A moda, agora, é autenticamente imperfeita

Assim como o consumo, a moda nunca morre, apenas se modifica de acordo com o comportamento das pessoas e o mundo no qual viv

by redação bazaar
Lady Gaga - Foto: Getty Images

Lady Gaga, Met Gala 2019 – Foto: Getty Images

Por Lígia Krás

Em épocas de grandes crises, é comum a especulação e o temor de que o ato de consumir esteja com os dias contados. Por exemplo, se devido a violência ou crise econômica as pessoas nas grandes cidades param de frequentar restaurantes, tomar um choppinho e sair para baladas, naturalmente os empresários do ramo de restaurantes, bares e até do vestuário sentirão o impacto. Mas essas mesmas pessoas estarão em casa consumindo Netflix, pedindo pizza pelo iFood ou fazendo pipocas enquanto deitam em macios sofás projetados para o conforto do cinema em casa, com roupas macias de algodão que prezam pelo conforto.

Nesse mesmo momento em alguma pequena ou média cidade em que poucas novidades chegam, um restaurante e uma casa de shows são inaugurados na mesma noite e ninguém está em casa vendo seriados nem pedindo delivery, o restaurante tem filas na calçada e a loja de roupas vendeu muito bem naquela semana. Resumindo: Dependendo do ambiente, cultura, situação econômica e social e, consequentemente, do comportamento das pessoas, um setor pode ter queda no consumo, mas outro estará registrando alta. O consumo nunca morre, ele apenas se desloca.

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Em um mesmo sentido muito se aposta na falência da moda. É recorrente  a crítica em relação a desfiles e coleções  mais do mesmo, em que nada de novo parece surgir. A questão é que moda é muito mais do que uma calça, uma blusa ou sapato. A moda é um universo cheio de códigos em que o vestuário é apenas um produto concreto, tangível, físico que nos cobre em primeiro lugar e, sim, por mais arcaico que pareça, ainda cumpre a função de nos comunicar e expressar para o mundo.

E o mundo que todos estamos vivendo nos quatro cantos do planeta não tem sido nem um pouco monótono, é tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, e com uma efemeridade nunca vista, que parece que estamos vivendo dentro de uma obra surrealista de Salvador Dalí. Sem padrões, sem linearidade, sem lógica, em que a única regra é não ter regra. E esse sentimento tem se refletido enquanto moda de diversas maneiras, o que prova que está longe de a moda falir. Dois cases recém-saídos do forno: O baile do Met Gala 2019 “Camp: Notes on Fashion” e a nova campanha de batom da Gucci.

Campanha da coleção de batons da Gucci, "Rouge à Lèvres Satin" - Foto: Reprodução/Instagram

Campanha da coleção de batons da Gucci, “Rouge à Lèvres Satin” – Foto: Reprodução/Instagram

No baile do Met um dos looks mais comentados e amados da festa foi o do ator Ezra Miller. Você lembra o que ele estava vestindo?  Tudo bem, quase ninguém prestou atenção nisso, mas certamente ninguém esquecerá sua maquiagem surrealista 3D com vários olhos no rosto. Um mix de make up e arte, e, claro: moda! A roupa? Ela cumpriu maravilhosamente seu papel que era ficar em segundo plano, e não tem problema nenhum, porque moda não é só roupa. É justamente a arte de elaborar um look que consiga ser elegante, fashion, adequado sem ofuscar a brincadeira, a magia, a arte que aqui coube à maquiagem. No outro exemplo ainda no Met, o look inteiro da cantora Janelle Monae era pura performance, quando ela parava em uma pose estratégica e mostrava a bolsa em formato de olho e curvava o braço com sua refinada luva bicolor, uma nova obra de arte, inspirada em Picasso, se revelava. Com tantos looks incríveis e performances como a de Lady Gaga, esses dois looks que fogem do padrão perfeitinho e linear  dominaram os rankings de preferência do publico no mundo todo.

Ezra Miller - Foto: Getty Images

Ezra Miller, Met Gala 2019 – Foto: Getty Images

Lady Gaga, Met Gala 2019 - Foto: Getty Images

Lady Gaga, Met Gala 2019 – Foto: Getty Images

No segundo case, a Gucci movimentou as redes sociais com sua campanha de um batom que mostra um sorriso muito fora dos padrões, com dentes desalinhados. Na definição de muitos foi uma ode à imperfeição. Não é como Lara Stone em 2010. Não provoca uma sensação de glamourização do diferente. Não é um incentivo de ver beleza nessa imperfeição e,  sim, de encarar os fatos. E o fato é que por mais filtros, photoshops ou batons Gucci  de centenas de dólares que se use, somos todos imperfeitos.  Os códigos embutidos nos dois looks  do baile do Met encantaram tanto porque estão alinhados com os comportamentos atuais, com as sensações e emoções contemporâneas. Com a sensação de estar em um dia caótico, solitário, cheio de perrengues, dilemas existenciais, boletos para pagar e ainda assim não esquecer jamais a selfie perfeita do dia.

O imperfeito como autêntico é  um movimento atual comandando por diretores de arte e designers gráficos que usam um mix imenso de referências de moda, cinema, arte antiga, marcas que vão do luxo ao fast food, tabus, paisagens, frases e misturam tudo em uma colagem mais que surrealista acrescentando sarcasmo, uma crítica ao vazio contemporâneo, uma ironia com a própria instagramização do mundo na era das fake news e dos likes sob encomenda. É uma neo-pop art que, assim como a moda, fica sugando referências do passado e do que projetamos como futuro o tempo todo e fazendo colagens digitais que expressam exatamente aquilo que sentimos: o cansaço do excesso, o vazio do autêntico, a solidão nas multidões, a conexão real com o desconhecido, a ansiedade pela perfeição, o êxtase pelo reconhecimento e o alívio pela imperfeição perdoada.

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