Foto: Fernanda Fehring

Por Fernanda Fehring

Sou apaixonada pelo grupo hoteleiro Explora. Aliás, eu e uma legião de viajantes que já tivemos o prazer de visitar um de seus hotéis espalhados por alguns dos lugares mais fascinantes do planeta. Mas a localização remota e a beleza do cenário que cada hotel ocupa são apenas algumas das razões que me fazem gostar tanto do grupo. É seu conceito, que alia simplicidade, conservação do meio ambiente e conexão profunda do visitante com a natureza, que me toca fundo na alma.

Foto: Acervo pessoal/Fernanda Fehring

O grupo Explora nasceu após uma viagem que seu fundador, Pedro Ibañez, fez na década de 1970 para o extremo sul do Chile, seu país natal. Junto a um grupo de amigos, levou uma semana viajando de barco e por estradas precárias até Punta Arenas, um dos pontos mais austrais do continente. A alegria em chegar a um lugar tão remoto, de beleza magnífica e quase inacessível, o fez ter a ideia de criar uma empresa que oferecesse exatamente o tipo de aventura que acabara de experimentar – viagens como experiências transformadoras para os destinos mais isolados da América do Sul.

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Em 1993, o primeiro hotel Explora abriu suas portas no Parque Nacional Torres del Paine e apresentou ao mundo o conceito inovador de “luxo do essencial” – que nas palavras de Ibañez significa: “ter apenas as coisas que foram exigidas pela necessidade de viver na distância, em um clima adverso ou em condições exigentes. Abundante água, uma boa cama, comida leve e interiores simples”.

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O grupo trouxe também o compromisso com a conservação da natureza dos locais que explora e é, portanto, categorizado como uma empresa de conservação. Além de manter um impacto mínimo no entorno de seus lodges, cuida de hectares e hectares de terra na Patagônia e na região do deserto e altiplano no Chile por meio de suas Reservas de Conservação Explora.

Foto: Fernanda Fehring

Junte-se a isso a expertise em conduzir as explorações mais sensacionais que cada território oferece (com guias altamente qualificados) e uma imersão profunda na natureza de cada destino, e temos uma fórmula vencedora. Quase três décadas depois, o grupo já tem sete hotéis em países como Chile, Argentina, Peru, Bolívia e Ilha de Páscoa – e planeja mais um punhado de aberturas para os próximos anos.

Patagonia Argentina e El Chaltén

Tamanha história de sucesso só poderia ter começado na Patagônia, uma região geográfica de beleza espetacular localizada na parte mais austral da América do Sul – e um lugar que arrebata o coração de 10 entre 10 viajantes que passam por lá.

Foto: Fernanda Fehring

Seu território ocupa uma área de 1 milhão de quilômetros quadrados e se divide entre Argentina e Chile, com a Cordilheira dos Andes atuando como fronteira. É lá que se encontram os magníficos Campos de Hielo Norte e Sur, este último a segunda maior massa de gelo não polar do planeta, atrás apenas da Groenlândia.

Foto: Fernanda Fehring

No lado Argentino, a Patagônia começa um pouco acima da cidade de Neuquén e vai até a cidade de Ushuaia, e em sua paisagem predominam a estepe patagônica (grama dourada e árida), lagos, pampas, montanhas, bosques, geleiras e picos. A Ruta 40 é a estrada que corta toda sua extensão e passa por cenários cinematográficos como o magnífico Monte Fitz Roy, o belíssimo Lago Argentino (o terceiro maior do país) e a impressionante geleira Perito Moreno.

Foto: Fernanda Fehring

A mesma estrada também liga os viajantes até a pacata cidade de El Chaltén, no Parque Nacional Los Glaciares, que foi fundada pela Argentina em resposta aos avanços territoriais do vizinho Chile. Assim como o Lago Argentino, batizado com o nome do país para deixar bem claro quem mandava por aquelas bandas, El Chaltén serviu como delimitador de espaço nacional. Com o passar dos anos, a cidade começou a atrair amantes de trilhas, montanhismo e escaladas, e se tornou uma das capitais mundiais do trekking, graças à sua extraordinária beleza e posição estratégica para explorar o Campo de Hielo Sur.

Foto: Fernanda Fehring

Explora El Chaltén

E é nesse lugar lindo, e pouco conhecido, que o novíssimo hotel Explora El Chaltén abriu suas portas em 15 de dezembro de 2021. Localizado a 17 km do vilarejo de El Chaltén, o hotel fica no coração da espetacular reserva de conservação privada de Los Huemules e tem vista para os belíssimos Vale Eléctrico e Glaciar Marconi.

Foto: Divulgação

A decoração do lodge segue a linha dos outros hotéis do grupo, com farto uso de madeira pelos ambientes, vigas de ferro pretas e móveis em linhas retas. O mood minimalista ganha aconchego com grandes lustres de palha e tecidos em cores neutras, um toque suave para não interferir na paisagem exposta em janelões de vidro.

Sua estrutura conta com um restaurante, um assador, uma grande área de estar interligada ao bar e restaurante, um corner com roupas da excelente marca de outdoors Patagonia e uma pequena sala de conferências – onde os guias fazem as palestras de boas-vindas aos hóspedes.

