Jaqueta Chanel chega aos 65 anos

Peça exala jovialidade em uma cartela colorida e apurado exercício de modelagem sob a batuta de Virginie Viard

by Silvana Holzmeister
A atriz Romy Schneider usa o tailleur Chanel no filme "Boccaccio ‘70", em 1962 - Foto: Divulgação

A atriz Romy Schneider usa o tailleur Chanel no filme “Boccaccio ‘70″, em 1962 – Foto: Divulgação

Karl Lagerfeld ressaltava que algumas coisas nunca estarão fora de moda. Sua lista destacava o jeans, a camiseta branca e a jaqueta da Chanel. A mais importante entre as assinaturas da maison francesa não perde a pose no combo com os dois primeiros itens, dupla imbatível do streetwear, e fica impecável em um look formal.

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A versatilidade vai além. Como um quadro branco, a peça cedeu a todos os caprichos do kaiser, que a cada estação oferecia um motivo novo para as fãs aumentarem a coleção. Pupila de Karl, Virginie Viard não poupou esforços nesse exercício para sua estreia em um Grand Palais transformado em estação de trem. Para a cruise 2020, ela deu cara utilitária e visual descontraído à jaqueta, acrescentando vários bolsos e muita cor, bem no espírito relax de uma viagem de férias.

Chanel Cruise 2020 - Foto: Getty Images

Chanel Cruise 2020 – Foto: Getty Images

O update não para por aqui. Ainda inclui versões com ou sem gola, ombros macios e arredondados ou nervosos e quadrados, comprimento curto ou longo, modelagem lembrando uma blusa ou uma perfecto, para ser usada com cinto de couro entrelaçado por uma corrente ou aberta. Tudo isso vem combinado a saias com bolsos remendados, bermudas ou leggings.

Não há dúvida. Apesar de ter assumido o posto de diretora criativa há pouco tempo e carregar a missão de substituir duas lendas, Karl e Coco Chanel, Virginie não decepcionou. Acrescentou um perfume feminino contemporâneo e fresh a uma das mais importantes peças do contexto histórico da maison. Quando retornou do exílio na Suíça, na década de 1950, Coco tinha 71 anos e decidiu que era hora de provocar uma revolução no guarda-roupa feminino.

Chanel, cruise 2020 - Foto: Now Fashion

Chanel, cruise 2020 – Foto: Now Fashion

Para isso, evocou seu grande sucesso, o confortável conjunto de saia e casaco fluidos de 1917 e o tweed levinho dos anos 1920 para criar o tailleur com jaqueta reta e sem ombreiras ou entretelas para ser usada com saia abaixo da linha do joelho e sapato bicolor. Um visual sofisticado e casual que, em pouco tempo, ganhou o closet de várias celebridades, de Jacqueline Kennedy à atriz Romy Schneider, que usou um modelo azul em “Boccacio ’70″.

O destaque do traje era, sem dúvida, a jaqueta que agora faz 65 anos e foi inspirada em um modelo masculino usado na Áustria. Passado e presente se encontram no indiscutível conforto proporcionado pela alfaiataria afiada. Até hoje, as mangas, por exemplo, adequam-se à morfologia dos braços. A peça também deve abraçar perfeitamente os ombros e em hipótese alguma inibir os movimentos, o que ela conseguiu com um estratégico pedacinho de tecido.

Chanel, cruise 2020 - Foto: Now Fashion

Chanel, cruise 2020 – Foto: Now Fashion

Era a resposta definitiva de Coco ao visual em voga, que ela tachava de restritivo e pouco prático para o dia a dia. Afinal, mademoiselle acreditava que não há moda se ela não desce à rua. “Eu realmente me importo com as mulheres e queria vesti-las com ternos que as deixassem à vontade e ainda enfatizassem a feminilidade. A elegância da roupa vem com a liberdade de se mexer”, sentenciava ela.

Não importava se a peça em questão exigisse um paciente trabalho manual, materiais refinados e detalhes preciosos. Perfeição também fazia parte do seu mantra. Quando Karl Lagerfeld assumiu a maison, em 1983, a jaqueta passou a ser reinterpretada continuamente, com irreverência e humor, sempre em sintonia com o air du temps.

Em plena era dos excessos, o primeiro choque veio quando ele ousou combiná-la com calça jeans e top esportivo listrado. Era só o começo. Na sequência, vieram looks com bermuda, maiô, minissaia e até vestido de noiva. Ele ainda se aventurou pintando a peça em todas as cores extravagantes. Sem dar trégua aos ateliês da Rue Cambon, trabalhou proporções brincando com comprimento e volume.

Chanel, cruise 2020 - Foto: Now Fashion

Chanel, cruise 2020 – Foto: Now Fashion

O tweed não ficou atrás: ganhou paetês, contas e plumas, além de novas composições, incluindo materiais que iam do tule ao couro. E graças ao savoir-faire e à inovação do projeto Métiers d’Art, incorporou até mesmo botões que mais parecem joias.

Em 2012, a peça icônica foi homenageda no livro “The Little Black Jacket: Chanel’s Classic Revisited”, com fotos de Karl e styling de Carine Roitfeld, que também virou exposição. Na coleção cruise 2020, a jaqueta ganhou até uma versão cropped. Virginie recebeu a missão de manter viva a alma revolucionária da jaqueta Chanel e tudo indica que não vai deixar cair o bastão.

Preciosismo máximo

A modelo Marie-Helene Arnaud posa em 1958, usando o conjunto de jaqueta e saia criado por Coco Chanel - Foto: Divulgação

A modelo Marie-Helene Arnaud posa em 1958, usando o conjunto de jaqueta e saia criado por Coco Chanel – Foto: Divulgação

Na alta-costura, a jaqueta exige 130 horas de trabalho manual e cerca de 30 medidas da cliente. Dividida em 18 partes, é construída em um manequim de ateliê e, durante todo o processo de confecção, são analisados caimento, harmonia e flexibilidade. São duas provas onde quer que a cliente esteja. Somente então é colocado o forro, que é tão imponente quanto o tweed externo, a corrente, a etiqueta e o número de série, como em uma obra de arte. “Elegância é estar bonita tanto por dentro quanto por fora”, decretava Coco Chanel. Além de todo esse cuidado, um certificado de autenticidade acompanha a peça.

Radiografia de uma jaqueta

Jaqueta pink da coleção cruise 2020 da Chanel - Foto: Divulgação

Jaqueta pink da coleção cruise 2020 da Chanel – Foto: Divulgação

O savoirfaire do ateliê tailleur, na rue Cambon, é responsável por seguir à risca a fórmula da jaqueta criada por Coco Chanel. A frente é montada ao longo da linha reta para aumentar a elasticidade sem perder sua forma. O mesmo princípio é aplicado à parte de trás, que traz apenas costura no meio das costas. A manga é colocada no alto do ombro, para otimizar o conforto. O forro responde aos mesmos requisitos. “O interior deve coincidir com o exterior”, defendia ela.

Os dois tecidos, costurados de maneira quase invisível, se movem juntos, sem restringir o movimento. Para garantir um caimento perfeito, uma fina corrente de metal é costurada no forro, na bainha da jaqueta, uma verdadeira revolução. O acabamento em galões tom sobre tom ou contrastantes realça os contornos da jaqueta, as bordas dos bolsos, os punhos das mangas e adiciona uma força gráfica. Já os botões, sempre com casas, são como joias, em resina ou em metal, decorados sempre com um motivo, que pode ser um duplo C, cabeça de leão, camélia ou outro elemento em sintonia com a coleção.