Ingrid Silva – Foto: Arquivo Pessoal

Bailarina brasileira de 33 anos, radicada em Nova York, Ingrid Silva compartilha sua nova rotina de mãe e fala de sua biografia “A Sapatilha que Mudou Meu Mundo”. Bazaar passou 24 horas com ela. Veja abaixo:

7h

Acordo, tomo banho e uso o hidratante da linha da Alicia Keys com protetor solar. Cuido de mim para poder dar atenção à Laura, minha filha de nove meses. Não sou de comer pela manhã. Geralmente, tomo uma vitamina ou chá. Quando estou mais inspirada, iogurte com granola e morango ou açaí de um mercado brasileiro. Vou à academia três vezes por semana, onde a personal trainer me acompanha.

8h

A ioga é mais tranquila, posso fazer em casa duas vezes. Agora, moro perto da Dance Theatre of Harlem e vou andando. Adoro passar por uma rua cheia de brownstones, bem Nova York, aquela essência do Harlem – cheia de árvores e crianças brincando. Me lembra o Brasil! Às vezes, acordo às 9h e amamento antes de ir para o trabalho. Chego por volta de 9H40 e vou me trocar. É engraçado porque me visto melhor no balé, adoro collant colorido e estilizado. No dia a dia, sou bem básica.

10h

Ingrid Silva – Foto: Arquivo Pessoal

Tenho aula de barra e centro de segunda a sexta. Estou voltando agora e tem sido um choque de realidade. Treinei até a 38ª semana, mas a gestação muda o balanço do corpo. Estou tentando me achar, me reeducando e aprendendo com a coach Bethania Gomes. Ela criou um método de balé para grávidas. Entendi como adaptou a dança para mim e foi quem me remodelou no pós-parto.

O ensaio começa às 11h30. É muito difícil voltar, sendo bailarina e dependo do corpo. Não é essa coisa da internet: “acabei de parir e minha barriga está no lugar”. E olha que danço há mais de 20 anos. É um processo diferente. Cada pessoa tem de viver para entender como funciona, mas não é rápido. No livro “A Sapatilha que Mudou Meu Mundo” (Globo Livros) conto detalhes sobre a gravidez, trago pautas importantes – sem spoilers – que as pessoas nem imaginam.

Narro também sobre instituições de balé clássico e corpo negro, da primeira vez que minha mãe Maureny veio me visitar. Me empolguei com o capítulo sobre a Frida (buldogue francês de 7 anos), meu primeiro bebê. Sou mãe de pet mesmo! Só eu e minha família sabemos a importância dela nas nossas vidas.

Sonhava em escrever esse livro, pois colecionava diários desde nova. Talvez saia o segundo volume porque tem muita coisa de fora. Falava ao editor (Guilherme Samora) para adicionar novo pedacinho e ouvia: “esse livro nunca vai sair” (risos). Tomei paixão pela escrita e senti que ele tirou o melhor de mim. Quando fui parir, em novembro passado, ainda estava escrevendo. Descobri vários traumas dos quais nem lembrava mais, pois nossa mente bloqueia. Processo emocional, mas também intenso. Uma terapia! Precisava botar para fora não só o que eu vivi, mas o que muitas pessoas também viveram e vão se identificar.

Me deixou emocionada contar a minha história desde o começo, sendo uma mulher negra brasileira e reviver cada momento da minha jornada na dança… Tenho noção, mas colocar no papel é muito louco. Você pensa: “caramba, eu já vivi isso tudo?” É revigorante poder contar minha história.

14h45

Break de uma hora e meu marido leva a Laurinha para amamentar na escola. Aproveito para almoçar. Engraçado… Não como salada. Me recuso! Na marmita ou delivery, arroz, feijão, frango ou bife. Sempre comi assim, dá energia para continuar o dia. Queimo muitas calorias, não dá para passar fome.

18h

Terminou a aula, volto andando para casa. Chego por volta das 19h para ficar com a Laurinha. Minha rotina com ela é de entretenimento. Mãe tem de ser artista. Sei todas as músicas de Mundo Bita (projeto de entretenimento infantil) e a boto para dormir às 20h. Anda rebelde, dorme quando quer, mas dou de mamar, cochila no colo e a levo para a cama. Nos mudamos há pouco e o quartinho dela já está montado. Era um desejo porque, quando pequena, dividia com o meu irmão. Tendo um espacinho só dela, já acho incrível. Sempre quis e sonhei.

21h

Sexta-feira é meu dia de comer besteira. Um bom vinho depois do trabalho para relaxar o corpo. Tomo banho bem quente de banheira, coloco música e acendo uma vela. Gosto dessa coisa de me reconectar com minhas energias. E também do hábito de cozinhar em família. Sentar na sala com o marido, contar do dia e ouvir um disco na vitrola – o preferido é o “Amarelo”, de Emicida.

Meu pensamento positivo é muito forte: não existe nenhuma barreira para o que a gente quer fazer. Se não tem oportunidade, a gente faz o momento. Tento atrair isso, sabe? Tive oportunidade de criar o projeto Blacks in Ballet. Quero levar para o Brasil pós-pandemia. É o primeiro festival de bailarinos negros do mundo, com ações online e de graça porque sei o quão difícil é fazer uma aula de dança. Por meio deste tipo de ação, tive a oportunidade de ser quem sou.

Ainda tenho muitos sonhos. Quero comprar a minha própria casa e terminar a faculdade de dança. Estava no último ano quando ganhei a bolsa para vir para cá. Também quero viajar por todos os estados do Brasil, dando aula em comunidades carentes. Quero ser a Rihanna do balé, criar leque de cores de sapatilha, meia-calça e roupa de dança. Porque não tem! Ela viu os cosméticos como eu vejo a dança: não tinha produtos para todas as tonalidades de pele, foi lá e fez!

23h

Ingrid Silva – Foto: Arquivo Pessoal

Celular nunca foi uma extensão do meu corpo porque não dá para usar no balé, agora com a pandemia passei a usar mais. Zelo pela minha privacidade, mas uma vez por semana tiro para responder a todas as mensagens do Instagram. Assisto televisão antes de dormir, como “Que História É Essa, Porchat?” e “Jojo Nove e Meia”. Daqui, acompanho o Brasil!

Todos os dias, na hora de deitar, como quando me levanto, faço uma oração agradecendo por estar viva, de olhos abertos, vivendo esse momento. Acredito em tudo, tenho uma conexão muito grande com energia, natureza e os orixás. Sou uma coruja e vou dormir por volta de 1h!