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Aos 76 anos, a “cantriz” Zezé Motta (como gosta de ser chamada), vive na praia do Leme, no apartamento que um dia foi de Clarice Lispector e, assim como a escritora, trabalha em casa, mas faz pausas para observar o cotidiano.

Bazaar acompanhou 24 horas do dia da multiartista nesta pandemia. Leia na íntegra:

6H

Não ponho despertador (para acordar), mas tenho um relógio biológico. Meu olho abre, dou uma olhadinha no jornal da TV, faço exercícios de alongamento na cama mesmo e fico de preguiça. Ao levantar, às 7H, escovo os dentes, tomo um suco verde e vou caminhar. Pão não como, perdi o hábito.

Tenho caminhado quase todos os dias. No percurso de 1h30, quando estou em um ritmo bom, no pique, vou até o forte de Copacabana ao lado da Solange, que trabalha em casa e já virou família. Fiquei acima do peso nessa quarentena e estamos dando força uma para a outra. Não tenho costume de andar ouvindo música, vou pensando na vida ou conversando. Mas muito pouco, pois falar cansa.

Moro ao lado do Leme Tênis Clube (em um apartamento onde morou Clarice Lispector), quero voltar a fazer pilates lá. De volta, tomo um banho, uso creme e colônia, da testa ao dedão do pé (risos). A minha colônia é complicada, só tem em Belém e em Manaus e chama-se “Mithus Manhã”, da Amazônia. É como se fosse uma alfazema, mas tem uma coisa típica daquela região. Difícil definir o cheiro, mas é muito suave, fixa bem na pele. Por isso, gosto.

10H

De segunda a sexta, estou de home office. Li que Clarice, antes de se sentar para escrever em sua máquina, se vestia como se fosse para o escritório – ritual que tenho seguido. Visto uma túnica bem confortável. Se ficar de pijama, a cama chama.

Sou diretora de comunicação da Socinpro (Sociedade Brasileira de Administração e Proteção de Direitos Intelectuais, com cerca de 30 mil associados), responsável pelos direitos autorais e distribuição de pagamentos vindos do Ecad. Como já fiz muitos, a diretora financeira me disse para dar uma descansada e voltar à tarde.

Trabalhei tanto que o computador perguntou “quer continuar trabalhando?” (gargalha). Até agora, fiz 176 pagamentos online e parei para ler o jornal. Me interesso pela parte de Cultura porque não está dando para ler as outras páginas, não. Muita delação, muito golpe… Que absurdo! Pô, desviar dinheiro de pandemia? É o fim da picada.

13H

Almoço é sagrado até 13h30 da tarde. Não podem faltar verduras nem legumes, pois não como carne vermelha. Tem que ter quiabo, couve mineira, chicória e até jiló, que pra mim é tira-gosto. Como peixe, frango e tudo do mar. Estou comendo arroz integral, mas amo macarrão. Se deixasse, comeria todos os dias. Estou me segurando!

Tenho sono depois das refeições, então dou uma cochilada de, no mínimo, uma hora. É bom demais. Em casa, almoço (quase todos os dias) com vinho. No auge do verão, ninguém resiste a uma cerveja.

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15H

Volto para o computador para ver se tem pagamentos para fazer e, se não tiver, vou fazer outras coisas. Tenho feito muitas lives, quase diariamente. Quando acabar a pandemia, não quero mais ouvir essa palavra.

Faço por causas nobres, como para o Retiro dos Artistas, do qual a louca aqui é vice-presidente. Esses dias, pedi uma trégua para cuidar de questões pessoais, que estão paradas, pois perdi minha mãezinha (Maria Elazir, em maio, aos 95 anos) e sou a inventariante. Fiquei emocionalmente muito abalada, dei um tempo para mim e estou retomando.

Ah, estou fazendo análise virtual para dar conta. Porque tem também a perda dos amigos. Enfim, não precisa nem ser amigo. É muito triste o Brasil ter chegado a esse ponto, passar de 100 mil mortos. Minha cabeça não dá conta desse País que a gente está tendo que aturar. Para mim, que vivi na época da ditadura e militei contra, é um retrocesso que pegou a todos nós de surpresa.

Eu falo muito da questão do negro, mas a minha questão é com justiça, solidariedade, compaixão. Sempre digo que, se não fosse negra, ia fazer parte do movimento. Nem todos os negros são conscientes e nem militam por essa questão. É até compreensível.

As pessoas muito humildes acordam sem saber se vão comer naquele dia. Essa retomada da discussão, estou achando interessante. Acho que, finalmente, as pessoas estão se dando conta – como assisti em uma palestra do professor Cândido Mendes – de que o racismo não pode ser só de interesse do negro, mas de todo brasileiro lúcido, que sabe que não faz parte de um grupo superior.

17H

Na hora do chá, tenho o hábito de tomar um café preto, mas só até esse horário porque acelera, tenho medo de perder o sono. A não ser quando estou fazendo show, aí tomo para dar uma animadinha.

Assisto ao jornal, às vezes novela. Estou vendo “Totalmente Demais” (gargalha), uma delícia, e “Fina Estampa”, que estou implicando agora. Tem horas que acho que é melhor voltar para meu livro. Estou com uma pilha na fila. Nesse exato momento, estou lendo Djamila Ribeiro, “Lugar de Fala”.

20H

Janto muito leve, geralmente, um peixinho com legumes ou verduras, duas colherinhas de arroz integral. Não é tão cedo, mas meu médico gostaria que jantasse às 19 horas. Também só durmo à meia-noite, então está tudo bem. Volto para a TV, fico zapeando para ver se tem alguma coisa.

Vejo um filme antes de dormir. Eu ando meio chateada, televisão me dá sono, às vezes a leitura também. Entro no Facebook ou no Instagram.

23H

Gosto de tomar uma ducha antes de dormir porque relaxa. Tenho a pele bem ressecada, passo creme no corpo inteiro. Tenho um para o rosto, outro para o corpo. Sou muito vaidosa, puxei minha mãe e sou filha de Oxum, o orixá mais vaidoso, que tem o espelho e gosta de ouro (risos).

Não frequento nenhum lugar, mas nunca rezei tanto na minha vida. Não tem hora. Quando acordo e antes de dormir é sagrado. Mas, às vezes, me pego rezando no meio do expediente quando dá tudo errado. Não sei o que está acontecendo, mas tenho acordado mais de uma vez durante a noite. Simplesmente acordo! Pela primeira vez, tenho conseguido dormir antes da meia-noite.