Ashley Graham: a modelo plus size número 1 do mundo foi capa e recheio da Bazaar US em julho de 2017  - Foto: Alexi Lubomirski
Ashley Graham: a modelo plus size número 1 do mundo foi capa e recheio da Bazaar US em julho de 2017 – Foto: Alexi Lubomirski

Por Juliana Lopes

O corpo chegou. E essa é a grande notícia. Mas, como assim, onde estava o corpo, então? Estava escondido, com medo e vergonha. O caminho ainda é longo, mas temos avanços. O corpo nunca pôde ser mostrado como ele é. Por moralismo: “Vão achar que estou me oferecendo”. Ou pelo tipo de aparência que tem: “Não tenho direito de usar minissaia com essa celulite (ou com essa idade, peso, deficiência etc.)”.

Convenhamos, o corpo que vimos na moda do século 20 nunca representou, de fato, a realidade. Sempre foi a beleza da exceção, do que era raro. Como Cindy Crawford e Gisele Bündchen. Que nós amamos, mas não existem apenas elas. O corpo do século 20 era uma aspiração, um sonho a cada década. Brancas, bronzeadas, magérrimas ou musculosas, altas e sempre perfeitas. Poucos tipos de corpos podiam se mostrar – e, ainda assim, não estavam livres de serem julgados.

Quanta dificuldade, né? Só me mostro se for “perfeita” e ainda assim vão achar que estou disponível? A criação do sonho da moda sempre mirou sua produção, não apenas na excelência, mas no perfeccionismo, no inatingível para a grande maioria. Era bonita a palavra “exclusiva”. Era bonito sofrer pela moda. Era muito mais difícil atingir a sensação de ter beleza, a menos que você preenchesse inúmeros requisitos e ainda se convencesse disso.

Nada de errado com a busca pela excelência num mercado em que estamos criando sonhos. Mas, pausa para respirar. O que é avassalador e digno de comemoração é o valor da inclusão que está invadindo a moda na internet, nas ruas, na mídia e, como consequência, o nosso imaginário.

Está muito mais fácil sentir-se bem com nossa própria aparência. Porque outros tipos de corpos foram incluídos no rol do “bela e fashion”. Eu não preciso ser magra, branca nem jovem para ser “bela e fashion”. E tem mais: posso ser “bela, fashion e sair pelada” sem dar liberdade para me tocarem. #nãoénão.

Anitta no clipe "Vai Malandra" - Foto: Reprodução/Youtube
Anitta no clipe “Vai Malandra” – Foto: Reprodução/Youtube

Muita publicação no Instagram com a hashtag mostrando a mulherada dançando feliz e plena com seus corpos reais e em alerta contra abusos. Isso é revolução. É muito mais fácil para as meninas de hoje usarem short depois do clipe de “Vai Malandra”, da cantora Anitta, exibindo, em close, sua real celulite, que não a deixa nem um pouco insegura de sua aparência.

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A modelo Winnie Harlow - Foto: Reprodução/Instagram
A modelo Winnie Harlow – Foto: Reprodução/Instagram

É provavelmente mais fácil para as gordinhas curtirem a praia, o balé e a natação quando vemos influenciadoras plus size acontecendo nas redes. Hoje é mais promissor que mulheres com deficiência alcancem o sonho fashion com o sucesso de modelos como Winnie Harlow, que sofreu bullying por causa do vitiligo.

As meninas negras com seus cabelões também estão num momento mais generoso, e sem volta, com a valorização de seus corpos como são principalmente pelas marcas de beleza. E as que amam estar com cropped e minissaia não precisam mais esperar pelo carnaval para sair seminuas. Ficou feio julgar, dizer que tal pessoa não tem corpo para usar tal coisa. Todas temos um corpo e o usaremos como quisermos. Ficou feio falar que “também, fulana estava vestida assim, né?”. Assim como, amigas?

Assim, tipo Saint Laurent na passarela de verão de 2018, com looks hipercurtos? Tipo as minissaias da Chloé? Tipo a alta-costura da Dior, com transparências e mamilos à mostra? Brincadeiras à parte, vai ter tipo isso. Aliás, já tem. “Nessa onda de empoderamento, onde a mulher é dona do próprio corpo, ‘meu corpo, minhas regras’, fica entendido que mostrar o corpo não é um convite para ser tocada. E mesmo se ela estiver se oferecendo, tem direito de dizer não. As mulheres têm direito de sensualizar sem serem violadas por isso”, opina o estilista e stylist Dudu Bertholini, que é também coordenador criativo da graduação em Design de Moda do IED de São Paulo.

A antropóloga Patricia Sant’Anna, diretora e fundadora da Tendere, empresa de pesquisa de tendências com foco no hemisfério sul, acrescenta que a onda de exibir mais a pele é global, mas tem bastante força por aqui. “O mostrar o corpo não é exclusivo do Brasil, mas tem grande espaço, porque aqui encontra a verve da sensualidade latino-americana, dessa mulher que sempre se viu sexy, mas muitas vezes ultrajada e não respeitada”, diz Patrícia. “Muitas não estavam acostumadas a mostrar o corpo porque temiam parecer vulgar. No entanto, hoje sentem que podem. Ou então porque tinham seus corpos excluídos, considerados fora de determinados padrões de beleza. O recado é: estou bem com o meu corpo, feliz com ele e, ai de você…”, completa a antropóloga.

“Este momento traz a ideia do body positive, o pensamento de positividade em relação ao próprio corpo. As velhas regras de que mulheres grandes não podem usar cropped, não podem usar listrado, isso tudo foi por água abaixo. A gente vai ver na moda cada vez mais corpos se revelando de maneiras diferentes dos antigos padrões do século 20”, completa Dudu.

Apesar de, como Patrícia comentou à Bazaar, o feminismo estar tão na moda que “até nas fast fashion tem camiseta de girl power”, talvez muitas mulheres não saibam o real sentido da palavra. O feminismo quer, simplesmente, liberar as mulheres para serem o que quiserem sem serem julgadas por isso. Quer ficar em casa com os filhos? Fica! Quer trabalhar 18 horas por dia? Trabalha! Quer ser recatada? Seja! Quer mostrar o corpo? Mostra! Quer fazer plástica? Faça! Mas apenas porque você quer e não porque algo te obriga.

O feminismo quer que as mulheres tenham os mesmos privilégios que os homens. E, sim, ter a liberdade de se vestirem como quiserem sem julgamento. Felizes das meninas que estão nascendo agora e que olharão, daqui a uns 20 anos, um arquivo de imagens dos nossos tempos, com mais gente comum. Estarão muito mais acostumadas com a paisagem da realidade.