Cauã Reymond usa look total Aramos – Foto: Lufrè, com direção criativa de Lucas Teixeira, styling de Thico Ferraz, beleza de Jake Falchi e tratamento de imagem da Telha Criativa

Por Gustavo Silva

Homem não chora? A construção de uma masculinidade viril, que passa pela supressão de sentimentos e demonstração de sensibilidades, não é uma questão pessoal para Cauã Reymond. “Eu chorei desde muito cedo, é uma história muito trágica”, conta o ator aos risos, com o bom humor de quem se reconhece e compreende um passado familiar digno de séries dramáticas.

Look total Aramis, colar e anel Bvlgari – Foto: Lufrè, com direção criativa de Lucas Teixeira, styling de Thico Ferraz, beleza de Jake Falchi e tratamento de imagem da Telha Criativa

No início do mês, a avó materna faleceu aos 100 anos. O capítulo desencadeou uma série de lembranças. “A perda dela me lembrou a perda da minha mãe, da minha tia, da minha tia adotada pela minha avó, e trouxe muitas situações que mexem comigo. Eu não tenho problema nenhum em falar das minhas sensibilidades. Eu fico mais fragilizado”.

Cauã Reymond usa tricô e calça, tudo Aramis, colar e anel Bvlgari – Foto: Lufrè, com direção criativa de Lucas Teixeira, styling de Thico Ferraz, beleza de Jake Falchi e tratamento de imagem da Telha Criativa

A tosse e o pigarro durante o bate-papo são algumas das manifestações físicas do momento de Cauã, que há quase um mês luta contra uma sinusite que o fez apelar para antibióticos, evitados com orgulho até então há mais de um ano e meio, quando fora contaminado pelo coronavírus. A medicação, além de auxiliar na recuperação da saúde, visa também coibir as tosses constantes que, em meio a um contexto onde a Covid-19 ainda não é uma memória distante, o deixam com certa vergonha ao lado de pessoas em lugares públicos – “Eu tô testado!”, ele se justifica à pessoa sentada ao seu lado no voo do Rio para São Paulo.

O universo masculino, tal como todo o tecido social de um mundo traumatizado por uma pandemia, passa por vibrações tectônicas. Desconstrução é a palavra-chave. E Cauã Reymond é tanto espectador quanto ator de mudanças. As referências vêm principalmente de um passado rico em mulheres fortes (a avó deficiente física que adotou contra a vontade da família a mãe, que sofria de desnutrição aguda à época do processo, foram responsáveis por grande parte da criação), e se conectam ao futuro de sua linhagem, na figura da filha Sofia Marques, de 9 anos, fruto do relacionamento com Grazi Massafera, a quem define como uma “grande vencedora”.

Tricô Aramis – Foto: Lufrè, com direção criativa de Lucas Teixeira, styling de Thico Ferraz, beleza de Jake Falchi e tratamento de imagem da Telha Criativa

Um causo (e Cauã é cheio deles para dar cores mais humanas e pessoais às suas declarações) ilustra bem a conexão entre as gerações. “A Sofia estuda em uma escola na Gávea, perto da Rocinha, e eu passo em frente ao prédio onde nasci toda vez que a levo e a busco da escola”. Abre-se um parêntesis: “Minha mãe, quando tinha três anos, caiu do quarto andar”. O detalhe é mencionado para a filha nas conversas, como forma de lembrar de um passado difícil. “No primeiro dia que ela entrou na escola… eu fiquei muito emocionado. Minha mãe estaria muito orgulhosa de ver a neta em uma escola boa. O sonho da minha mãe, antes de falecer (Denyse Reymond morreu de câncer em 2019), era adotar uma menina, e o carinho especial que ela tinha pela Sofia era como se ela pudesse cuidar dela mesma”.

Tricô Aramis – Foto: Lufrè, com direção criativa de Lucas Teixeira, styling de Thico Ferraz, beleza de Jake Falchi e tratamento de imagem da Telha Criativa

A forma carinhosa de projeção ressona também em Cauã, mas por outro ângulo. “Gosto de imaginar que minha filha vai se tornar uma pessoa com empatia, compaixão, que ela vai saber de onde ela veio e que muitas pessoas não têm o padrão de vida dela, mas que ela, sim, vai enfrentar muitos desafios… quando eu tô falando dela, eu tô falando de mim”, reflete o ator. “Quando eu falo da minha filha, eu falo de mim no sentido de que gosto de me imaginar uma pessoa que está constantemente aprendendo”.

