calma e cuidado. Não fico me pressionando para lançar uma próxima coleção ainda em 2021. Se a gente conseguir terminar conforme o nosso gosto, ela sai”. Atualmente, você encontra peças da Normando no site próprio, na Shop2Gether e na loja Pinga, em São Paulo.