Camila Salek – Foto: Divulgação

Por Camila Salek

O varejo sustentável vive um momento de ascensão através do “re-commerce”, que chamamos de recompra aqui no Brasil. Este movimento está ecoando várias questões no mercado, uma delas com bastante frequência: por que revender é tão bom para marcas?

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De cara, é importante entender que a revenda aumenta o crédito ético ecológico de marcas. Em pouco tempo veremos marcas cada vez mais engajadas em processos sustentáveis e o varejo é um canal muito importante dentro deste ciclo. No mundo da moda, marcas outdoor fizeram uma verdadeira revolução e hoje lideram as revendas de suas próprias coleções. Para entendermos melhor este impacto, destaco a Patagonia, que atua fortemente na revenda dos usados dando destaque inclusive no seu site. O botão de acessos para os itens usados (pasmem!) fica ao lado do botão com lançamento de produtos. O consumidor da marca é quem decide o que e como vai consumir. Mensagem mais clara que essa não existe e ainda vem com um bônus: a percepção de qualidade duradoura do produto.

A revenda e o reuso, apesar de não serem novos na moda, têm se tornado cada vez mais populares. No inicio, os modelos de negócios eram mais pessoais e aconteciam em formatos pequenos por trás da figura de um curador, estilista ou criativo. Quem não se lembra do boom dos brechós com curadorias incríveis, das vendas de segunda mão daquela amiga descolada, dos aluguéis de peças para ocasiões especiais, de estilistas que verdadeiramente transformavam peças antigas em atuais… eu, particularmente, sempre curti muito todas estas iniciativas. Mas o que chama atenção hoje é a força da entrada de grandes grupos, principalmente através de canais digitais, neste segmento. Atualmente o re-commerce é um negocio avaliado em US$ 28 bilhões, com projeção de atingir US$ 64 bilhões em 2024. Se olharmos apenas para o mercado de luxo, o mercado de segunda mão está crescendo quatro vezes mais rápido do que o mercado de luxo primário, 12% ao ano versus 3%. Impressionante, não é mesmo?

Os canais de revenda online têm uma grande participação neste processo, já que possibilitam atingir milhares de potenciais consumidores que estão em busca de novas formas mais conscientes e sustentáveis de compra. No início da pandemia a Kering (a.k.a Gucci, Bottega Veneta, Alexander McQueen, Balenciaga etc) adquiriu uma participação de 5% no Vestiaire Collective, Na época achei a mensagem muito clara apesar de pouca gente acreditar: o luxo iria sim flertar fortemente com o re-commerce. No último ano, a Vestiaire cresceu mais de 100%. Hoje, é um dos mais importantes sites de recompra do segmento de luxo, com uma comunidade de mais de 7 milhões de pessoas em 50 países diferentes.

A Trove é um outro modelo de negócios incrível nos EUA, que trabalha como parceira de grandes grupos (Lululemon, Nordstrom, Levi, REI, etc) para desenvolver canais que assumem o controle do mercado de revenda destas marcas, aprofundando a fidelidade com os consumidores e fazendo avançar a economia circular. A Trove aponta que caminhos mais sustentáveis serão rotas necessárias para marcas varejistas prosperarem. Nossa querida Chiara Gadaleta sempre disse isso, não é?

Camila Salek - Varejo sustentável
Foto: Divulgação

Uma marca realmente tem muitos benefícios quando tem um processo próprio de revenda. O primeiro e mais claro é assumir o importante papel de tornar o mundo melhor, pois a venda de usados ajuda muito o planeta, dado que a fabricação de itens novos usa muitos recursos. Falar sobre isso e mostrar estas atitudes faz com que consumidores se sintam bem consumindo. Aliás, o peso do consumo, de ter armários lotados, carrega uma certa dose de culpa que vem sendo muito questionada nesta pandemia. Mais um ponto a favor da adoção de um processo que permita a conexão com consumidores que queiram limpar seus armários e ainda, receber benefícios em processos que envolvem a fidelidade com a própria marca. Por fim, a revenda ainda traz a possibilidade de consumidores que amam a marca acessarem itens com um orçamento menor e assim fechar este ciclo.

Camila Salek - Varejo sustentável
Foto: Divulgação

Hoje, vejo nitidamente uma grande evolução neste sentido em marcas do varejo de moda nacional. Neste momento, estou desenvolvendo 3 grandes projetos na Vimer com espaços dedicados para troca de roupas usadas por créditos e benefícios por exemplo. Vale ressaltar que muitos projetos que incluem varias formas de revenda despontam em marcas brasileiras, de olho na Gen Z que tem a maior aderência ao re-commerce. Hoje mesmo, a gigante Renner anunciou sua nova loja circular. É um recomeço. Que venha um varejo cada vez mais sustentável.

Camila Salek – Sócia-fundadora da Vimer Experience Merchandising integrante do grupo de empreendedoras de sucesso do programa “Winning Women Brasil” da Ernst Young e colunista da Harper’s Bazaar Brasil. Referência em varejo e visual merchandising, está por trás de evoluções significativas da experiência de consumo e do desenvolvimento do conhecimento da área, através da implementação de projetos inovadores e compartilhamento de conteúdos ministrados em aulas, palestras, treinamentos e publicações nacionais e internacionais voltadas para moda e tendência.