Maria-Casadevall-Atriz
Foto: Caroline Curti

A atriz Maria Casadevall, protagonista de uma das séries brasileiras de mais sucesso na Netflix “Coisa Mais Linda”, já fez novelas como “Amor a Vida” e “I Love Paraisópolis”, além de outras produções como “Os Dias Eram Assim” e “Ilha de Ferro”. Ela conta com exclusividade à Bazaar sobre como se descobriu como atriz, sua relação com um mundo sustentável e projetos futuros.

Em que momento você descobriu que seria atriz?

Fui uma criança e ainda hoje sou uma adulta bastante introspectiva, porém sempre me senti provocada a criar no mundo a partir das minhas vivências mais profundas e subjetivas, a traduzir de alguma forma meu desconforto e minha sensação pessoal de não pertencimento. A primeira ferramenta que encontrei para isso foi a escrita, mas me lembro de ter estudado teatro na escola e de aos oito anos de idade organizar com outras garotas da minha idade um grupo de apresentações no condomínio em que morava. Embora tenha passado um bom tempo distante dessas primeiras experiências, permaneci movida intuitivamente pelo desejo de criar e dar voz a mim e a outras existências possíveis através do meu corpo me transformando aos poucos numa observadora atenta do comportamento humano, portanto não reconheço um momento em que descobri mas sim o processo a partir do qual fui me tornando o que sou hoje.

Sentiu alguma diferença entre fazer uma série e uma novela? Você esperava todo esse sucesso e retorno positivo do público com a série “Coisa Mais Linda”?

Com certeza, diferenças como roteiro mais enxuto devido ao número menor de episódios, tempo de envolvimento mais curto com o projeto, o fato de não estar no ar e no set ao mesmo tempo e linguagem geralmente mais distanciada da linguagem melodramática presente nas telenovelas, são algumas das diferenças, por exemplo. Sobre o retorno positivo, arrisco dizer que sim, eu esperava um retorno positivo do público, pois acreditava muito no que estávamos construindo, mas confesso que foi uma surpresa a forma afetiva como as pessoas se envolveram com a série e as personagens criadas por nós.

Quando a questão da sustentabilidade começou a entrar na sua vida e quais hábitos você tem no seu dia a dia que causam menos impacto ao meio ambiente?

A sustentabilidade não deveria ser uma questão de preocupação individual apenas, mas de reflexão coletiva sobre como podemos criar alternativas a um sistema que desde seu surgimento cumpre a lógica da apropriação, da exploração e do abandono respectivamente, tanto do meio ambiente quanto dos corpos, humanos e não humanos. Porém, também é válido pensarmos em medidas de caráter pessoal  como o compromisso de consumir cada vez menos, pensar na reutilização, ressignificação e reciclagem do nosso vestuário, consumir de pequenos produtores locais que não estejam associados às práticas do “fast fashion” (que, muitas vezes, violam direitos trabalhistas para produzir em larga escala), não consumir da indústria que produz alimentos industrializados, proteína animal, transgênicos e alimentos com alta quantidade de agrotóxicos que prejudicam os solos, a diversidade ambiental, praticam a exploração animal, condenam à falência os pequenos produtores rurais e degradam a saúde do nosso corpo. 

Como artista, você sente que tem uma responsabilidade com a sustentabilidade, até para dar exemplo às pessoas?

Sinto todos os dias a auto responsabilidade de repensar minha existência sobre essa Terra, de buscar caminhos coletivos que parem de causar dor a este corpo vivo que é minha casa.

Maria-Casadevall-Atriz
Foto: Carol Curti

Você acredita que com tudo o que está acontecendo no mundo atualmente, certas mudanças de hábitos podem causar menos impacto no futuro?

Acredito que sim, porém é importante que falemos sobre uma mudança não só de hábitos, mas de mentalidade. Não é possível que falemos sobre poluição das águas, queimadas nas florestas e aquecimento global sem tocar na questão do sistema capitalista em que estamos inseridos enquanto sociedade e sua lógica perversa de exploração e produção, de coisificação dos seres humanos e do meio ambiente pois as maiores responsáveis pelo esgotamento desta Terra são as grandes corporações agropecuárias e monocultoras que queimam as matas para produzir pasto e criar gado para fins de exportação de grãos e carne bovina, são as grandes mineradoras que perfuram os solos atrás de minério explorando trabalhadores e trabalhadoras e expropriando povos e animais de suas terras, são as barragens de resíduos construídas em nome do lucro e que quando rompem matam pessoas e animais arruinando um ecossistema complexo e natural. O que quero dizer é que é preciso que nos organizemos social e politicamente para se falar em outro mundo possível e em mudança de hábitos e mentalidades, é preciso que denunciemos o que está causando o problema, que reconheçamos que esta forma de vida, de economia, de sociedade e de produção ocidental/branca/capitalista está matando o planeta, não adianta só não comer carne e demorar menos no banho, ou seja, é menos sobre sua conduta pessoal e mais sobre movimentos criados de forma coletiva, politizada, consciente e organizada.

Quais são os seus próximos projetos?

Está para estrear um filme que fiz um pouco antes da pandemia começar, mais uma parceria entre mim e o diretor Luis Pinheiro que dirigiu as duas temporadas da série que protagonizei “LILI, A EX” e isso por enquanto é o que posso contar.