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Por Thaís Mota

Pode até soar estranho, mas a relação entre alimentação, desmatamento e pandemia é intimamente estreita, afinal, “você é o que você come” e isso inclui todo o processo por trás da comida até que ela chegue ao seu prato. Isso abre espaço a uma questão urgente trazida pelas respostas climáticas e biológicas do planeta: mudança de hábitos e métodos de consumo.

O último sábado (05.09) marcou mais um Dia da Amazônia – um dia que deixou de ser celebrado para ser lembrado. Estudos do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) mostraram que 55 milhões de hectares de floresta foram derrubados entre 1990 e 2010 no Brasil. Na Amazônia, 780 mil km² de vegetação nativa já se perderam e, para se ter noção, isso equivale a uma área duas vezes maior que o território da Alemanha.

As intervenções do homem na fauna e flora trazem questões irreversíveis para o planeta que ainda perde vidas para a pandemia do coronavírus. De acordo com publicação no site oficial da Organização das Nações Unidas (ONU), “Ao alterar o uso da terra – para assentamento, agricultura, extração de madeira, indústrias extrativas e sua infraestrutura associada – os seres humanos se fragmentam e invadem habitats de animais.” O reflexo dessas ações são, nada menos, que a origem das zoonoses, como é o caso da Covid-19.

Zoonoses e o impacto da alimentação

A médica veterinária, especialista em microbiologia pela Universidade de São Paulo, Diana Costa Nascimento, explica que zoonoses são doenças transmitidas entre animais vertebrados, sejam eles silvestres, exóticos ou domésticos, e seres humanos.

Segundo ela, é importante ressaltar que muitas doenças infecciosas existentes são zoonóticas e 71% delas são transmitidas por animais silvestres ou vetores encontrados nas florestas. “Quando estes animais e/ou vetores estão em sua área de origem (nas matas) em equilíbrio, dificilmente passarão para a área urbana, não trazendo, assim, as doenças para perto do ser humano. O problema acontece quando desalojamos esses animais e vetores de suas áreas naturais, seja por queimadas ou desmatamento, pois passam, então, a buscar novos locais para sobreviverem, trazendo consigo doenças que antes eram restritas a áreas e população animal silvestre”, afirma a especialista.

Isso significa que quanto maior o avanço humano em áreas silvestres, maior o contato e mais comuns essas doenças acabarão se tornando.

Além disso, de acordo com Diana, existem alguns fatores que propiciam uma maior transmissão e interação destes agentes patogênicos com os humanos e os animais domésticos, como “a predação ilegal de animais silvestres para venda e consumo; a degradação ambiental por desmatamento, queimadas e avanço da agropecuária; a prática inadequada de medidas básicas de sanidade e higiene, e o aumento da temperatura global que influencia a reprodução de vetores de doenças em diversas áreas.”

E se falamos de avanço da agropecuária e condições inadequadas de higiene, o consumo de carne é outro fator preocupante na transmissão de doenças. “A esmagadora maioria dos animais consumidos por humanos vivem em situações absurdamente críticas durante todo o seu curto período de vida, confinados em lugares extremamente pequenos, sujos, sem condição alguma de ter uma vida livre e feliz, ao contrário dos outdoors e propagandas que as grandes marcas costumam divulgar. Essas condições precárias fazem com que os vírus sejam capazes de mutar e contaminar animais de maneira escalonada, sendo muito difícil de se ter controle da propagação dessas doenças, ainda mais que cada uma possui características diferentes em animais diferentes”, explica a nutricionista Marina Fontana.

De acordo com Marina, estudos e documentários produzidos na última década mostram a relação do consumo de carne com o meio ambiente, com a saúde e a forma como os animais são tratados. Para ela, repensar o consumo, de maneira geral, é extremamente necessário.”“Hoje consumimos muito mais do que o mundo pode nos fornecer, isso fica claro pelo Dia da Sobrecarga da Terra que, neste ano, foi no dia 22 de agosto. Essa data marca o limite de capacidade de regeneração da Terra, é como se a partir desse momento nós começássemos a ‘dever’ para o nosso planeta.”

Além disso, a especialista alerta para outras doenças, transmitidas por animais não silvestres: “Como o coronavírus está associado ao Pangolim, que é um animal exótico, muito se falou do consumo desses animais selvagens e novas pandemias. No entanto, não podemos esquecer que recentemente, ainda tivemos surtos de gripes aviária e suína, que não são animais silvestres, muito pelo contrário, são comumente encontradas no padrão alimentar mundial. Repensar nossos hábitos alimentares é, com certeza o melhor caminho para proteger nosso planeta, nossa natureza e a nossa saúde”, afirma.

Para impedir o surgimento de zoonoses e, consequentemente, futuras novas epidemias, o primeiro passo, para a médica veterinária, é frear o desmatamento e a destruição do meio ambiente, bem como o tráfico de animais e a caça predatória para venda e consumo. “Desta forma, mantemos as doenças silvestres em sua área natural, com seus respectivos hospedeiros. Quanto mais o homem avançar e destruir as áreas de matas, maior será a interferência negativa no delicado equilíbrio das florestas e de seus habitantes.”

Pelo visto, a regra é clara: cada um no seu quadrado, mas a responsabilidade de olhar para o planeta e fazer escolhas positivas, mais que uma opção, é um dever de todos.