24 horas com Dira Paes
Foto: Leo Aversa

Depoimento a André Aloi

Aos 52 anos, Dira Paes, que se divide entre a casa no Rio e uma fazenda, em Arraial do Sana, no interior fluminense, fala da busca por uma vida mais sustentável e dos rituais que a aproximam do Pará, seu estado natal. Bazaar passou 24 horas com ela e revela como ela passa o seu dia:

6h30

Desde que li que não se deve acordar e levantar imediatamente, porque faz mal à saúde, tenho um ritual de espreguiçadas. Uma delas é um sorriso, mesmo que não seja genuíno. Abrir este músculo faz a diferença. Ao levantar, escovo os dentes, tomo água em jejum e uma colher de mel, que deixo descer lubrificando a garganta. Adoraria incluir o limão, mas tenho medo de manusear – chamo o sol para mim (risos). Desde a gravidez, tenho melasma e protejo o rosto com protetor, que vou reaplicando ao longo do dia.

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Eu e o meu marido (o diretor de fotografia Pablo Baião) estamos nos incentivando a acordar cedo e praticar ioga desde que fugimos para uma fazenda, em Arraial do Sana, com direito a banho de ofurô in natura, embaixo de uma jaqueira, lugar de contemplação. No campo, o dia é mais longo do que na cidade: o tempo rende, mesmo estando conectada.

8h30

Enquanto meu filho Inácio, de 12 anos, acorda sozinho para estudar, voltamos para preparar o café da manhã do Martim, de 5, e olho os jornais. Tenho tentado diminuir carboidratos, então, minha refeição se resume a uma fruta, iogurte natural e mel.

9h

A quarentena está sendo um período gestacional para mim e para o Pablo. A gente está desenvolvendo o primeiro projeto juntos depois de 15 anos. É um longa-metragem que tem características pandêmicas e vai ser rodado na fazenda. Até lá, alguns trabalhos meus seguem no ar, como a série “As Five”. Quando poderia imaginar que impressionaria tanto em uma cena de beijo lésbico totalmente voltado para a juventude? (O caliente beijo gay foi protagonizado por ela e Manoela Aliperti no spin off de “Malhação”). Isso é a prova de que a mulher tem camadas profundas de beleza externa.

10h30

Olho o celular e o computador, mas sempre tenho um bloco de papel e caneta por perto porque faço a ordem do dia. Tento me livrar das coisas chatas pela manhã, quando estou mais bem-disposta. Começo com tarefas de banco e paro para cozinhar porque o Inácio almoça perto de 12h e emenda outra aula.

A comida paraense já está totalmente introduzida na vida dos meus filhos. Fico impressionada porque a maniçoba é o prato preferido deles e o suco de taperebá (conhecido como cajazeira) é o favorito do Inácio. Tenho dois carros-chefe na cozinha: lula recheada com shitake e camarão na abóbora. No dia a dia, gostam de filé à Oswaldo Aranha e estrogonofe. Para diminuir a carne, faço muito cuscuz com legumes e, para as crianças, tenho sempre feijão.

24 horas com Dira Paes
Foto: Leo Aversa

14h

Depois do almoço, passam os vendedores de pão artesanal e de ingredientes que vêm da horta. Do supermercado, que fica na cidade, encomendamos e eles enviam para cá. Haja álcool em gel! Faço aula com o Martim, atividade que revezo com Pablo. Como fui mãe mais velha, fiz um pacto com a vitalidade, impulsionado pelo desejo de vê-los crescer e se desenvolverem. Não que o tempo seja meu algoz. Nas minhas veias corre açaí, isso me rejuvenesce.

16h

Momento dos telefonemas e deliberar o que não foi resolvido. Amo fazer listas de tarefas. Você tenta cumprir, mas nunca consegue cobrir tudo. É um eterno recomeçar. Estou tentando migrar para o digital, usar o celular a meu serviço, com agenda e alarmes. Tenho aula de teatro, sempre às quartas, com Amir Haddad, que segue até as 18h.

18h

Quando estou no Rio, arrumo a casa, organizo o guarda-roupa. Preciso disso para pensar. No meio da tarde, como um lanche e é hora de correr e gastar calorias lá fora. Tenho boquinha nervosa, sou dos snacks. Para manter a boa forma por causa dos trabalhos, busco castanhas e sementes brasileiras variadas.

Nossa casa, no Rio, não deixa de ser um pequeno sítio. Tentamos ao máximo ter uma atitude de sustentabilidade, pensando nesse futuro onde não se pode mais gastar o planeta. Temos captação de água da chuva, sistema de compostagem, coleta seletiva, fossa, filtro e sumidouro. Também temos uma horta urbana, energia solar, política de lixo zero e descarte responsável, além de fazer o reaproveitamento do que tem na geladeira. Sempre tenho um olhar generoso em transformar alimentos. Já aprendi a fazer a quantidade certa para não desperdiçar. Me incomoda muito jogar comida fora.

20h

Sou uma paraense nata e trago o Pará para os meus filhos. Estamos fazendo aromaterapia em família com os óleos essenciais de uma tradicional casa de lá. Gosto de inalar e passar nos punhos; no colar uso arruda, que serve de proteção. Toda noite passo azeite de andiroba (que chamam de óleo) na perna do Martim porque ele sempre bate em algum lugar. Serve para tudo, inclusive para manchas e como anti-inflamatório.

À noite, jantamos o mesmo do almoço ou um lanche reforçado, aí começa a briga para dormir. Todo dia a mesma coisa: vão deitar chorando, falando que está cedo.

22h

Eu e Pablo temos tempo só para a gente, curtir uma comida mais elaborada, tomar um vinho e ver um filme. Agora, com as plataformas, temos a chance de assistir às raridades. Assinei uma que tem os filmes que vão para todos os festivais do mundo.

Depois, leio um livro e é a hora de desligar. Faz muita diferença esse descanso dos olhos. A leitura é para acalmar e chamar o sono, não tem como ser na tela: nem celular nem computador. Cama e devices não combinam. Tenho uma pilha de livros ao lado da cama, às vezes leio mais de três por vez.

Antes de dormir, uso um hidratante clareador para o melasma. Vou deitar, geralmente, por volta de 1h. Aqui na fazenda, mais cedo, à meia-noite. Tenho dormido menos do que há 10 anos – por vontade de viver e para não desperdiçar o tempo.