Arquiteta Zize Zink descobre a Puglia

Pedacinho roots no sul da Itália, onde encantam o estilo de vida rural, a comida divina e a paisagem que mistura campos de oliveiras, praias e cidadezinhas incríveis

by Antonella Salem
Zize em Matera, Capital Europeia da Cultura 2019 e Patrimônio Mundial da Unesco  - Foto: Arquivo Pessoal

Zize em Matera, Capital Europeia da Cultura 2019 e Patrimônio Mundial da Unesco – Foto: Arquivo Pessoal

Esta é uma viagem bem raiz pela região que ocupa o salto da bota no mapa da Itália. Paisagens rurais e oliveiras sem fim, litoral deslumbrante, história em cidadezinhas surpreendentes, comida divina e a cor do mar inacreditável: Puglia. Meu aniversário cai nas férias de julho, e este ano resolvi comemorar com meu marido neste pedacinho rústico e intacto do sul do país. Queria fugir do comum na Itália e lembrei de ouvir uma amiga de Nápoles falar sobre as maravilhas do destino.

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Mar, que eu amo, dias longos de verão e um mood simples e genuíno que tem super a ver com o meu momento de busca por autenticidade em tudo. Ficamos 15 dias e poderia ter sido até mais. A porta de entrada é Bari, a capital da região, onde pegamos um carro e descemos o litoral até a cidade de Otranto, na província de Lecce, tendo como base duas masserie maravilhosas, antigas fazendas restauradas e transformadas em hotéis exclusivos.

Plantações de uvas em Polignano  - Foto: Arquivo Pessoal

Plantações de uvas em Polignano – Foto: Arquivo Pessoal

Como as distâncias são relativamente pequenas na Puglia, passávamos dia e até noite conhecendo vilarejos, restaurantes e praias. E fiquei louca com os mercadinhos que encontrei pelo caminho, as centenas de lojinhas de cerâmica, linho, cestaria, e a comida farta em massa e peixes, acompanhada de um vinho branco delicioso feito das cepas da uva Primitivo.

Foto: Arquivo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

Matera, a uma hora e meia de Bari, nossa primeira parada, foi impactante. Nomeada Capital Europeia da Cultura 2019, é uma cidade toda escavada na rocha, que lembra um pouco a Capadócia e possui ruínas de um vilarejo neolítico, uma catedral de estilo romântico absurda e centenas de igrejas construídas na pedra. Foi locação de diversos filmes bíblicos, como “A Paixão de Cristo” (2004, com Mel Gibson). Me senti envolvida por aquela atmosfera histórica poderosa, e o melhor foi me perder pelas ruelas e descobrir cantinhos, como um pequeno café na Via Setti Dolori.

Sorvete de queijo e azeite do Baccanti Ristoranti, em Matera  - Foto: Arquivo Pessoal

Sorvete de queijo e azeite do Baccanti Ristoranti, em Matera – Foto: Arquivo Pessoal

Dormimos no Palazzo Gazzino, na praça principal nos “sassi” – nome dado aos dois centros históricos da cidade, declarados Patrimônio Mundial da Unesco. Nesse cenário, a noite em Matera era uma festa, com muita gente cantando, bebendo e comendo. Escolhemos o Baccanti Ristoranti, dentro de uma caverna, onde achei sensacional o sorvete de queijo e azeite.

A arquiteta na Masseria Muzza, ao pôr-do-sol, em Otranto - Foto: Arquivo Pessoal

A arquiteta na Masseria Muzza, ao pôr-do-sol, em Otranto – Foto: Arquivo Pessoal

Fasano, próximo destino, foi perfeita para descansar e explorar as diversas cidadezinhas ao redor. A Masseria Torre Maizza, onde ficamos hospedados, pertence ao grupo Rocco Forte e funciona em uma construção do século 16 com interiores contemporâneos incríveis. A partir de lá, foram idas e vindas com muitas descobertas. Ostuni, por exemplo, “a cidade branca”, famosa por abrigar o relógio solar mais antigo da Europa, e Monopoli, com suas vielas bordadas por varandas floridas, onde encontrei uma sorveteria que é uma portinha – sabor stracciatella, sempre!

A cidadezinha de Polignano a Mare, sobre rochedos voltados para o Mar Adriático  - Foto: Arquivo Pessoal

A cidadezinha de Polignano a Mare, sobre rochedos voltados para o Mar Adriático – Foto: Arquivo Pessoal

Já em Polignano a Mare, uma cidadela encantadora sobre penhascos, almoçamos na peixaria do Domenico, que fica na boca do Adriático. Nada mais genuíno do que os peixes crudos que vêm do mar para o prato. Para jantar, Ristoranti Antiche Mura, onde comi a melhor massa com peixe da vida! Mais gostosa do que a comida em qualquer restaurante estrelado. Você entra pela cozinha e são os donos que te atendem – um casal italiano simpático.

Casinhas trulli em Alberobello - Foto: Arquivo Pessoal

Casinhas trulli em Alberobello – Foto: Arquivo Pessoal

Alberobello foi outro passeio inesquecível pertinho de Fasano. É a cidade dos trulli, as casas branquinhas feitas de pedras calcárias com telhados em forma de cone. A arquitetura anciã me inspira demais… Rumo ao sul, em Otranto, passamos três noites na Masseria Muzza, que produz azeite de oliva e fica em meio a muitas e muitas oliveiras, com uma piscina cercada por cabanas. Era só tocar a campainha para pedir o vinho branco refrescante. Não me esqueço também do pão com mussarela e polvo que comi no almoço lá, nem do café gelado com leite de amêndoa caseiro que parece licor – bebida, aliás, que foi meu vício por toda Puglia.

Um dia fomos à cidade vizinha de Taranto, em outro conhecemos Lecce, a “Florença do Sul”, cidade repleta de impressionantes monumentos barrocos. Uma noite jantamos em Maglie, no restaurante Belami, onde amei o peixe no sal e comi ostras até me acabar. O hotel tem serviço de van que te leva para a praia a cada meia hora, e o mar é como uma piscina de tão sereno e transparente – foi aí que entendi o apelido de Otranto: “Maldivas italiana”. Nem sentava na areia, entrava no mar e de lá não saía. E assim foram os dias na Puglia, pura nutrição para corpo e alma.