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Por Ana Carolina Soares

“Você viu o segundo capítulo de ‘Indústria da Cura?'” Desde a semana passada, a nova série documental em cartaz na Netflix domina o Tantra e Neotantra, grupo de Whatsapp de alunos de um dos meus mestres Daniel Carletti. Trata-se de uma turma seleta e sou uma das sortudas 204 participantes 🙂

O documentário debate o lado bom e ruim das terapias alternativas e o tantra aparece logo após o primeiro episódio, sobre “óleos essenciais”, e antes de “leite materno” (gente, tô passada ao saber que atletas “voltaram a mamar” para ganhar massa muscular!)

Assisti duas vezes ao capítulo do tantra. E sugiro que você veja também. Ali, está tudo o que você sempre quis saber sobre a terapia (mas tinha medo de perguntar hehehe). Mostra direitinho o processo de cura por meio de orgasmos poderosos, mas também o poder destruidor de alguns “mestres”.

Ao longo da minha vida, tive contato com as duas faces do tantra: o paraíso e o inferno.

Conheci a prática em 2017, por escrever uma coluna sobre sexo. No início daquele ano, vi uma palestra de Jivan Pramod em um evento para mulheres. Escrevi um post sobre a história surpreendente do ex-policial que se tornou especialista em tantra, formado com o famoso (mas controverso) Deva Nishok, na Comuna Metamorfose, acho que a referência mais famosa no Brasil.

Jivan era um dos organizadores do CI Tantra, um congresso sobre a prática que ocorreu em novembro de 2017, e lá conheci o mestre Gilson Nakamura. Com ele, tive coragem de evoluir da teoria à prática, fiz minha primeira massagem tântrica.

Fui apresentada a um outro nível de orgasmo: de corpo inteiro, absurdamente intenso e, melhor, transformador. Entrei na sessão fragilizada, com autoestima nota 6, e saí de lá a Mulher-Maravilha. Lembro-me que, no dia seguinte, uma amiga perguntou se eu havia feito algum tipo de tratamento estético 🙂 De tão maravilhoso, engatei em uma maratona de cursos.

Além dos workshops perfeitos do Gilson (ai, que saudade, pena que tantra não combina com distanciamento social…), fiz duas vivências bem marcantes. Com meu namorado, aprendi maithuna (ou sexo tântrico) sob a tutela do mestre Daniel Carletti. Foi um processo tão mágico, uma conexão tão profunda que ainda respiro para escrever um “post solo” a respeito.

Entre agosto e setembro do ano passado, passei minhas férias na Osheanic, centro de terapia em Aquiraz, pertinho de Fortaleza. O lugar pertence a Homa e Mukto, que moraram com Osho (líder espiritual bem controverso). A administração do ponto, uma espécie de resort hippie, fica por conta de voluntários, seguidores.

Ali, vivi uma experiência bem dúbia, difícil, complexa, imersa com meu namorado em um curso de cerca de vinte dias de tantra. Lado bom: até hoje, ele e eu praticamos meditações lindas, aprendidas com Homa e Mukto, dois mestres realmente especiais.

Lado ruim: o lugar parece a igreja do Osho, um baita clima de devoção. Os cultos foram rebatizados de meditação, três por dia, com mais de uma hora de duração, todas obrigatórias. E uma vez que você fez o check in, não pode sair do lugar sem autorização da equipe (?!).

Lado péssimo, parecia a filial cearense do Instituto Butantan: morcegos sobre sua cabeça, sapos sob seus pés e uma infinidade de pererecas nadando na privada do seu quarto, saltitando na cama, paredes, por suas roupas e nécessaire. Quem se incomoda com esse cenário (também bem sujo, cheirando a mofo, repleto de teias de aranha), recebe como resposta “você deveria andar descalça para se descarregar da sua energia negativa”. E esse pessoal “espiritualizado” cobra cerca de R$ 1,5 mil a diária do casal pela experiência que parece inspirada nas “Noites do Terror”.

Bem, fiz aqui um resumo da minha experiência com o tantra para justificar porque indico o documentário da Netflix. Como disse há poucos parágrafos, no tantra, você pode subir aos céus, mas também, despencar feio de lá, em queda livre sem paraquedas. O segredo ao escolher o caminho certo é pesquisar bastante antes de se entregar a um profissional e, muito mais, mergulhar em um retiro. A série mostra episódios horrendos ocorridos em um retiro chamado Agama Yoga, na Tailândia, em que o “mestre” Narcis Tarcau rebatizava estupro por “cura espiritual”.

Outro ponto que me chamou atenção no documentário é o protagonismo feminino nessa área. As melhores vivências e descrições sobre o tantra saem da boca de três profissionais: a sensual Sasha Cobra, a midiática Michaela Boehm (que cuida de hollywoodianos, como Will Smith) e a moderna Emily Nagoski.

Entre algumas máximas:

•Por ser milenar, ninguém sabe exatamente o que é o tantra. Mas não tem a ver apenas com sexo. Trata-se de uma forma de você se relacionar com a vida, permitir que a vida flua por meio de você. Seu corpo quer chorar? Chore. Quer rir? Ria, gargalhe. Vale a pena permitir sentir todas as emoções, não existe boas ou ruins.

•A gente deveria encarar tudo e todos como um portal para o Divino. Especialmente nossos parceiros.

•Orgasmos podem curar traumas.

•Orgasmo é um evento cerebral e há dois tipos (apesar de ambos afetarem a mesma área do cérebro). O que se restringe à área genital, em que a maioria sente. E o de corpo todo. Ninguém depende da área genital para alcançar um orgasmo. É possível chegar lá por meio de outras partes do corpo: mamilos, dedos, orelha, rosto…

•Mulheres são, especialmente, seres orgásticos, que acabam se fechando por causa de uma série de tabus: precisam ser boas meninas, mães de família, executivas poderosas e robóticas… Mas realmente alcançamos nosso poder por meio do orgasmo.

Despertei curiosidade em você? Tomara que sim 🙂 Vou então deixar uma entrevista de aproximadamente uma hora que dei ao programa “Quem Somos Nós?”, do Celso Loducca:

É isso, pessoa! Beijos e divirtam-se 🙂

@anacarolcsoares Jornalista desde 1994, ganhou prêmios e passou por grandes veículos de comunicação, trabalhando como repórter, editora, colunista e PR. É muito feliz também em cursos de tantra, fez mais de dez e até tirou certificado de terapeuta tântrica com Gilson Nakamura em janeiro de 2019, no método Deva Nishok. Dona de cachos assumidos e ama escrever sobre sexo, como a musa Carrie Bradshaw 🙂