Foto: Divulgação

Quando as modelos vestidas com a coleção “Body Meets Dress, Dress Meets Body” pisaram na passarela com looks que deformavam a silhueta, imaginados pela instigante Rei Kawakubo para o verão 1997 da Comme des Garçons, a discussão sobre padrões de beleza, que rolava entre estudiosos, encarou o glamour de um desfile e aqueceu a discussão sobre a ditadura de regras sobre corpos, que, na época, eram magérrimos.

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De lá para cá, esse pensamento evoluiu espelhado na vida real, ganhou as mídias sociais e encontrou a bandeira do moderno feminismo, mas continua, até hoje, tímido na moda. Unindo esse cenário à experiência pessoal, a estilista Karoline Vitto chegou ao propósito de seu trabalho: discutir formas. “A pressão estética é algo que a maioria das mulheres, se não todas, ainda sofre”, diz ela.

Esse posicionamento tem dado destaque ao talento da brasileira, que estava prestes a inaugurar o primeiro ateliê quando teve de parar tudo por causa da pandemia do coronavírus no Reino Unido. Impedida de sair de casa, em Londres, transformou o ócio em processo criativo.

Lingerie

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O resultado imediato é a coleção de lingerie “The Ladies Pond”, em referência ao lago de mesmo nome, exclusivo para mulheres, que Karoline costuma frequentar com as amigas. “Há uma atmosfera comunitária lá, parece que todas são próximas apesar de não se conhecerem”, descreve. Cenário que compara ao atual. “Mesmo com a distância, podemos nos conectar.” E já projeta: “Quando tudo isso acabar, quero nadar e fazer piquenique com as minhas amigas”, diz ela, dando voz ao desejo coletivo de usufruir em breve de locais abertos.

A quarentena também fez com que o desenvolvimento da coleção, que tem lançamento previsto para este mês, ganhasse ênfase digital. O recurso tecnológico, único a seu alcance, deu tão certo que substituiu a peça-piloto e Karoline cogita incorporá-lo à rotina quando tudo voltar ao normal para otimizar processos no ateliê.

Apostando em sobreposições e desconstruções, a designer quer chegar a peças com apelo jovem e contemporâneo, usando recursos como elásticos esportivos deslocados de seu contexto original e os mesmos metais em formatos orgânicos, que já fazem parte de sua estética. A ideia é tirar sutiãs, tops e calcinhas do lugar comum.

Novos formatos

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A estilista diz que o isolamento também a levou a repensar formatos clássicos, como a necessidade de desfilar – seu primeiro show, marcado também para junho, deverá ser substituído por outra estratégia.

Catarinense da pequena cidade de Caçador, ela conta que os exercícios iniciais sobre o tema começaram no mestrado em Moda no Royal College of Art – a graduação foi na Central Saint Martins –, a partir da constatação de que se sentia mais confortável com sua imagem na capital inglesa.

“Aqui não existe a cultura do corpo, como temos no Brasil. As pessoas estão mais preocupadas em experiências do que na aparência”, afirma. “Comecei tirando fotos usando uma cinta modeladora para cintura que havia comprado há alguns anos e, claro, a gordura saltava em cima e abaixo dela”, conta, acrescentando que passou a se interessar por esses volumes.

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Nesse experimento, Karoline também utilizou fita adesiva e isolante, plástico-filme e roupas antigas com numeração bem abaixo de seu atual manequim, que oscila entre 44 e 46, para ressignificar sua silhueta. Registrado em fotos artísticas, em que ela, quase sempre, é a modelo, o passo-a-passo do experimento pode ser visto na sua conta no Instagram. “Esse processo também me incentivou a confeccionar roupas no meu tamanho. Foi libertador”, recorda-se.

Os primeiros resultados concretos foram a coleção de formatura, “The Body as Material”, que lhe deu visibilidade em revistas e sites de moda internacionais. “Vi que havia um processo social e cultural naquilo”, explica.

Inclusão

Olhando mais à frente, a brasileira projeta continuar suas pesquisas com foco em inclusão e chegar a três ou quatro modelagens para cada manequim, permitindo que a roupa se adapte mais facilmente a silhuetas diferentes. “Ainda não sei como resolver isso, mas é meu desejo.”

São duas suas vertentes: as imagens artísticas que recheiam o Instagram da marca que leva seu nome – e inspiram um relacionamento de troca de vivências com outras mulheres – e as roupas em si, que ela espera dar gás pós-pandemia.