Foto: Mika Baumeister/Unsplash

Por Alexandre Kiyohara*, em depoimento a André Aloi

Proponho um exercício: olhe para tudo o que se coloca gênero e, ao inverter, veja se tem necessidade ou faz sentido. Um exemplo muito claro são as roupas de praia. Nem todas as mulheres se sentem confortáveis usando biquíni. Às vezes, querem usar bermuda ou shorts. Já parou para pensar: quando estão menstruadas, como fazem para entrar na água sem um método invasivo? E se a gente tivesse um shorts que desse essa sensação de liberdade? É só um exemplo. Mas, quando vamos às lojas no verão, somente nas seções masculinas encontra-se uma bermuda para nadar. Olhando para um lado, veja se não faz sentido ter no outro! Minha experiência como homem transgênero me fez perceber como as coisas são fluidas e todos têm seus lados masculino e feminino – e é preciso aceitar.

A transição me fez perceber imposições da sociedade. Por que precisa ser de tal jeito? Quando a gente nasce, e tem uma identidade biológica, repete estereótipos: a menina tem de brincar de boneca e o menino, de carrinho. Ao quebrar isso, ensinando que cada pessoa tem dois lados, como os princípios fundamentais do universo yin-yang, vai ficando mais leve quebrar esses padrões. Nunca me identifiquei 100% como mulher, por que tinha de ficar repetindo tais atitudes?

Quando me reconheci como homem trans, meu lado feminino se aflorou por um único motivo: não me importava mais se iam me ler como homem gay (isso acontece quando você é mais afeminado). O mais importante para colocar em prática nessa fluidez é o autoconhecimento, captando o que se gosta e o que não. E parar de colocar gênero em cima disso! Qual o problema se quiser fazer skincare ou pintar as unhas? Não me torna menos homem! É apenas uma característica da minha personalidade.

Sempre usei cueca, antes mesmo da transição, quando ainda me entendia como mulher lésbica. Sentia muito desconforto no período da menstruação. Essa roupa íntima não é feita para se usar com absorvente. Tinha dias que não queria sair de casa, por exemplo. Há cerca de um ano, a Pantys começou a desenvolver uma cueca menstrual, quando procuraram dezenas de homens trans para entender essa necessidade. Quando usei o produto e vi que funcionava, falei: “era disso que a gente precisava”. No começo, fizeram perguntas do tipo: “por que se sentem desconfortáveis? (em usar calcinha)” e “o que esse produto precisaria ter para se sentir melhor?”, além do tipo de tecido, cor, entre outros atributos.

Quando a cueca menstrual foi desenvolvida, foi pensando nos homens trans e pessoas não-binárias. Mas ela atende qualquer um. Porque há mulheres cisgênero, sejam lésbicas ou não, que amam usar cueca. No fim das contas, a moda faz parte da nossa identidade, de quem a gente é e da nossa personalidade.

A partir do momento que entendemos que as pessoas precisam se sentir confortáveis como elas são e ficam bem assim, isso é o que realmente importa. O meio publicitário está caminhando a passos absurdamente rápidos para quebrar esses tabus. Sinto isso no meu dia a dia, quando falo de diversidade. Está acontecendo tudo tão rápido, mas essa fluidez é necessária… É uma mudança que, quando a gente se dá conta, pensa: era tão óbvio, né? Por que ninguém falava disso antes? Muitas coisas precisam ser reinventadas.

A gente viu nas Olimpíadas do Japão o quanto existe essa distinção nos uniformes masculinos e femininos. No futebol, a mulher não usa bermuda, e sim um shortinho. Assim como no vôlei de praia, em que precisam aparecer de biquíni, mas os caras não ficam de sunga. Isso precisa ser reinventado! Senão, as mulheres vão continuar sendo punidas por se recusarem a determinado tipo de imposição sobre suas roupas.

No século 21, falando tanto dessas pautas, parece mentira reparar que está acontecendo algo assim. Muitas áreas precisam ser retificadas: da saúde aos esportes, à moda em geral, que está se reinventando. Mas ainda há lugares dentro da caixinha. E precisamos nos libertar! Cada vez mais, temos de nos livrar desse gesso em que nos colocaram durante muitos anos. Só falando a gente vai ser ouvido. Muitas vezes, é preciso gritar, faz parte… é um processo de mudança. Enquanto nossas necessidades estiverem à frente, tudo vai se concretizar para sermos cada vez mais leves e felizes. Quanto mais buscarmos nos conhecer, mais prontos às mudanças estaremos.

*Alexandre Kiyohara é publicitário e atua como Head de Diversidade na Gina Cuida, uma startup de saúde, que conecta profissionais de atendimento especializado à população LGBTQIA+. Participou como consultor no desenvolvimento da primeira cueca menstrual brasileira voltada para homens trans e pessoas não-binárias, além de ter estrelado a campanha do produto.