Foto: Divulgação

Apesar de ser uma marca relativamente jovem-, a Ralph & Russo já alcançou marcas equivalentes a grandes grifes do mercado. Com vestidos extremamente femininos, a label conquistou celebridades e é a opção de várias famosas para atravessar o tapete vermelho – incluindo Meghan Markle, que usou um vestido preto da Ralph & Russo para anunciar seu noivado.

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Em 2010, Tamara Ralph e Michael Russo escolheram Londres para abrir a marca. Em 2014, Ralph & Russo se tornou a primeira label britânica em quase um século a integrar a lista de guest members da Chambre Syndicale de la Haute Couture, ou seja, passou a apresentar suas coleções durante a semana de moda de alta-costura.

Nascida em Sydney, na Austrália, Tamara cresceu rodeada pela a áurea do mundo da moda, já que havia em sua família quatro gerações de costureiros, estilistas e designers para influenciar seu desenvolvimento. “Saber que havia nascido numa família assim sempre alimentou e inspirou minha paixão pelo design”, conta a estilista em entrevista à Harper’s Bazaar Brasil. Com a ajuda de sua avó e de sua mãe, começou a criar suas primeiras peças com ainda 12 anos e, quando mais velha, optou por estudar moda no Whitehouse Institute of Design, em Sidney.

“Nunca houve um fardo ou qualquer pressão para que desenvolvesse uma carreira nesta indústria. Na realidade, meu pai esperava que eu seguisse o mundo dos negócios quando terminei a faculdade, porque eu era muito acadêmica. Mas, neste ponto, o design de moda havia se tornado parte integrante da minha identidade, sabia exatamente o que queria fazer. Foi minha escolha me tornar diretora criativa e criar minha própria marca e meus pais continuaram me apoiando. Eles viajam a cada temporada para assistir aos desfiles de alta-costura e ainda não perderam um”, relembra sua trajetória.

Foto: Reprodução/Instagram/@tamararalph

Se engana quem pensa que Tamara Ralph sonhava baixo quando decidiu dar início ao seu sonho. Quando questionava se imaginava ver suas criações apresentadas durante a semana de moda de alta-costura, a designer falou que com certeza. “Ter o seu talento reconhecido pelo Chambre Syndicale de la Haute Couture é um enorme elogio e, sem dúvidas, o sonho de muitos designers, incluindo eu mesma. Mesmo anos depois, ainda estamos surpresos em ser a primeira marca de luxo britânica a alcançar esse objetivo”, conta.

Ao incluir sua marca na programação da semana de moda de alta-costura, Tamara também se tornou a primeira diretora criativa do Reino Unido a alcançar essa marca, que enxerga como uma grande honra e privilégio.

“Quando lançamos a Ralph & Russo, há dez anos, haviam poucas diretoras criativas tendo êxito na indústria, o sempre achei muito estranho, porque ninguém pode verdadeiramente entender a figura feminina melhor do que uma mulher. Isso não significam que não existem homens incríveis neste cargo – porque há vários! – mas, na época, acredito que o grande número de diretores criativos impediu que muitas estilistas mulheres buscassem preencher posições criativas. Felizmente, houve um enorme progresso e sou muito feliz em ser uma entre várias designers que deixam sua marca no setor”, refletiu Tamara.

Mas a estilista sabe que alcançar esta marca vem junto com uma enorme responsabilidade social. Segundo Tamara, ela sempre sentiu uma espécie de dever em proteger o artesanato tradicional e de cultivar talentos. “Acho que todo mundo merece uma chance, independentemente de gênero, raça, origem ou idade. Acredito que ser mulher, em alguns aspectos, me deixa mais sensível às necessidades de um papel como o meu e em nosso setor especificamente”, analisa.

Alta-costura, inverno 2020

Para se adaptar ao momento pelo qual estamos passando, Ralph & Russo foi uma das marcas que se reinventou para apresentar sua nova coleção na primeira semana de moda de alta-costura 100% digital. Tamara explica que com o começo da pandemia, a marca precisou repensar toda sua estratégia, tanto pensando nos negócios quanto na coleção de alta-costura.