Look total Christian Dior – Foto: Lufrè, com direção criativa de Lucas Teixeira, styling de Thico Ferraz, beleza de Jake Falchi e tratamento de imagem da Telha Criativa

O aprendizado vem em múltiplas parcelas. Uma delas será apresentada ao público no segundo semestre, na forma do filme “A Viagem de Pedro”, no qual Cauã interpreta o complexo imperador português responsável por declarar a independência do Brasil. O ator, que também atuou no longa como produtor – trabalho que vem ganhando cada vez mais espaço e força em sua carreira – teve a cineasta Laís Bodazsky (“Bicho de Sete Cabeças”, “Como Nossos Pais”) como a “capitã do barco”, sendo responsável inclusive pelo roteiro da produção. “Ela teve domínio criativo sobre o filme, e eu fui simplesmente um instrumento dessa visão, desse olhar feminino”, diz sobre a diretora, que “subverteu tudo aquilo que a gente conhece do D. Pedro” em um “filme de arte”. “Graças a Deus, a gente teve uma mulher olhando pra esse personagem que já foi retratado de várias formas – caricatas, divertidas, com (bom) humor, sem humor.”

Look total Balmain – Foto: Lufrè, com direção criativa de Lucas Teixeira, styling de Thico Ferraz, beleza de Jake Falchi e tratamento de imagem da Telha Criativa

Outro projeto, ainda em fase incipiente, chama a atenção pelo impacto que promete causar – em Cauã, o efeito já foi sentido. Trata-se de uma série sobre moda e comportamento, cujo piloto está em fase de aprovação e, “se Deus quiser, a gente vai filmar a temporada”. O ator, na pele de produtor, não entra em detalhes, mas dá pistas do que vai vir. “É um projeto que invade as comunidades do Brasil, com um apresentador preto. É algo que me faz aprender muito sobre coisas que eu já sabia que não sabia, mas não sabia que não sabia tanto.”

Jaqueta e calça Louis Vuitton – Foto: Lufrè, com direção criativa de Lucas Teixeira, styling de Thico Ferraz, beleza de Jake Falchi e tratamento de imagem da Telha Criativa

A sentença de sabedoria socrática permeia a vida e a obra de Cauã. A ignorância, enquanto ausência de conhecimento, é usada como motor de uma inquietude que o move rumo à evolução. Influenciar os outros ao longo do caminho é uma consequência bem-vinda, mas não uma meta. “Quando eu posto nas redes alguma coisa, eu gosto de pensar que estou convidando as pessoas a pensarem em uma forma mais saudável de levar a vida. Isso é influenciado diretamente pelas minhas perdas”, ele diz, com 12,5 milhões de seguidores.

Look total Aramis e colar Julio Okubo – Foto: Lufrè, com direção criativa de Lucas Teixeira, styling de Thico Ferraz, beleza de Jake Falchi e tratamento de imagem da Telha Criativa

A moda, primeira carreira de Cauã em paralelo a uma vida nas lutas marciais (faixa-preta em jiu-jitsu, ele é praticante até hoje), também não fica de fora do seu círculo de influências. É através dela que o ator exerce parte do seu lado empreendedor em uma parceria com a Aramis. Não bastasse o desenvolvimento de uma coleção-cápsula na qual trabalhou ativamente e onde pôde despejar referências cinematográficas – “Drive”, “Era uma vez em Hollywood” e “Top Gun”, visto 14 vezes na infância (!), são obras lembradas -, o projeto envolve o lado dos negócios, sendo a coroação de um contrato bem-sucedido de impulsionamento da marca.

Look total Aramis e colar Julio Okubo – Foto: Lufrè, com direção criativa de Lucas Teixeira, styling de Thico Ferraz, beleza de Jake Falchi e tratamento de imagem da Telha Criativa

Ator, modelo, produtor, designer (“já posso botar na descrição do Instagram!”, ele brinca), lutador, pai, marido (da também impactante Mariana Goldfarb)… Cauã Reymond é muitas coisas, mas não é limitado ou definido completamente por nenhuma delas. A percepção de sua masculinidade, de seu papel enquanto homem, é emblemática. “Rapaz, eu acho que não me vejo mais como homem. Me vejo como um ser humano, um indivíduo independente da minha sexualidade, do meu gênero, cor de pele”.

Camiseta, jaqueta e calça, tudo Aramis, colar e anel Bvlgari – Foto: Lufrè, com direção criativa de Lucas Teixeira, styling de Thico Ferraz, beleza de Jake Falchi e tratamento de imagem da Telha Criativa

O posicionamento é reflexo de uma filosofia bem pessoal: “Ter sido criado por muitas mulheres, em uma situação muito difícil que a minha família enfrentou, sempre me pergunto se eu estou fazendo mal a alguém. Eu me norteio pelo bom senso, buscar meu sonho, e tentar não atrapalhar ninguém ao longo da minha caminhada.”

Look total Aramis, colar e anel Bvlgari – Foto: Lufrè, com direção criativa de Lucas Teixeira, styling de Thico Ferraz, beleza de Jake Falchi e tratamento de imagem da Telha Criativa