O som ao redor: Sarah Morris transforma falas em arte

Em meio à discussão sobre vazamentos jornalísticos, a artista expõe no Brasil obras criadas a partir de áudios

by redação bazaar
A artista Sarah Morris - Foto: Divulgação

A artista Sarah Morris – Foto: Divulgação

Por Marilia Neustein

Nos corredores da polícia federal e do Ministério Público brasileiros ninguém imaginaria que o famoso áudio vazado entre Romero Jucá e Sérgio Machado – no meio do processo do impeachment de Dilma Rousseff – acabaria em uma obra da artista americana Sarah Morris.

A obra faz parte da série Sound Graph, que integra a individual da artista, em cartaz na Carpintaria, no Rio, até 19 de outubro. O fascínio de Sarah por áudios é antigo, assim como o desejo de transformar algumas falas de filmes em pinturas. “Toda arte é sobre linguagem”, afirma, em entrevista à Bazaar Art.“Acredito que a expressão artística é uma forma de conversa e sempre quis usar esses diálogos como um ponto de partida para o meu trabalho de pintura.Áudios são muito interessantes, porque, quando você lê algo, pode até presumir como a pessoa falou aquilo, com o som não tem como esconder. É a palavra, a entonação. É tudo.”

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Para a produção dos trabalhos – nos quais transformou o som em pinturas geométricas, uma forte característica de sua obra –, a artista procurou diferentes formas de captação feitas por programas de computação, a fim de imaginar como esses sons seriam visualizados. Sarah chamou atenção para um caráter político dos áudios, lembrando que Richard Nixon, ex-presidente americano, costumava gravar seus pensamentos e conversas. Estes, ao final, geraram consequências em sua carreira, o que não é incomum. O diálogo emblemático entre Jucá e Sérgio Machado chegou aos ouvidos de Sarah por meio de alguns assistentes brasileiros que trabalham com ela em NovaYork. Na época, discutindo com eles sobre o tema da exposição, resolveu incluir a conversa vazada no processo. Esse não é o único áudio brasileiro na série. Ela também se debruçou sobre um famoso ensaio de Lina Bo Bardi sobre os mu- seus e destacou algumas frases da arquiteta para explorá-las artisticamente.

Ela, no entanto, não acredita que falta representação feminina no mundo artístico. “Existem muitas galeristas, curadoras, consultoras de arte, artistas”, discorre.“Sempre me vi como parte de um país progressista, evoluindo nesse sentido”, afirma, ressaltando que sua geração foi toda inspirada em grandes artistas americanas, como Cindy Sherman, Barbara Kruger, entre outras.“Eram mulheres de sucesso, com uma forte voz artística e que trabalhavam arduamente sobre o significado da arte”, diz. Mas admite que, ao crescerem em suas carreiras e ganharem notoriedade, artistas mulheres percebem a diferença na valorização de suas obras em relação à produção dos ho- mens. “São poucas as mulheres com individuais em museus importantes, e as obras não são precificadas corretamente – o que mostra que ainda há muito o que mudar sobre o papel da mulher nas artes em relação ao mercado.”

À parte da questão mercadológica, ela prefere enfrentar o problema exigindo uma sociedade mais igualitária e lutando contra mulheres serem subjugadas em qualquer meio. Filha de uma enfermeira que chegou a ser assediada no trabalho e denunciou seu superior, acredita ser importante escancarar qual- quer forma de violência ou humilhação sofrida por mulheres, sem medo. “Tive sorte de nunca passar por uma situação como as que foram denunciadas pelo movimento #metoo. Entretanto, acredito que a luta seja algo maior.Ter coragem é algo intrínseco à condição da mulher”, conclui.

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