Sintya Motta – Foto: Reprodução/Instagram/sintyamotta

Por Sintya Motta

Como estrategista em cognição no vestuário e imagem, a roupa sempre esteve na linha de frente da minha atividade profissional. O ato de me vestir bem faz parte da minha marca pessoal e profissional. Além do autocuidado com a minha imagem, nos últimos anos me dediquei a estimular muitas mulheres a elevarem sua autoestima através de looks que revelassem sua essência e fizessem com que elas se sentissem mais bonitas e felizes. E esse trabalho fazia parte da minha rotina até o final de 2019.

Mas 2020 chegou e mudou a minha agenda, acredito que a de todas nós. Apesar da rotina intensa que tinha até então, me sentia preparada para enfrentar as demandas diárias com autocuidado e feliz com a imagem que via refletida no espelho. A incerteza e a nova rotina provocada pela pandemia mudaram esse cenário, no qual tudo se encaixava bem, e causou um forte impacto sobre mim.

Passamos a ter pouca, ou quase nenhuma, interação social. Eu que sempre me vesti bem, passei a ficar desatenta a forma como me apresentava, passava boa parte do dia vestindo pijamas. Afinal, me vestir para que?

Porém, naquele momento tão difícil, um acontecimento transformador fez com que eu mudasse meu comportamento e voltasse a dar atenção a minha imagem. Minha irmã foi diagnosticada com um câncer muito agressivo. Mas, surpreendentemente, foi ela que, apesar do momento doloroso que estava atravessando, fez com que eu reavaliasse a minha atitude e visão sobre essa questão.

Ela, antes de ir para as sessões quinzenais de quimioterapia, se maquiava e vestia suas melhores roupas. A atitude de minha irmã me deu um ensinamento de vida. Eu estava de pijama, desanimada, e ela, que também sofria os efeitos da pandemia, estava em isolamento social e enfrentava um câncer, estava bem vestida.

E foi nos pesquisadores americanos Hajo Adam e Adam Galinsky, idealizadores do estudo enclothed cognition (cognição do vestuário), que eu já conhecia em decorrência de pesquisas para a minha formação, que encontrei as respostas para o que a minha irmã estava me demonstrando através da sua positividade. Para os dois pesquisadores, as roupas possuem significados simbólicos. E a ocorrência simultânea do significado simbólico da roupa com a experiência física de vesti-la tem um forte impacto na autoimagem das pessoas.

Intuitivamente, o que minha irmã fazia estava certo! Ao se vestir de acordo com a sua essência da melhor forma possível, ela se fortalecia para enfrentar o tratamento e a doença. Percebi, a partir daquele momento, que me vestia para o outro e não para mim mesma, e que deveria aproveitar o momento do isolamento para fazer o mesmo: me vestir alinhada com a minha essência, independente do olhar e aprovação do outro.

E foi assim que criei a QSP – quarentena sem pijama. Durante 40 dias, postei um look por dia. Em cada um deles buscava me vestir da melhor forma para realizar minhas atividades. Entrevistei 60 mulheres e investiguei o impacto do vestuário na produtividade, especialmente em situações de isolamento social como o que ainda estamos vivendo. A conclusão dessa pesquisa demonstra que a forma como nos vestimos influencia nossos hábitos pessoais e profissionais.

Mesmo sabendo previamente da importância da roupa para uma rotina produtiva, percebi que, assim como eu, muitas mulheres haviam sido afetadas por questões relacionadas à pandemia, e haviam deixado de prestar atenção em si mesmas, ao ato de se vestir. E como uma profissional que cuida da imagem, considero ter cumprido uma espécie de missão com a QSP – quarentena sem pijama. Considero fundamental que a gente entenda como vestir-se de forma adequada para a nossa rotina profissional pode interferir na produtividade, especialmente nesse cenário pandêmico.

Ser produtiva hoje não é a mesma coisa que era antes da pandemia. Precisamos levar em consideração que muitos trabalhos estão sendo desenvolvidos à distância, em home office. Pensando nisso, elaborei um guarda-roupa otimizado e inteligente, para que eu tivesse fácil acesso as peças preferidas para usá-las durante minhas reuniões virtuais. Inspirado no guarda-roupa cápsula, chamei-o de #ficaemcasasempijama.

Na minha proposta, o #ficaemcasasempijama, possui 41 peças seguindo alguns critérios, selecionados de acordo com o tempo em que estamos vivendo: 1) são confortáveis e privilegiam o tronco e a parte superior do corpo, que é a mais visível durante as videochamadas que ocorrem durante o trabalho em home office; 2) de fácil manutenção, haja vista a atual escassez de mão de obra de serviços daquele(a) que habitualmente é responsável por lavar, passar e acondicionar as roupas; 3) fácil coordenação das peças e das cores, multiplicando as possibilidades de looks.

As peças que não fazem sentido neste momento, guardei. Já as roupas que não tinham mais a ver comigo foram doadas. A seleção desses looks varia de acordo com seu estilo de vida, local de moradia. Tudo deve ser bem pensado para assegurar a sua satisfação e capacidade de se manter ativa e produtiva. Eu que passei a quarentena em uma cidade pequena, em uma região de montanha, de clima mais ameno, organizei o meu levando esse ponto em consideração. Foi sem dúvida, uma ótima oportunidade para fazer uma edição do meu guarda-roupa.