Rebeca Souza – Foto: Vivi Terra

Rebeca Souza não sabe ao certo quando começou a rabiscar casinhas na aula de artes e desenhos na escola, mas se recorda de seus pais falarem que ela levava jeito para aquilo. Hoje, com 36 anos e sendo uma arquiteta com bastante visibilidade dentro do nicho em que trabalha, a paulista consegue perceber que sempre foi muito artística. “Sempre gostei de pintar, de desenhar. Tenho desenhos que fiz quando pequena. É muito louco como têm coisas que afloram desde a infância, né?”.

Natural de Campinas, se mudou com a família logo cedo, com menos de 3 anos, para a cidade de Guarulhos (região metropolitana de São Paulo) e foi por lá que cresceu e viveu até o início da fase adulta, onde deu os primeiros passos para entrar na graduação. “Desde a época de colégio, já sabia o que queria seguir de profissão. Cheguei a fazer um ano de cursinho, mais para ver e entender melhor se era essa carreira que queria, mas arquitetura sempre me bateu diferente.” E deu certo!

A ânsia por mudanças não falta na vida dela: hoje, ao lado do marido e da filha de quase 2 anos, Rebeca vive em Indaiatuba, no interior de São Paulo, há quase cinco. Escolheu a cidade pela facilidade de morar em uma casa dentro de um condomínio, onde a vida é mais segura e confortável. A fuga da capital fez com ela conseguisse focar na área que sempre teve mais afeto e carinho: a de projetos de arquitetura, tanto para interiores quanto para a construção de novos lares.

Nunca gostou muito da execução das obras em si e se adaptou super bem às reuniões à distância para o desenvolvimento dos projetos com os clientes. “Na pandemia, a maioria dos arquitetos teve que se adaptar a este modelo e eu já estava nesta rotina de trabalho. O mundo online e as reuniões no Zoom já eram meu cotidiano”, conta, revelando que este modus operandi fez o trabalho dela chegar longe. “Tenho projetos no Brasil todo e fora do País. Tudo feito daqui de casa”, completa.

Foi com a ajuda das redes sociais que Rebeca impulsionou (ainda mais) sua vida e carreira: resolveu criar uma conta pessoal no Instagram e compartilhar conteúdos relacionados à sua rotina de trabalho, maternidade, relacionamento e muito mais. “Notei que as pessoas queriam entender não só sobre minha profissão. Elas tinham curiosidade de tudo e queriam me conhecer”, diz sobre seu perfil que já tem quase 2 milhões de seguidores. Quando sua conta começou a crescer, Rebeca passou a entender que se criava ali uma “arquiteta mais humanizada”. “Quem te contrata não escolhe só o profissional. Escolhe e contrata a pessoa, também”, refle.

Para ela, muito além de ter o título de “influenciadora digital” no currículo, a ideia de potencializar outras meninas e meninos pretos é o maior dos troféus. “É o que sempre falo: temos que ter aquela referência de olhar para alguém preto que chegou em uma posição de sucesso e nos ver ali. Imaginar que pode não ser fácil, mas é possível conseguir”, revela Rebeca.

A pauta racismo é algo constante em suas redes sociais: a arquiteta faz questão de falar e debater sobre este tema porque sabe que, até hoje, sofre deste mal estrutural da nossa sociedade. “Não sou um padrão, quando as pessoas me olham, elas não imaginam que eu seja arquiteta. Infelizmente, sei que é assim. Por isso, é necessário ser falado.”

Um momento que guarda com carinho em sua trajetória até aqui foi o convite que recebeu da marca Coral para estrear uma tinta que levava seu próprio nome. Os tons “Cinza Rebeca Souza” são comercializados em todo o Brasil. “Foi incrível e inesperado. Nunca imaginei. Tantos outros profissionais e fui escolhida. Ouvi de companheiros pretos da arquitetura que me tornei referência.”

Referência e inspiração são palavras importantes no vocabulário da arquiteta. Quando começou na carreira, conta que não havia outras pessoas como ela para olhar e querer trilhar caminhos parecidos. Sua família ocupou este espaço em sua mente. “Meu pai é uma inspiração para mim: ele é preto, deficiente físico, já passou por tanto preconceito e sempre trabalhou, criou três filhos, deu estudo para nós”, fala, emocionada. “Tudo isso é mais uma prova que a gente pode, que a gente consegue.”