As criações do upcycling da Transmuta: moda com propósito e preocupação social e ambiental – Foto: Vitor Augusto

Por Jorge Wakabara

Na frente do guarda-roupa, aquele drama: o que vestir? Qual será a combinação de hoje? Essa blusa com essa parte de baixo dá certo? O problema fica resolvido para quem tem uma peça (ou mais!) da Transmuta: Lucas Bettin já fez um trabalho cuidadoso de agrupamento de roupas descartadas (para ele, matérias-primas) e construiu novas peças a partir delas, que são coringas do closet. Cheias de personalidade, valem por um look inteiro!

A Transmuta surgiu em 2017, depois de uma incursão de Bettin pelo mercado de moda tradicional no Rio de Janeiro. “Tive uma experiência muito legal de processo criativo e desenvolvimento de coleção, mas rolou uma decepção com o sistema. Quanto mais baixo na pirâmide, menos remunerado, menos valorizado. Todo mundo estava insatisfeito, os estilistas reclamando dos seus salários. Eu romantizava a profissão, achava que ia chegar lá e todo mundo ia estar desenhando. Tinha essa ilusão muito inocente da criação. Vi que 99% é cópia”, revela.

As criações do upcycling da Transmuta: moda com propósito e preocupação social e ambiental – Foto: Vitor Augusto

As experiências fizeram-no repensar os objetivos e outros motivos o trouxeram de volta a Curitiba, onde começou a procurar novos caminhos para a moda. Nas pesquisas, se deparou com marcas de upcycling daqui e do exterior e se encontrou: “Essa coisa da transformação já estava no meu DNA desde a faculdade, quando transformava uma peça em outra coisa. Tinha a ver com o que eu estava procurando, que era fazer uma moda com propósito”.

Bettin é bastante crítico ao sistema como ele funciona hoje: “Percebia e ainda percebo que o mundo não precisa de mais uma marca de moda só para expressar a visão artística e estética do estilista. Já existe muita marca. Se é só para fazer roupa bonita, não faz porque já tem muito! Se você quer empreender, tem de estar atento ao impacto social, ambiental”.

As criações do upcycling da Transmuta: moda com propósito e preocupação social e ambiental – Foto: Vitor Augusto

Aliás, sobre o social, a Transmuta também traz essa preocupação em seu cerne. Com uma equipe de fornecedores parceiros, Bettin faz questão, não só de remunerá-los de maneira justa, mas também os divulga nas tags de tecido incluídas em cada roupa da marca. Quando você escaneia o QR code das tags com o celular, é direcionado para um dossiê digital que inclui as matérias-primas (ou seja, as roupas que foram reunidas para formar a peça), instruções de lavagem, um breve texto falando sobre o propósito da label e as funções e contatos de cada um que passou pelo processo: “A gente quer que eles tenham muito trabalho”.

As tais matérias-primas da Transmuta chegam, principalmente, de garimpo em feiras e bazares onde os brechós também vão para rechear suas araras. “Prefiro esses lugares que não tem o filtro do brechó, da peça em bom estado para a venda. O que vou usar pode ter um defeito, um furo grande na frente. É só eu usar o resto”, Bettin explica.

Seu método tem sutilezas, mas funciona tanto que é reproduzível – a Transmuta também oferece cursos online, nos quais ensina o aluno a fazer todas as etapas. Inclui escolha e agrupamento da matéria prima, técnicas de abertura da costura, planificação e encaixe dos moldes até a costura em si.

As criações do upcycling da Transmuta: moda com propósito e preocupação social e ambiental – Foto: Vitor Augusto

Tudo isso não surgiu da noite para o dia, claro. “No começo, colocamos na cabeça que íamos transformar uma só peça em outra. Pegávamos um vestido garimpado do brechó, dos anos 1990, de tafetá, e fazíamos uma jaqueta bomber. Usávamos só esse vestido e fazíamos de tudo para os encaixes darem. Aí fomos entendendo que não precisava ser só uma peça…”, Bettin relembra.

O olhar estético também caminhou: “Queríamos fazer uma peça de upcycling que não tivesse cara de upcycling. Depois entendemos que é muito mais legal quando a peça conta essa história”. A jaqueta jeans da Transmuta, por exemplo, agora mantém os bolsos originais da calça que lhe deu origem.

Hoje, você pode comprar peças da Transmuta pela internet e na multimarca Namix de Curitiba e de Trancoso. Atualmente, Bettin trabalha bastante na reconstrução de camisetas, brincando com suas estampas e grafismos. Ele fazia trabalhos sob encomenda, porém, preferiu se dedicar só à pronta-entrega com o objetivo de conseguir um maior volume. Quem sabe assim, a gente verá suas transmutações em mais lugares do Brasil? Para esse ano, ele ainda promete uma nova coleção de jaquetas a partir de lonas usadas. Queremos ver… e ter!