Isaac Silva – Foto: Bruno Batista e Agência Fotosite/Divulgação

Na língua iorubá, axé significa energia, força. Todxs têm. Basta acreditar e seguir a intuição. Que o diga Isaac Silva. O conselho veio em um momento de insegurança profissional, depois de ouvir muitos “não” quando buscava uma chance em equipes de estilo de marcas famosas.

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E deu tão certo que a frase “Acredite no seu axé” virou uma espécie de mantra, atraindo a atenção mesmo de quem não tem afinidade com religiões afro-brasileiras. Antes da pandemia, conta, uma mãe judia comprou uma camiseta com essa estampa para o filho.

É nessa fluidez positiva que o estilista está interessado. Tal vivacidade tem incentivado doações para pessoas em situação de vulnerabilidade neste período de Covid-19. A corrente de solidariedade que rola no Instagram da marca incentiva donativos para compra de gás de cozinha e cestas básicas para imigrantes africanos e bolivianos. Isaac também está produzindo máscaras para moradores de rua.

Foto: Bruno Batista e Agência Fotosite/Divulgação

A preocupação com o outro fez com que, até o fechamento desta edição, mantivesse sua única loja fechada mesmo com a reabertura gradual do comércio em São Paulo. As vendas foram direcionadas para o e-commerce, canal que recebe este mês a coleção-cápsula desenvolvida sob medida para quem ainda está em casa. Com tecidos que havia no ateliê, ele fez itens com pegada comfy e alma glam.

“Tudo em animal print e estampa de pantera”, conta. Batizada de “Panterona”, a pequena coleção faz homenagem à atriz e ativista Eartha Kitt – uma das primeiras estrelas negras da TV norte-americana, que ficou famosa no papel de mulher-gato quando “Batman” ainda era uma série, nos anos 1960 – e traz como viés histórico e político o resgate do Panteras Negras. Movimento atuante na mesma década nos Estados Unidos, foi criado para combater a violência policial e colocar em prática projetos sociais para atender os mais carentes.

O que nos leva aos protestos recentes desencadeados com a morte de George Floyd e também dos casos de violência ocorridos em comunidades no Rio de Janeiro e em São Paulo. “Não queremos vingança, apenas reparação histórica”, afirma Issac, acrescentando que o ponto não é o policial em si, mas sua função. “Se ele não pode me proteger, o que vale a minha vida?” É esse tipo de questionamento, diz, que as manifestações ajudam a levantar e, com isso, resultar em mudanças.

Foto: Bruno Batista e Agência Fotosite/Divulgação

“Panterona” integra o rol de abordagens ligadas ao preconceito racial, valorização de raízes e sincretismo religioso que dão reforço cultural às coleções do estilista. Orixás e Dandara (guerreira e mulher de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares) estão entre as inspirações de seus desfiles, que aconteceram primeiro na Casa de Criadores.

Sua segunda participação no SPFW – a edição N.49 foi cancelada por causa do novo coronavírus – falaria sobre Xica da Silva, a escrava que passou por desafios até virar mito e teve sua história glamourizada ao ser transformada em filme e novela protagonizados por Zezé Motta e Taís Araujo, respectivamente. As duas atrizes, aliás, estariam na passarela. “Seria uma coleção com muita ostentação, por isso resolvi deixar para o próximo ano. Agora não há espaço”, reflete.

Apesar de ainda ser tímida dentro do cenário de uma moda nacional mais atenta a estéticas eurocêntricas, a moda engajada e rica em identidade como a de Isaac vem, aos poucos, conquistando espaço. Camila Pitanga, Gaby Amarantos, Djamila Ribeiro, Liniker, Elza Soares, além de Taís e Zezé.

Foto: Bruno Batista e Agência Fotosite/Divulgação

“Aprendi com Elza que precisamos plantar agora para colher no futuro. Quero viver muito, e coisas bonitas”, diz o estilista, que percorreu um longo caminho desde que saiu de Barreiras, no interior da Bahia, aos 14 anos, para morar em Salvador com a mãe, sonhando estudar moda. Em 2010, chegou a São Paulo.

Em seu radar estão, por exemplo, o desejo de utilizar apenas tecidos nacionais, transformar o lema “Acredite no seu axé” em uma ONG para ensinar a jovens carentes ofícios ligados à moda e ajudar com maquinários a Cooperativa de Bordadeiras e Produção Artesanal do Cerrado Goiano, mais conhecida como Bordana.

Isaac trabalhou com as artesãs em 2018 e pretende repetir a parceria na coleção inspirada em Xica da Silva, que será desfilada se a Covid-19 estiver controlada. “Depois disso tudo, acho que as pessoas vão querer viver, socializar. Nunca esperei uma terceira Guerra Mundial, mas acredito na transformação para um mundo mais homogêneo.”