Normalmente, o time criativo da label trabalha com seis meses de antecedência do lançamento de uma nova coleção, Tamara Ralph conta que quando o lockdown começou no Reino Unido, o processo de criação das peças já estava em andamento. A equipe continuou trabalhando, de casa, mas à medida que a situação da pandemia e tantas questões sociais surgiam, a estilista avaliou que não parecia certo continuar com seus planos originais, já que seu foco criativo estava tão impactado pelos assuntos atuais.

“No final de março, decidimos mudar completamente de direção e seguir uma ideia que não seria apenas mais relevante, mas que também permitiria que nos conectássemos com nossos seguidores em um novo nível. Tem sido um momento desafiador para todos e sentimos que o que a pessoas precisavam desta coleção era uma saída, algo para admirar e se refugiar. Queríamos olhar para os aspectos positivos durante um período de crise e sentimos que canalizar esse elemento de admiração na beleza natural do nosso planeta era perfeito para isso”, conta Tamara sobre a coleção que foi inspirada nas Sete Maravilhas do Mundo.

Foto: Divulgação

Para apresentar a coleção, a marca decidiu enviar uma representante a estes locais: a avatar digital Hauli. “Embora os avatares não sejam algo novo, sinto que ainda não foram totalmente explorados na alta-costura. Com a natureza inerente do artesanato do velho mundo e do savoir-faire, um avatar parece estar tão longe disso, mas durante a criação da Hauli percebemos que esta crença não poderia estar mais errada”, analisa Tamara.

A estilista explica que Hauli é como a musa da marca, uma personificação das mulheres inspiradoras que trazem coragem e mudanças positivas aos quatro cantos do mundo: “Para nós, ela é a definição de mulher moderna e, com um nome que significa força e poder em suaíli, representa valores que sentimos que precisam ser mais celebrados.”

Pandemia

Foto: Divulgação

Tamara Ralph analisa que a pandemia acelerou mudanças e conversas que já estavam em pauta no mundo da moda, como a intensificação do e-commerce. “Os meses em quarentena possibilitou que muitas marcas e consumidores dessem um passo atrás na velocidade da vida contemporânea e olhassem o que realmente é importante. Acho que o calendário fashion se tornou tão rígido e veloz que se tornou igualmente difícil para as marcas continuarem criativas sob tanta demanda”, acrescenta.

A estilista adiciona a sustentabilidade, o consumo excessivo, a diversidade e o sistema racista à lista de assuntos que ganharam destaque neste momento de reflexão. Para ela, essas conversas já precisavam ocorrer,  mas eram varridas para debaixo do tapete para que grandes figuras pudessem dar continuidade a suas rotinas diárias. “Não está certo. Então acho que, nesse sentido, especialmente, a pandemia está nos forçando a mudar e, esperançosamente, para melhor.”

Para a surpresa de Tamara, seu time se adaptou com muita facilidade ao novo modo de se trabalhar. “O processo de design não mudou tanto. Trabalhar em casa significava que reuniões presenciais eram substituidas por videochamadas, os desenhos tinham que ser ilustrados com ajuda do Zoom e os tecidos tiveram que ser escolhidos com base nas amostras que havíamos enviado para nossas respectivas casas. O maior desafio foi achar maneiras de manter o time motivado, porque é muito fácil, em momentos como este, ser consumido pelo que está acontecendo no mundo”, explica.

Para celebrar o 10º aniversário da marca neste ano, a dupla à frente da label planejava – e ainda tem esperanças de conseguir – lançar sua primeira coleção de peças para casa. “Michael e eu sempre sonhamos em construir uma marca de lifestyle de luxo e poder oferecer aos nossos clientes uma experiência holística da Ralph & Russo. Temos muitos planos interessantes, incluindo a abertura de lojas em várias capitais importantes e nossa expansão em cosméticos, fragrâncias e muito mais”, revela Tamara.