Foto: Divulgação

Por Ada Calhoun

Em um vídeo de 2019 que viralizou, produzido pelo Instituto Child Mind, o ator e comediante Bill Hader discute a batalha de sua vida toda com a ansiedade. Ele diz que a sensação “nunca vai embora de fato, você administra. Sempre imaginei a minha ansiedade como um monstrinho que atacaria meu rosto ou puxaria minhas orelhas e, em vez de afastá-la ou lutar contra, eu simplesmente pensava: ‘Ei, amiga’, como se ela fosse um macaquinho, ‘Sente-se no meu ombro, vamos curtir'”.

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

O debate sobre como lidar com o transtorno de ansiedade é a questão do momento. Potenciais curas alimentam feeds das redes sociais e reportagens da imprensa. Parece que todo mundo tem dicas: óleo de canabidiol, meditação, ioga, terapia cognitiva comportamental, Xanax, exercícios de visualização. Tudo por uma boa razão: a ansiedade é a forma de doença mental mais comum atualmente nos Estados Unidos.

Instituto Nacional de Saúde Mental

O Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH, sigla em inglês) estima que transtornos de ansiedade afetem mais de 19% da população adulta do país a cada ano. E, em 2018, a Associação Americana de Psiquiatria publicou uma pesquisa em que 39% das pessoas declararam ter sentido um aumento da própria ansiedade em relação ao ano anterior.

Organização Mundial da Saúde

O cenário no Brasil é ainda pior. Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), publicados em junho de 2019, o País tem o maior número de pessoas ansiosas do mundo: 18,6 milhões de brasileiros (9,3% da população) convivem com o transtorno.

Embora falemos a palavra ansiedade a torto e a direito, esse grupo de transtornos geralmente é autodiagnosticado incorretamente. De acordo com o NIMH, o transtorno de ansiedade generalizado não é apenas a inquietação, o embaraço, o estresse de uma situação, mas a excessiva agonia ou preocupação com acontecimentos do dia a dia que chega a ser debilitante.

Sentir inquietação antes de uma prova ou ter insônia depois de um evento traumático não é ansiedade, é a angústia permanente que atrapalha a qualidade de vida. “A ansiedade está enraizada no medo”, diz Brianna Marshall, terapeuta de casal e família de Las Vegas. Quando você é ansioso, pode ter a mesma reação de lutar ou fugir que nossos ancestrais tinham quando encontravam animais selvagens. A diferença é que o coração acelera e suamos frio às 3h da manhã não por motivo de autopreservação, mas porque demos um fora na festa de fim de ano, por exemplo.

Ansiedade saudável

Especialistas até dizem que um pouco de ansiedade é saudável. Precisamos do medo para nos manter seguros e da adrenalina para nos apresentar para uma plateia, por exemplo. Porém, pensamentos negativos obsessivos são o oposto de saudável, e duas das maiores fontes de ansiedade hoje em dia são as redes sociais e o ritmo desumano dos ambientes de trabalho modernos. “A ansiedade sempre existiu”, afirma o também terapeuta de casal e família Eli Karam, professor da Universidade da Louisville, Kentucky, nos Estados Unidos. “Os gatilhos e causas, entretanto, são diferentes, agora, devido à tecnologia. As pessoas estão plugadas o tempo todo. A mídia social tem contribuído para o FOMO (fear of missing out, medo de ficar por fora, em português).”

A tendência de comparar “o seu interior com o exterior de outras pessoas” frequentemente induz a uma ruminação de autoflagelo. Um estudo de 2017 publicado no “Journal of Experimental Psychology” também pontua a contribuição da internet para a ansiedade derivada do sofrimento de estranhos, especialmente em pessoas que são muito empáticas. “Você costumava sentir a ansiedade dos membros da família, no microcosmo da sua casa”, comenta Akua K. Boateng, psicoterapeuta que atua na Filadélfia.

Agora, ela diz, nós não apenas nos colocamos no lugar do parente que perdeu o emprego e do filho que está com dificuldades na escola, como também em eventos distantes, por exemplo, tiroteios em massa, desastres naturais, pandemias e incêndios. “Precisamos reduzir esses estímulos e também nos educar a contextualizar todas as informações que estamos recebendo.”

Defina limites

Marshall diz que, no nível pessoal, curar a ansiedade exige definir limites como não correr atrás de uma promoção, passar menos tempo online e terminar relacionamentos tóxicos. Ela acrescenta, no entanto, que, para resolver a ansiedade relacionada ao trabalho, o verdadeiro peso recai sobre os empregadores. “Os chefes não param de exigir mais de seus funcionários. Eles deveriam tratá-los como seres humanos, como pessoas reais que cuidam dos filhos aos sábados”

Agendas implacáveis também podem nos manter isolados de relacionamentos que nos fornecem chamados para a realidade quando aparecem os medos ligados à saúde, idade ou status. “Escutar as histórias das angústias dos outros é um apoio, e precisamos disso, porque constrói esperança”, explica Boateng. Outras pessoas, sejam terapeutas ou amigos, podem ajudar a combater as vozes irracionais da ansiedade. “Você não pode mudar o pensamento até que mude as atitudes”, diz Karam. “As pessoas têm os pensamentos mais ansiosos à noite, quando estão tentando dormir, esse monólogo percorre suas mentes. Levante, caminhe.”

A enxurrada de estudos e histórias sobre ansiedade é avassaladora, mas está levando as pessoas que necessitam de ajuda aonde precisam estar – na terapia ou em salas com outras pessoas que podem ajudá-las a neutralizar as vozes negativas em suas cabeças. “Pense na ocasião em que se sentiu mais paralisado”, diz Karam. “Foi provavelmente quando você não pôde se expressar sobre algo. Quando as pessoas ficam apenas dentro de suas cabeças, elas ficam isoladas e isso tende a piorar as coisas. Ser capaz de falar sobre a questão é muito importante.”