Foto: Divulgação

Com tanta informação disponível é natural que as mentes, mesmo as mais brilhantes, estejam dispersas. Um estudo da Universidade de Harvard aponta que as pessoas ficam 47% do tempo em estado de total distração. É como se o ser humano passasse metade da vida olhando apenas para o passado e para o futuro, sem nenhum foco no presente.

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Isso impacta diretamente na saúde mental, já que causa sintomas como ansiedade, estresse e fuga da realidade. E se o problema era exclusivamente dos adultos, a pandemia do coronavírus comprovou que as crianças e os adolescentes também são suscetíveis.

Nos últimos anos, uma nova modalidade de bem-estar conquistou espaço entre os habitués da meditação. Conhecida como “mindfulness“, a atividade resume-se à “atenção plena“, ou seja, a prática de se estar no momento presente da maneira mais consciente possível. A meditação está associada principalmente a uma melhor capacidade de regulação emocional, mais foco e atenção na realização das atividades e melhora nas habilidades da empatia e da compaixão.

Tudo isso, para as crianças, acaba trazendo benefícios como melhora no aprendizado, mais calma, relacionamentos interpessoais positivos e maior capacidade de se colocar no lugar do outro.

“Descobertas da Neurociência demonstram que a meditação mindfulness consegue moldar nosso cérebro, assim, quanto mais praticamos, mais reforçamos a área do cérebro que regula nossas emoções e ajuda na hora de planejar e de solucionar problemas”, explica Daniela Degani, especialista em meditação mindfulness para crianças e adolescentes, certificada pelo Mindfulness Training Institute da Inglaterra, e idealizadora da MindKids.

Nesse contexto, Daniela reforça a necessidade de adotar o mindfulness especialmente por educadores, profissionais da saúde, mães e pais. Recentemente, ela coordenou um fórum sobre o tema, que contou com a participação da norte-americana Alison Cohen, professora de meditação, educadora ativista e mentora da técnica para diversas faixas etárias.

Alison revela que na adolescência ela se sentia desesperada por orientação sobre como navegar com sabedoria e compaixão por sua paisagem interna, para não dizer pelo mundo! Depois de seu primeiro retiro para jovens, ela percebeu que a prática contemplativa era o que tanto desejava e nunca imaginou que um dia estaria ensinando sobre isso.

Depois de anos como professora do ensino médio e diretora do programa de mindfulness em escolas, ela agora passa seu tempo treinando educadores e ensinando práticas de mindfulness para seres humanos vindos de muitas esferas de vida, inclusive adolescentes. A seguir, Daniela falou com a turma da Bazaar Kids com exclusividade.

Em tempos de pandemia, como está a saúde mental dos kids?

As crianças maiores, os adolescentes, já têm uma certa autonomia para interagir virtualmente com os colegas, seja pelo Zoom, Whatsapp, jogos eletrônicos. Mas os pequenos, toda aquela brincadeira que acontecia presencialmente envolvendo a interação com outras crianças está impossibilitada de acontecer dentro de casa.

Esse é um cenário bastante desafiador para uma criança enfrentar. Quando olhamos para os quatro gatilhos do estresse – a novidade, o imprevisível, a falta de controle e a ameaça –, podemos perceber que as crianças estão enfrentando todos eles ao mesmo tempo, então é natural que elas se sintam ameaçadas e é bem possível que grande parte delas, em muitos momentos, estejam com um grau de estresse elevado.

Qual é a técnica adotada para o mindfulness em crianças?

A prática de meditação é um hábito que deve ser inserido aos poucos, sem pressão ou obrigatoriedade. No caso das crianças, é importante que seja um momento gostoso, não forçado, para que elas queiram repetir a experiência. Crianças bem pequenas já podem fazer atividades simples e lúdicas, que respeitem o seu próprio tempo de concentração.

Utilizamos historinhas, personagens lúdicos, bichos de pelúcia e materiais que despertam os sentidos e trazem a atenção para o momento. É importante que a prática seja quase como uma brincadeira de prestar atenção e, à medida que as crianças crescem, quando começam a ter capacidade de entender e absorver o que está sendo proposto, elas vão se aprofundando. Pais podem encontrar atividades no e-book gratuito.

Que conselhos você pode dar para os pais que estão quarentenados com os filhos?

Muitas vezes nós temos a necessidade de mudar as coisas, querer que uma situação difícil acabe logo e quando é algo que nos foge docontrole, isso só adiciona camadas de sofrimento. Acho que todos nós precisamos estar conscientes da situação como ela é, e estar atentos aos padrões de pensamentos que talvez só adicionem sofrimento. Acredito que um dos melhores conselhos nesse momento é olhar para o que está presente, e não para o que nos falta, ser grato pelo que temos.

Outro conselho é aproveitar esse momento para praticar a amorosidade e o acolhimento, com nós mesmos e com os filhos e, quem sabe, aproveitar esse tempinho que deixamos de perder no trânsito para começar uma prática de aquietar, mesmo que por cinco minutos, isso já vai ajudar a relaxar, a oferecer mais bem-estar, e, consequentemente, vai favorecer as relações familiares.