Camila Salek – Foto: Dani Zezza

Por Camila Salek

Impressionante como a pergunta acima tem sido cada vez mais frequente na minha vida. Semana passada, quando a empresa que fundei completou 15 anos, decidi começar a escrever esta coluna e contar um pouco da minha história.

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Nasci em São Paulo, mas tive uma criação bem mineira, pois muito jovens meus pais migraram do interior do País para a capital paulista, a fim de tentar uma nova vida. Minha mãe era a filha mais velha, o orgulho da família, a primeira a completar o segundo grau. Trabalhou para pagar o próprio estudo e, quando se formou, ajudou a formar todos os outros irmãos. Perdeu sua mãe muito nova e assumiu um pouco seu papel, algo muito comum em famílias grandes.

Meu pai teve uma vida ainda mais difícil e, desde pequeno, já vendia balas e doces na rua para ajudar no orçamento familiar. Aprendeu com meu avô o ofício da marcenaria e chegou com uma mala de ferramentas e muitos sonhos em terras paulistas na década de 1970.  Por aqui, trabalhou em algumas empresas até que, de forma autodidata, aprendeu a ler desenhos técnicos de moldes para fabricação em escala.

Rapidamente esta se tornou sua especialidade, o que abriu algumas portas e conexões para ele se tornar empreendedor. Minha infância foi simples. Cresci e vivi boa parte da minha vida na periferia paulista, no bairro do Aricanduva, Zona Leste de São Paulo. Um lugar bem esquecido na época, me lembro claramente do meu pai fazendo mutirão para minimamente canalizar a saída das fossas na rua, naquele tempo, nem esgoto tínhamos no bairro.

Foi com muita luta de ambos, um pai microempreendedor e uma mãe secretária de estatal, que eu e meu irmão pudemos estudar e ter acesso às escolas de primeira linha. Estudo sempre foi prioridade para os meus pais e a única cobrança era a de que entregasse o meu melhor. Não existia “não vai dar certo” ou “não vou conseguir”. Só existia o “vai lá e faz”. Cresci assim, entendendo que se alguém consegue fazer algo, eu também seria capaz de fazer – e que bagagem isso me trouxe para enfrentar os últimos tempos.

Quem acompanhou alguns dos talks, workshops e cursos que ministrei nos últimos meses, provavelmente me ouviu dizendo algo como “o impossível não existe”. Comecei a trabalhar com 15 anos e aos 17 já estava estudando Publicidade e Propaganda na ESPM. Era a aluna mais nova da minha sala e aproveitei ao máximo a estrutura que me era oferecida: fui da primeira turma da rádio e da agência da faculdade. Bons tempos!

Meu primeiro emprego efetivo marcou o início da minha carreira em marketing de varejo há 25 anos. Mantendo os princípios que aprendi com os meus pais, foquei na melhor oportunidade do mercado e acredito que trabalhei na única empresa de marketing digital existente na época. Passei boa parte dos meus primeiros anos profissionais aprendendo e ensinando o que era “WWW” (World Wide Web) e como poderiam ser feitas vendas e construídas relações através daquele novo mundo chamado internet, que na época basicamente se resumia a sites institucionais e lojas virtuais que se conectavam via linha de telefone discado. Bem diferente de hoje, e olha que estou falando do auge da tecnologia em 1996!

Muitas marcas varejistas ignoraram este movimento, outras apostaram com força. Participei de processos de criação de marcas como Pão de Açúcar Delivery, Avon, Firestone e comecei a ganhar dinheiro. Entendi que naquele mercado onde tudo era muito novo, eu com meus 18 anos e sede por descobrir, poderia me tornar uma expert. Aprendi que era uma boa contadora de histórias (o tão valorizado “storytelling”) e, quase que consequentemente, uma boa vendedora. Tive bons mentores e fui escolhida para dar palestras diárias evangelizando profissionais de mercado sobre os benefícios e as maravilhas do marketing digital.

Alguns anos depois, já no auge dos meus 21 anos, fui contratada por uma multinacional francesa de tecnologia, que estava abrindo uma unidade de design e visual merchandising no Brasil. Tive a oportunidade de estudar em Bordeaux (França) com os melhores profissionais do mundo na área e acompanhei de perto marcas como a Kenzo, que já adotava tecnologias bem distantes da nossa realidade brasileira. Logo estava difundindo mais conhecimento na minha terra natal.

No Brasil fui desbravar um mercado de moda essencialmente tradicional e dei muitas cabeçadas. Escolhi começar por grandes grupos, por entender que estes estavam mais maduros para a solução que eu tinha a oferecer. Posso dizer que conheci boa parte do mercado de moda brasileiro. Levei estilistas para feiras importantes na Europa e encontros incríveis em rooftops parisienses até que um dos meus mais importantes clientes, em busca de capital humano, me contratou para formatar um departamento de Visual Merchandising.

Mais uma vez na minha vida aceitei um desafio e comecei a criar uma nova história. Contratação de um time, criação de cultura, formatação de padrões eram apenas algumas das expectativas depositadas para uma profissional da minha posição. Teria sido fácil, se minha mãe não tivesse falecido no primeiro mês que assumi esta nova responsabilidade. A resiliência, palavra da moda nos dias de hoje, parecia flertar comigo. Reuni todas as minhas forças e segui.

De forma bem resumida, construí minha carreira em Visual Merchandising e nem sei quantas vezes já tive que explicar que VM não é vitrine ou arrumação de loja, é estratégia de marketing. Depois de alguns anos como executiva em magazines e marcas de luxo da moda nacional, refleti muito e percebi que o mercado de varejo ainda não estava pronto para o que eu vislumbrava. Resolvi que era hora de empreender e criar um time que fosse capaz de enxergar as mesmas possibilidades que eu naquele momento.

Assim nasceu a Vimer. Já são 15 anos que eu sigo compartilhando crenças e sonhos com pessoas e marcas no mesmo processo de reinvenção constante que me trouxe até aqui. São mais de 2.500 projetos para mais de 300 marcas diferentes. Isso é o meu combustível, é o que me da força e o que faz meus olhos brilharem. Nunca foi fácil, mas continuo me emocionando com cada conquista como se fosse o meu primeiro dia. Meio clichê, mas talvez seja realmente este o “tal segredo do sucesso”.

Hoje quando eu olho para o futuro e trago para o mercado provocações como o quanto o mundo METAVERSO vai mudar o varejo (pauta da minha coluna seis meses atrás), muitas marcas ainda duvidam ou acham que é uma realidade para ser pensada “amanhã”, enquanto outras ficam loucas para aprender mais. Eu continuo sendo do segundo time, representado pelos loucos que aprenderam a escutar, estudar e agir. E é nesse ritmo que os tempos de pandemia me trouxeram oportunidades apesar dos enormes desafios. Que a minha história de transformação sempre tenha páginas em branco, prontas para que eu escreva os próximos capítulos. Amém!

Camila Salek – Sócia-fundadora da Vimer Experience Merchandising integrante do grupo de empreendedoras de sucesso do programa “Winning Women Brasil” da Ernst Young e colunista da Harper’s Bazaar Brasil. Referência em varejo e visual merchandising, está por trás de evoluções significativas da experiência de consumo e do desenvolvimento do conhecimento da área, através da implementação de projetos inovadores e compartilhamento de conteúdos ministrados em aulas, palestras, treinamentos e publicações nacionais e internacionais voltadas para moda e tendência.