Foto: Dorian Lopez

O processo de criação musical para Lorely Rodriguez – mais conhecida como Empress Of – assemelha-se às medidas de distanciamento social. Aos 30 anos, compõe, produz e grava numa talagada só, sem sair para nada. “Sempre amei ficar em casa, escrevendo. Quando o dia chegava ao fim, ia beber com meus amigos”, diz a cantora, por videochamada, à Bazaar, no calor de quase 40ºC de Los Angeles.

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

Agora, está buscando outras formas para descomprimir. “Não quero me sentir sozinha, é um sentimento meio assustador. Estar em contato com amigos mantém a mente saudável. Nos reunimos virtualmente, rimos, bebemos um vinho ou preparamos um drink.”

No dia da conversa, a imperatriz estava de mudança. Sairia de uma edícula para uma casa na mesma vizinhança. Momento “estranho” para se mudar, segundo ela. Mas assim como as pessoas estão se adaptando à rotina de trabalhar em casa ou ela própria está buscando novas ferramentas de divulgação, “a vida continua” – e, para a cantora, com trilha sonora de Childish Gambino.

O novo álbum, “I’m Your Empress Of”, terceiro de sua carreira, demorou dois meses para ficar pronto, após ela “desopilar”, nas composições, tudo o que precisava sobre corações partidos. O que a fazia se sentir mal antes – ou até deprimida – vinha como alívio no peito, em forma de música solar e sintetizadores, embalados por letras em inglês e espanhol.

“O disco decifrou um código de criatividade em mim. (Sinto) mais confiança como mulher, escritora e artista. Música é terapêutica”, diz a libriana, de 19 de outubro, que aposta no horóscopo como um jeito divertido para conhecer pessoas. E só!

Ela queria ter lançado o trabalho em janeiro, assim que terminou de produzir, para logo sair em turnê promocional. Aí vieram as medidas de segurança, o lockdown… Mas o disco saiu agora, as críticas foram mais do que generosas, o momento de autoisolamento ajudou no escape. “Estaria fazendo um desserviço para mim mesma se não lançasse este álbum, sentia necessidade de fazer isso logo”, desabafa.

Filha de imigrantes de Honduras, pai pianista e mãe que já trabalhou como faxineira e babá, Lorely se diz surpresa com os dons artísticos da família. Além de fazer as roupas de seus shows, a mãe emprestou a voz e a sabedoria para os conselhos que aparecem na faixa-título. “Disse coisas lindas, como o ‘amor é a linguagem do coração, que todos podem entender’. Não pedi para dizer isso”, comemora.

A maior lição que aprendeu com ela vem do ditado “errar é humano, persistir é burrice”. “Queria voltar com o ex e minha mãe repetia: ‘Por que você vai fazer isso de novo?’ Aprendi a lição”, afirma. Antes do atual namorado (cujo nome prefere manter em sigilo), vivia sofrendo.

Apontada como revelação fashion, muito por sua montação hi-lo no Instagram, a cantora reforça que a moda não era algo que mirava. Mas aconteceu. “Amo encontrar maneiras para me expressar, para que as pessoas possam me ver.” No ensaio de capa do novo trabalho, aparece embrulhada para presente em um vestido com tiras de plástico. Em outro, exibe look da mesma Chloé, que, em 2018, a convidou para fazer a trilha sonora de uma campanha.

Nos pés, sapatos feitos com milho no lugar do salto alto – uma alusão às raízes latinas. Apaixonada por roupas, durante a quarentena, recomenda o uso da máscara. “Mas ponha um acessório brilhoso e se vista bem para ninguém menos do que você. Você vai se sentir melhor”, sugere.

Quando está em estúdio, adora imprimir suas referências para mirar e admirar. “Acabei de arrancar Mariah Carey, Cher e David Bowie… Quem mais? Kate Bush e Brandy“, enumera, sobre a linha monástica do pop colada em suas paredes. Se o telefone tocasse com um convite para um feat., adoraria que fosse alguém irrecusável. “Se fosse Björk, Kate Bush ou Madonna, ficaria muito chocada.”

No Brasil, esteve apenas uma vez para um acampamento de compositores. “Foi uma viagem meio maluca. Lembro-me que (o Rio) é uma cidade linda e intensa. Adoraria voltar para tocar.” Recorda-se também de ter ido a um baile funk. Não à toa, conhece MC Bin Laden e Pabllo Vittar, que a segue nas redes. “Fico surpresa que Pabllo conheça minha música, me coloque em seus Stories. Me pergunto: ‘Por quê?’. Não sou ninguém, ela é icônica”, pontua.