João Maraschin usa o tecido beleaf – Foto: Divulgação

Era a saída de um importante desfile da semana de moda de Nova York quando Samantha, personagem de Kim Catrall, foi confrontada por ativistas porque estava usando um casaco de pele. A cena é do filme “Sex and the City”, de 2008. De lá para cá, muitas marcas e clientes deixaram de usar peles verdadeiras, mas, mesmo a fake, apontada como solução, já ganhou status de vilã, porque está vinculada ao plástico.

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Comumente usado em roupas e acessórios, o couro de vaca também tem lá seus problemas. Ainda que seja subproduto da indústria alimentícia e novas práticas apontem para o bioleather, curtido e tingido com substâncias vegetais, ele está dentro das discussões sobre o impacto ambiental da agropecuária no mundo e, claro, o sofrimento dos animais. No meio de tanta polêmica, uma solução apaziguadora vinda das plantas vem sendo semeada.

Na ponta desse movimento verde está o micélio, a parte vegetativa do fungo – pense que os cogumelos são os frutos e o micélio é a parte da raiz, um emaranhado de linhas brancas que entram em contato com as superfícies onde o fungo cresce. Originalmente estudado em pesquisas espaciais, na arte e arquitetura (tem fama de aguentar mais pressão do que o concreto e ainda é isolante e resistente ao fogo), ele chamou a atenção na moda.

Apresentação do Reishi – Foto: Divulgação

“Suas qualidades podem ser ajustadas para atender a vários critérios estéticos e de design: aumentando a durabilidade de uma bolsa, a flexibilidade de um tênis ou até mesmo abrindo caminho para produtos totalmente novos”, informa a startup MycoWorks, que assina o novíssimo Reishi.

Lançado durante a temporada inverno 2020 da semana de moda de Nova York, em fevereiro, o Reishi tem aparência e até cheiro de couro. O cultivo é feito em bandejas de biomassa vegetal, permitindo que as células de micélio cresçam em uma estrutura densa e entrelaçada. Essa lâmina forte e uniforme é então curtida sem cromo, pode receber os mais variados acabamentos e é totalmente biodegradável.

Um dos designers convidados para testar o bioproduto é a francesa Béatrice Amblard, ex-artesã da Hermès e hoje no comando da marca April in Paris. Sophia Wang, co-fundadora da MycoWorks, conta à Bazaar que há marcas de luxo testando o produto. “Mas não podemos divulgar os nomes dos nossos parceiros antes dos lançamentos oficiais”, explica.

Um aspecto divertido e, ao mesmo tempo, genial do “couro” de micélio é que ele pode ser induzido a crescer em formatos específicos, reduzindo desperdícios. É essa ideia que move uma possível reprodução no espaço – utilizando o suor dos astronautas como água – da bota Caskia, desenvolvida pela designer Liz Ciokajlo a pedido do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa), há pouco mais de um ano. O acessório foi criado a partir da Moon Boot, modelo de 1972 da bota de neve acolchoada inspirada nos calçados usados pelos astronautas da missão Apollo e ícone da chamada “era do plástico”.

A bolsa Fallabela – Foto: Divulgação

Outra startup, a californiana BoltThreads, saiu na frente em 2018 com o Mylo, em parceria com a Ecovative, empresa nova-iorquina especializada na fabricação de materiais com micélio, e chamou a atenção da estilista Stella McCartney, o nome mais expressivo quando o assunto é moda sustentável. Com ele foi desenvolvido o protótipo da famosa bolsa Falabella, para integrar, no ano passado, o acervo da exposição Fashioned from Nature, no Victoria & Albert Museum, em Londres – junto com um vestido feito com o fio Microsilk, material biológico que imita a seda verdadeira feita por aranhas.

João Maraschin usa o tecido beleaf – Foto: Divulgação

Do lado de cá do Atlântico, brasileiros também estão na corrida em busca de alternativas ao couro tradicional. É o caso do Beleaf, que vem de uma folha comum em jardins tropicais, a orelha-de-elefante (o nome científico é Colocasia gigantea). Na pesquisa conduzida pela carioca Nova Kaeru, cada folha passa por um processo de curtimento orgânico, sem uso de metais pesados, e ganha aspecto de couro. A planta é cultivada em solo enriquecido pelo reuso dos efluentes dos processos de curtimento e tingimento do couro do pirarucu, também desenvolvido pela empresa. Daniel Abruzzini, gerente de produto, conta que o biomaterial foi premiado em Hong Kong, no ano passado, como Melhor Tecido Natural pela feira APLF Leather & Materials.

João Maraschin usa o tecido beleaf – Foto: Divulgação

O Beleaf estreou na última semana de moda de Londres na coleção de João Maraschin, na apresentação do desfile coletivo do London College of Fashion. Ex-assistente de Ronaldo Fraga, o estilista gaúcho criou roupas e bolsas, além de sapatos, em parceria com a shoe designer Tabitha Ringwood. Depois da passarela, as peças foram para dois showrooms, o 50mLondon e o Positive Fashion. “A Harvey Nichols (loja de departamentos britânica) se interessou pelos acessórios, mas queremos aprofundar os testes antes de colocar as peças, de fato, no mercado”, conta João.

Guardando segredo, Daniel acrescenta que a empresa também está negociando o Beleaf com uma marca de luxo europeia. “No Brasil, o lançamento será por meio da Osklen“, antecipa. Fotos dos experimentos conduzidos em bolsas pelo Instituto-e já apareceram no Instagram do estilista Oskar Metsavaht, mas ainda não há data para o acessório chegar às lojas.

Sucesso entre novos hábitos considerados saudáveis, o kombucha é a base do Texticel desenvolvido pela também carioca Biotecam. A startup não é a primeira a investir no “couro” vindo da bebida fermentada – na Iowa State University, nos Estados Unidos, por exemplo, foram desenvolvidos protótipos de roupas e sapatos – mas conseguiu eliminar o odor que lembra vinagre, um dos entraves para a comercialização do material. Engenheiro químico e um dos sócios da empresa, Ricardo Amaral Remer diz que já havia trabalhado com o biotecido em textura fina para aplicação medicinal. “Conseguimos uma versão mais resistente para a moda”, explica.

O material foi desfilado pela grife Movin, no Brasil Eco Fashion Week, e apresentado no salão de design e inovação Inspiramais, ambos em São Paulo. Ricardo diz que conseguiu, ainda, acrescentar uma vasta gama de cores vindas de pigmentos naturais. Assim como o Beleaf, o Texticel precisa ser dublado para adquirir maior resistência. “Agora que resolvemos problemas técnicos, estamos passando para a produção em maior escala, para atender pedidos”, diz ele, acrescentando que corre em paralelo outra pesquisa, com a proteína da aranha. “Mas, em vez do fio, queremos chegar ao tecido”, acrescenta.

Nesse caminho de inovação que dá o toque de novidade à moda no século 21, tecnologia e técnicas sustentáveis andam juntas, mesmo que as ofertas para o consumidor final sejam bem tímidas. Ainda assim, as pesquisas apontam para um futuro promissor. Fora de moda é não se preocupar com o futuro do planeta.