O spa do Explora é divino, pequeno e aconchegante, e construído na maravilhosa floresta de ñirres que rodeia o hotel.  O espaço abriga uma sauna seca e uma a vapor, duas salas de massagens, uma área de relaxamento, e – as cerejas do bolo – cinco jacuzzis ao ar livre de frente para as montanhas. Coisa de cinema.

Acomodações

O hotel conta com 20 quartos, 17 da categoria standard de 36 metros quadrados, e três suítes, de 60 metros quadrados. Todos eles têm camas king size, cofre e aquecedor, uma mesa com duas cadeiras e banheiro aberto para o quarto – com ótimo chuveiro. Os quartos são todos para não fumantes e podem acomodar uma cama extra para crianças ou um berço (sujeitos à disponibilidade durante a reserva).

Todos têm vista de capotar e a mesma decoração suave com lambris de madeira e tecidos em tons neutros, que fazem belo contraste com luminárias escuras. As grandes janelas de vidro também atuam como molduras, já que, aqui, como no resto do hotel, a estrela absoluta é a paisagem.

Foto: Fernanda Fehring

Os kits para as expedições incluem garrafas para serem usadas nas trilhas, cremes labiais e curativos para uma eventual emergência – delicadamente lembrando a quem chega que a aventura começará em breve.

Foto: Fernanda Fehring

O destaque dos quartos vai para as maravilhosas camas – notórias pela indústria hoteleira afora – por seu conforto extremo. Travesseiros, colchões e roupas de cama são escolhidos a dedo para criar a cama perfeita. Afinal, na filosofia de “menos é mais” dos hotéis do grupo, pode-se abrir mão de tudo, menos de uma excelente noite de sono.

Foto: Fernanda Fehring

As expedições

A localização do hotel, situado às margens do Rio Elétrico e rodeado por densas florestas de árvores lengas e ñirres, é perfeita para a saída para belas trilhas. O trekking aqui é rei e quem chega por essas bandas vem mesmo atrás de percorrer o cenário deslumbrante da região.

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O Explora oferece mais de 30 explorações diferentes, divididas em categorias como: trekking – caminhadas e trilhas de graus de dificuldade diversos pela reserva; overland – explorações com deslocamento em vans para áreas fora da reserva; escalada – escaladas em rochas dentro da reserva; expedições – explorações para lugares remotos com pernoites de uma ou duas noites em acampamentos; e montanha – explorações para montanhas e picos, indicadas para experts.

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Durante minha estadia por lá, fizemos algumas explorações extraordinárias e bastante puxadas –  das mais exigentes que já fiz em um Explora, ou em qualquer outro lugar.

Reserva de Los Huemules

A primeira exploração que fizemos, no dia seguinte à nossa chegada, foi pela própria reserva de Huemules, uma expedição de dia inteiro e categorizada como “avançada”. Os 17 km de trilha são planos com elevação de quase 500 m e com várias paradas. Foram elas:

Foto: Fernanda Fehring

Laguna Azul e Laguna Verde

A trilha para a Laguna Azul sai diretamente do hotel e passa por uma bela floresta, com direito a paradas para avistar picos cobertos de neve. A beleza do cenário da lagoa emociona, com suas águas de um azul extraordinário e a visão da face norte do Monte Fitz Roy. Simplesmente mágico. A Laguna Verde é lindíssima, fica um pouco mais adiante e é um local de parada para um chá e um lanchinho. A energia que se gasta no trajeto é impressionante, e é preciso repô-la a toda hora por meio de pequenos snacks oferecidos pelo hotel.

Foto: Fernanda Fehring

Laguna del Diablo

A última parada da expedição é a espetacular Laguna del Diablo, e o caminho até lá passa por uma trilha pela floresta e por um rio belíssimo. O cenário parece de mentira de tão encantador, com as montanhas espetaculares e seus picos cobertos de neve, o rio cinza esverdeado e as árvores já nas cores do outono. Um deslumbramento.

A chegada à Laguna é acompanhada de uma chuva de “ohhhss e ahhhs” e a opinião de todos é unânime: o panorama é arrebatador. O lago cinza rodeado por montanhas e a geleira Castigliero, em todo o seu esplendor, formam uma das paisagens mais fascinantes de toda a reserva.

Foto: Fernanda Fehring

No caminho de volta, mais uma visão quase celestial: um casal de patos torrentes, lindos, brincando de subir a correnteza em um balé que misturava voos e nadadas ferozes. Isso tudo em águas com temperaturas na casa dos 3 graus celsius.

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Laguna de Los Tres

A exploração mais aguardada, a mais espetacular, a verdadeira joia de El Chaltén é a trilha até a Laguna de Los Tres. É o cartão postal do destino, a imagem mais associada à capital mundial do trekking. Mas também é uma das mais difíceis de todas.

Foto: Acervo pessoal/Fernanda Fehring

A exploração começa saindo do hotel em uma van que deixa o grupo na trilha que dá acesso ao Parque Nacional Los Glaciares. Já dentro do parque, a alguns quilômetros da entrada, a primeira parada no mirante para observar o Glaciar Piedras Blancas – mais um cenário de tirar o fôlego.

