Lellê: “represento mulheres negras da favela que têm um sonho”

No Dia da Consciência Negra, Bazaar entrevista a multiartista

by Pablo Gomes
Foto: Divulgação

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Lellê tem apenas 22 anos e está na escala da fama. Ela foi revelada ao Brasil em 2013, quando se tornou vocalista do grupo Dream Team do Passinho, depois de ser descoberta através da Batalha do Passinho, evento que acontece nas comunidades do Rio de Janeiro com o objetivo de descobrir novos talentos da dança – mas que era, na época, um concurso tipicamente masculino.

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Ela se lançou na carreira solo em 2018, com o rap “Nega Braba” e, em 2019, fez muito sucesso com a canção “Mexe a Raba”. No Dia da Consciência Negra, Bazaar entrevista a multiartista, que também já fez a novela “Malhação” e “Totalmente Demais”, entre outras produções. Leia na íntegra:

Como você entrou para a disputa do passinho, um duelo de dança que é tipicamente masculino? Como se sente sendo a primeira mulher a ganhar destaque na disputa?
O movimento do passinho era super masculino e muito machista também. Quando eu tentava entrar no lugar eles não gostavam. Falavam que isso não era para mim, não era para mulher. As poucas meninas que conseguiam disputar com os meninos, estavam lá não pela dança e sim por andar com eles. Realmente a primeira menina a ser respeitada dentro do movimento fui eu, porque fui muito abusada! Comecei a questionar o motivo que pelo qual só homens poderiam participar da disputa. Quando comecei a batalhar (no passinho) e os meninos viam que era boa, muitos se sentiam humilhados por perder para uma mulher. Tinha muita resistência por parte deles, por verem que uma mulher fazia tão bem quanto eles.

Atualmente, as mulheres também duelam, ou ainda são poucas?
Hoje em dia tem muitas mulheres duelando. Nos concursos, a maioria tem categoria feminina e masculina. Além dos duelos separados de homens e mulheres, têm também duplas de homens e mulheres que dançam juntos.

Algum momento imaginou a proporção que a sua presença nas batalhas ia tomar?
Fico muito feliz com o caminho que tomou. Por ter sido a primeira, sofri muito com isso. Não foi fácil ter que brigar por um espaço que deveria ser de todos e não fazia sentido para mim ter que brigar por ele. Que bom que briguei e que hoje tem uma tendência de meninas que dançam do jeito que elas querem dançar, que mandam o passinho do jeito que elas querem mandar e os homens respeitam isso. Entendo que quando alguém quer fazer algo novo acaba sofrendo muita rejeição. O novo dá medo, o novo te tira da zona de conforto, o novo faz você pensar. As pessoas não querem isso, ninguém quer desconstruir.

Lellê no clipe "Mexe a Raba" - Foto: Divulgação

Lellê no clipe “Mexe a Raba” – Foto: Divulgação

Existe uma semelhança muito grande entre você e a cantora Iza, tanto fisicamente quanto profissionalmente, história de vida, duas mulheres negras vencendo o mundo e ganhando os palcos. Vemos em vocês duas mulheres negras empoderadas. Como enxerga isso?
Eu acho a Iza uma mulher super linda, talentosa e fico muito feliz de vê-la na cena (musical), de ser reconhecida. Ela representa o valor da mulher negra, da cantora, uma voz potente. Já trabalhamos juntas e eu a admiro muito. Ficamos muito felizes uma pela outra.

Você chegou a um patamar em que poucas pessoas atingem, ainda mais difícil atingir para pessoas que são da periferia, isso deve ser motivo de muito orgulho. Como você se sente?
Eu estou nervosa, menino! Acho que foi exatamente por isso que fiz “Mexe a Raba”. Essa responsabilidade é muito doida, porque sou muito nova, mas, ao mesmo tempo, foi aonde a vida me levou. De certa forma, esse meu estilo de vida, como fui criada, a minha atitude me levou a um lugar que representa alguma coisa. Representa mulheres negras que são da favela e que têm um sonho, que cada vez mais está difícil de realizar. Principalmente nesse momento que estamos vivendo no Brasil. Então me vejo muito nesse lugar de dizer que é possivel. Porque é! Apesar de parecer que não. Acho que o que mais atrapalha a gente é a nossa insegurança, nosso medo. Eu já tive isso várias vezes. Em vários momentos tive medo. Nunca pensei em desistir, mas o medo balança. O que eu fiz foi pegar na mão do medo e fui embora, fui com ele. Talvez eu não possa ir sem ele, mas posso ir com ele. É dizer para essas mulheres, essas pessoas, que estão nesses lugares, que a vida não é só aquilo, que realmente é meio aprisionador o ambiente. O que o país faz com a gente, é uma lavagem cerebral. Quando você olha para uma pessoa que chegou lá, você passa a tê-la como referência. Não somente para ser artista, mas para qualquer coisa que a pessoa sonhar. Dizer para as pessoas que elas podem ir em busca dos próprios sonhos, elas podem ser quem elas quiserem ser. Essa é a mensagem que quero passar.

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