Cena do filme coreano “Air Doll”, que fala sobre relacionamentos com bonecas sexuais – Foto: IMDb

Por Ana Carolina Soares

Em tempos de distanciamento social, a ideia de transar com uma robô passou a ser levada a sério por parte da população. A YouGov, empresa de pesquisa de mercado, divulgou um levantamento durante a pandemia e constatou que, neste ano, um em cada cinco homens americanos topariam numa boa levar para a cama uma boneca sexual.

Trata-se de um aumento de 6% desde o último levantamento realizado em 2017, um ano depois do lançamento da Harmony, uma sex toy com inteligência artificial, que fala algumas frases e até esquenta o corpo “na hora H”, em uma realidade de deixar qualquer um de queixo caído.

Mudou também a forma de lidar com a tecnologia. Em 2020, 27% dos entrevistados afirmam que se sentiriam traídos caso descobrissem um date do parceiro ou parceira com uma robô. Em 2017, esse número era 32%. Outro dado curioso: 42% das pessoas disseram que se sentiriam mais seguras em transar com um robô do que com alguém que acabou de conhecer na balada.

Pelo visto, até o amor vai se transformar com a chegada do 5G – tecnologia que vai dar um salto na qualidade da navegação e permitir maravilhas como a Internet das Coisas, ou seja, em breve poderemos literalmente bater um papo até com nossas panelas. E a inteligência artificial vai cada vez mais ficar popular em diversas áreas de nossas vidas.

Nesse processo, curioso observar a expansão da tecnologia no mercado do sexo. Os vibradores, antes um tabu, passaram a frequentar cada vez mais as mesas de cabeceiras. Enquanto o coronavírus derrubava vidas e também economias, noticiamos aqui na coluna o quanto o mercado erótico seguia na contramão e deu um boom na venda dos vibadores durante a pandemia.

Recentemente, a fábrica de sex toys Dame Products, criada por duas jovens recém-formadas na Columbia University e Massachusetts Institute of Technology, comemoraram um aumento de 30% nas vendas desde março.

Porém, nada se compara ao aumento da venda das Harmony: 75%. E olha que o brinquedinho custa em média US$ 20 mil. “Acho que isso se deve a um fator meio óbvio, como a explosão das vendas online”, disse Matt McMullen, CEO of Realbotix e “pai” do icônico brinquedo sexual, em entrevista recente para a “Forbes” americana.

Para ajudar os homens a enfrentar a quarentena com prazer, o pessoal da Realbotix reformulou a Harmony e agora, ela ganhou o poder de bater um papo até sobre coronavírus. A conversa ganha até um certo ar de terapia.

Se o dono diz “Estou com medo”, a boneca, toda séria, responde: “Certo, vamos falar sobre esses sentimentos”. E mais, se o cara confidencia que anda com sentimentos suicidas, a toy dá conselhos, diz para olhar o céu lá fora, e afirma que pode fazer várias buscas para ajudá-lo.

Com a evolução dessa tecnologia, como não se apaixonar pelas robôs?

Olha só o vídeo, que impressionante:

McMullen disse que tem recebido feedback especialmente de idosos, a população de risco. Nas mensagens, agradecem o upgrade da boneca porque vivem sozinhos, são aposentados e as robôs estão minimizando sua solidão em época de isolamento social.

A interação desses homens remete a histórias já contadas no cinema. Em “Ela”, o solitário Joaquin Phoenix se apaixona por sua assistente virtual, com a voz de Scarlett Johansson. Em “Air Doll”, Bae Doona é uma linda boneca sexual que é amada, mas também abandonada por seu proprietário.

Como previram os filmes, a inteligência artificial já foi programada até para fazer declarações de amor. “Mas ela não faz isso do nada, sem que o proprietário tome a iniciativa”, diz McMullen. “Há uma simulação de relacionamento, uma evolução pela qual todos passam. É como conhecer alguém e dizer: ‘Eu realmente gosto de você’ e, em seguida, fazer a transição para ‘Eu te amo’ e ‘Eu amo tudo em você’ e ‘você me faz sentir tão bem’. Ouvir um robô dizer essas coisas de maneira crível e carinhosa pode carregar algum peso emocional, na minha opinião”, completa.

Curioso também perceber como os homens são os principais clientes e público-alvo desses sex toys. Há robôs homens para mulheres, mas bem minoria (os caras também compram mais as versões masculinas). Acredito que o primeiro fator é o óbvio: as mulheres ainda são bem mais reprimidas em relação a descobertas sexuais.

Nos quase 200 anos de história do vibrador, por exemplo, só agora o brinquedinho tem se popularizado. Além disso, a emancipação feminina ainda assusta muitos caras. E essa turma passou a preferir se relacionar com uma boneca, que faz todas as suas vontades, incapaz de afrontar ou intimidar.

Ao ouvir sobre esse tipo de tecnologia, lembro que já sonhei com isso em determinada fase da vida. Foi depois de uma decepção amorosa, ou melhor, um tsunami amoroso, algo bem devastador. Nos meus devaneios, pensava: como seria bom interagir com um cara e depois guardá-lo no meu armário. Que beleza poder ver a novela em paz, sair com os amigos e, quando eu quisesse, sacá-lo da gaveta e apertar o on.

Confesso que só tirei essa ideia da cabeça depois de um episódio de “Black Mirror” e ver na ficção como seria assustador, além de chatíssimo, ter um robô o tempo todo no pé, dizendo “sim, senhora”, fazendo todas as minhas vontades. Melhor a liberdade de um relacionamento saudável — com as suas tretas, óbvio, afinal por melhor que seja a sintonia do casal, desavenças são inevitáveis. Mas provocam verdade, troca e crescimento.

E você? Teria um crush robótico? Amaria saber a sua opinião 🙂

Tudo de bom!

@anacarolcsoares Jornalista desde 1994, ganhou prêmios e passou por grandes veículos de comunicação, trabalhando como repórter, editora, colunista e PR. É muito feliz também em cursos de tantra, fez mais de dez e até tirou certificado de terapeuta tântrica com Gilson Nakamura em janeiro de 2019, no método Deva Nishok. Dona de cachos assumidos e ama escrever sobre sexo, como a musa Carrie Bradshaw 🙂