Foto: Fernanda Fehring

A trilha segue até a subida para a laguna, uma paisagem belíssima, com um bosque de árvores legnas e ñirres, o Rio Blanco e o Fitz Roy que aparece, com vista limpa, majestoso.

Foto: Acervo pessoal/Fernanda Fehring

A subida de 2 km e 1.000 metros de inclinação é puxadíssima e a trilha muito acidentada, com muitas pedras, lama, neve e gelo. Mas o esforço é compensado com a chegada ao topo e a visão quase celestial da Laguna de Los Tres e seus picos extraordinários. Dentre eles, o maior e mais bonito de todos, o famoso Monte Fitz Roy.  Uma experiência como poucas que já tive – simplesmente magnífica.

Gastronomia

No quesito gastronomia, o Explora El Chaltén caprichou. Chamou ninguém mais, ninguém menos do que Pablo Jesus Rivero, mais conhecido pelo seu maravilhoso restaurante Don Julio, em Buenos Aires – eleito pelo guia The 50’s best restaurants 2021 como o décimo melhor restaurante da América Latina.

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A carta do hotel, desenvolvida por Rivero em parceria com o chef argentino Guido Tassi, tem como destaque a parrilha e o assador construídos no hotel exclusivamente para grelhar cortes de carne locais, especialidades como cordeiro patagônico e ojo de bife. Diariamente, às 19h30 os hóspedes são convidados a visitar o assador para tomar uma taça de vinho e degustar empanadas fresquinhas, saídas do fogo.

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Para quem almoça no hotel, há um ótimo bufê com saladas, carnes, pães e boas sobremesas. Já para aqueles que estão fazendo explorações full day, o hotel prepara um almoço para levar na mochila. No menu, uma sopa levada pelos guias, saladas, torradinhas e pastinhas e um docinho de sobremesa.

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Como em todos os outros hotéis do grupo, o Explora El Chaltén também opera em esquema de pensão completa e tudo que se consome no hotel está incluído no valor da tarifa. Com exceção dos vinhos premium, que são vendidos separadamente.

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A equipe

Gentileza, simpatia, profissionalismo e muitos sorrisos. Essas são as palavras que definem a equipe do Explora El Chaltén. Um time composto em sua maioria por argentinos, que vêm de todas as partes do país e recebem a todos tão bem por aqui. O mais surpreendente é o nível de serviço oferecido em um hotel de apenas três meses de vida – e acredito que isso se deva graças ao entusiasmo e a alegria que cada um sente em estar neste lugar incrível.

Foto: Acervo pessoal/Fernanda Fehring

Nossa guia, Gilda, deu um show nas explorações que fez conosco, e, como todos os guias que trabalham na Argentina e precisam estudar para isso, nos ensinou muito sobre a fauna, a flora, a geologia e a história da região. As expedições montadas e conduzidas de forma impecável trazem com força o DNA do grupo hoteleiro. Bravo, Explora El Chaltén!

Como chegar lá

Há quem ache que chegar a El Chaltén é trabalhoso e cansativo, mas me surpreendi positivamente com a facilidade em chegar ao destino. Saindo do Brasil, há muitas opções de voos diretos para Buenos Aires com companhias aéreas brasileiras e argentinas, e se der sorte – como no meu caso – pode-se conseguir uma excelente conexão, com tempo de espera mínimo, para El Calafate.

Foto: Fernanda Fehring

A chegada em El Calafate impressiona. Se não pelos fortes ventos constantes da região, ao menos pela beleza extraordinária e cor azul celeste do Lago Argentino – rodeado de montanhas e colado na pista de pouso do Aeroporto Internacional Comandante Armando Tola de El Calafate. Na minha opinião, este é um dos mais bonitos aeroportos do mundo.

Foto: Fernanda Fehring

Do aeroporto até El Chaltén são três horas de estrada em um dos cenários mais espetaculares que já vi. E como tudo neste lugar é magnífico, considero a viagem até El Calafate e depois até El Chaltén como parte do encantamento de visitar essa região. Como se a contemplação durante o deslocamento servisse de aperitivo para as maravilhas que encontramos nesta parte do mundo.

Explora El Chaltén
Q28M+46,
El Chalten, Santa Cruz,
Argentina
Telefone: +54 11 5199-0564
www.explora.com
@exploratravel

@fernandafehring é formada em Hotelaria, Gastronomia e Turismo pela Universidade de Surrey, na Inglaterra, e em Cozinha pela École Le Cordon Bleu, de Paris. Foi expatriada por 18 anos, morando em países como Inglaterra, Alemanha, China, França e África do Sul. Mas é no Rio de Janeiro que Fernanda se sente mais feliz. Formada pela McQueens de Londres, Fernanda teve um ateliê de flores durante seis anos no Rio. Trabalha atualmente como curadora de viagens e colunista, e sua grande paixão são as viagens de natureza e de isolamento. País preferido no mundo? África do Sul. Viagem dos sonhos? Alasca.