Foto: Divulgação

Por Camila Salek

Na última semana se encerrou o festival de inovação SXSW, em Austin, nos EUA. Eu estava lá explorando tudo ao vivo, em mais uma parceria incrível com a Harper’s Bazaar Brasil e acredito que muitos leitores puderam acompanhar os insights e as provocações que compartilhamos nas redes sociais. Hoje, já de volta ao Brasil, quero dar destaque para um dos assuntos mais comentados no SXSW neste ano e que vai impactar a geração de conteúdo: a Web 3.0.

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Por ser um termo muito novo para mim, ao fazer meu planejamento de conteúdo do evento, escolhi explorar palestras que discutiam este tema para conseguir construir melhor meus aprendizados e pensamentos sobre esta nova era da internet que esta por vir e tem como foco a relevância e o relacionamento com a comunidade. Trabalhando no varejo, gosto de prever cenários que me permitam agir de forma antecipada. Portanto, sem nenhuma pretensão técnica (até porque, como expliquei, é um assunto muito novo) vou traduzir de forma simples meu resumo sobre Web 3.0. Para começar, acho legal dar clareza das fases de internet que vivemos até hoje:

Web 1.0

Foi a era dos sites e dos e-mails, chamada de momento ponto.com, onde todos buscavam ter um endereço, uma representação online. Basicamente estamos falando do primeiro acesso (ainda sem compras) ao mundo virtual. Era sobre estar na internet e compartilhar informações.

Web 2.0

É a era que vivemos até agora, da internet como um espaço social e transacional. Social porque os arrobas “@” sociais passam a ter um peso muito grande e somos representados através de múltiplas plataformas. No inicio, foi sobre ter um account (o famoso @fulano) e hoje é sobre multi accounts, onde o usuário por trás da conta pode ter perfis e mensagens muito diferentes de acordo com a plataforma utilizada.

As grandes questões na Web 2.0 estão voltadas ao contrato que estabelecemos pelo seu uso. Muitas pessoas, por exemplo, têm duvidas sobre colocar ou não suas vidas em plataformas virtuais, enquanto marcas tentam explorar métricas de vendas e engajamento com seus seguidores. Aqui entra a internet transacional, que mede por cliques e compras o resultado de relações.

Web 3.0

A nova era chamada de Web 3.0 coloca a internet com papel cada vez mais fundamentado na relevância e no relacionamento. Quando falamos em relacionamento, abrimos uma rota essencialmente importante para construção desta evolução: empoderar geradores de conteúdo (content creators) dentro de suas comunidades. A Web 3.0 provoca a descentralização do poder da internet, que hoje pertence a poucos grandes impérios digitais.

Em uma das palestras sobre Web 3.0 que assisti durante o SXSW,  Swan Sit – que já foi chefe global de marketing digital em marcas como Nike, Revlon e Estée Lauder – falou sobre marcas que desenvolvem relações através das mídias sociais. Ela resgatou cases de sucesso do passado para mostrar que quando atuamos em um mercado sobrecarregado de conteúdo, a relevância precisa ser construída através de pessoas, que funcionam como porta-vozes da mensagem principal para suas comunidades e potencializadores de relacionamentos.

Tendo isso em mente, nada mais justo do que remunerar criadores de conteúdo de acordo com as relações que constroem suas comunidades e, neste contexto, a blockchain entra como base para a Web 3.0, uma vez que por meio dela podemos rastrear e garantir a propriedade do criador de determinado conteúdo digitalizado – arte, música, produtos etc.

A grande verdade é que, dentre outros objetivos, a Web 3.0 vem como uma resposta importante para a estafa criativa que ronda os geradores de conteúdo. A economia do criador historicamente se concentrou em plataformas que exigem um volume substancial de seguidores e uma quantidade enorme de tempo gasto, para criar um fluxo de receita. Independentemente da plataforma a regra sempre foi: curtir, comentar, compartilhar e assinar. Segundo as palestras que rolaram no SXSW, essa era de conteúdo está morta. Em outro painel, Wes Kao – especialista em conteúdo digital – defendeu que criativos devem se concentrar na qualidade e criar relacionamentos significativos com seus  “100 fãs verdadeiros”. Achei sensacional isso! Aliás, o que mais ouvi foram desabafos de geradores de conteúdo explicando que estão pivotando rotas de conteúdo para serem monetizados sem prejudicar a construção da relação com sua comunidade.

Aqui vão 5 insights que anotei para a reflexão de vocês:

  • Criamos novos formatos na era digital, porém mantivemos os padrões de produtividade da era industrial;
  • Ao buscar atender a massa criadores de nicho se perdem em seus propósitos;
  • Produzir com qualidade e boa conexão para 100 fãs já é suficiente;
  • Os criadores funcionam como verdadeiros curadores para suas comunidades;
  • Uma comunidade precisa poder falar sobre conscientização, empoderamento e construção de narrativas.

A promessa é que ninguém mais será obrigado a fazer a dancinha do momento ou gravar um vídeo copiando um viral para conseguir engajamento. A conversa será mais próxima e mais verdadeira, gerando conteúdo realmente relevante para a comunidade de seguidores.

Neste contexto, fica claro que marcas e plataformas sociais que se relacionam com muitas comunidades ao mesmo tempo não conseguirão fazer este trabalho sozinhas. Será cada vez mais necessário colaborar com geradores de conteúdo para fragmentar a conversa com as diversas comunidades. Metaverso, NFT e Web 3.0 estão entre as expressões mais comentadas no último ano justamente por terem uma proposta de mudança muito forte na maneira como a qual as marcas se relacionam com pessoas.

Realinhar continuamente nossa abordagem, seja como marca ou criativo, é extremamente importante para alcançar resultados neste contexto. Plataformas, mídias e tecnologias inovadoras surgem constantemente, questionando e evoluindo a maneira como nos relacionamos e contamos nossa narrativa. À medida que entendemos este movimento temos a chance de criar estratégias de marketing mais relevantes e com mais significado, usando as novas ferramentas à nossa disposição. Os criadores de conteúdo que realmente prestarem atenção a este movimento tendem a viver sua melhor fase. Sigo aprendendo!

@camilasalek – Sócia-fundadora da Vimer Experience Merchandising integrante do grupo de empreendedoras de sucesso do programa “Winning Women Brasil” da Ernst Young e colunista da Harper’s Bazaar Brasil. Referência em varejo e visual merchandising, está por trás de evoluções significativas da experiência de consumo e do desenvolvimento do conhecimento da área, através da implementação de projetos inovadores e compartilhamento de conteúdos ministrados em aulas, palestras, treinamentos e publicações nacionais e internacionais voltadas para moda e tendência.