Imagem gentilmente cedida pela artista Silvana Mendes

Em março de 2020, a Netflix lançou uma série de quatro episódios sobre a vida de Madame C.J Walker, a primeira mulher a se tornar milionária nos Estados Unidos. Sua história trouxe à tona as discussões em torno do empreendedorismo das mulheres negras e do empoderamento econômico. Mas, o que mais vocês sabem sobre negras que empreendem? Como o racismo invisibiliza as iniciativas dessas mulheres?

Lélia Gonzales, filósofa e pioneira nos estudos da cultura negra no Brasil, ao investigar a forma como o racismo operava no contexto brasileiro, afirmou que nestas terras o chamado “racismo à brasileira” funciona através da denegação, de uma recusa profunda à presença importante de negros e negras em nossa sociedade e na própria composição de nossas identidades.

Neste sentido, recusa-se também a enxergar o racismo, as práticas racistas e a condição da população negra. Neste texto, quero discutir com vocês como este racismo à brasileira se manifesta no mundo do trabalho, dos negócios e no âmbito da economia.

Quais imagens povoam a mente de vocês quando imaginam uma mulher negra? Faxineira? Sambista? Garçonete? O racismo estrutural organiza nossa forma de pensar, de imaginar e de entender o mundo. Sempre que nos referimos a pessoas negras, e às mulheres negras em específico, todo este imaginário vem à tona através do que Patrícia Hills Collins, importante feminista negra estadunidense, chama de imagens de controle.

As imagens de controle são produzidas, segundo a feminista brasileira Winnie Bueno, no interior da cultura branca. Neste sentido, elas mantêm estreito diálogo com o conjunto de representações da população negra na mídia, nos livros didáticos, nos manuais de economia, com toda uma longa iconografia racista que atravessa o tempo de Debret, passando por Monteiro Lobato e chegando aos reality shows contemporâneos.

É importante notar que estas imagens de controle acabam assimiladas por todas nós, mulheres negras, e passam a compor nossa autoimagem e também a organizar nossos sonhos, ideias e maneiras de ver o mundo. Nesse processo, as potencialidades da população negra são desprezadas ou desacreditadas, promovendo objetificação, violência, estigma e morte. É preciso que interroguemos como estas imagens povoam nossas mentes para que possamos desconstruí-las, transformar nossas práticas de modo a produzir novas imagens.

Afroconsumismo

Segundo o IBGE, 56% da população brasileira é negra, contudo, quando olhamos as prateleiras dos supermercados, as bancas de revistas, os comerciais de televisão, os tons de pele disponíveis nas empresas de maquiagem, os produtos para cabelos crespos e cacheados, começamos a perceber que faltam pessoas negras. Por que? Por que, apesar de maioria na sociedade, há tão pouca representatividade no âmbito do consumo? Mais uma vez: imagens de controle. Quando você pensa em alguém com poder de consumo, quem vem à sua mente? Não é uma mulher negra.

Em junho de 2020, o Instituto Locomotiva fez um levantamento para a CUFA, a Central Única das Favelas, sobre o perfil econômico e consumo da população negra brasileira e os números são reveladores: essa parcela consome anualmente 1,9 trilhões de reais, o que corresponde a 40% do consumo brasileiro. Esses dados parecem ser ainda invisíveis para uma parte do mercado.

Contudo, empresas como, por exemplo, Avon, Bradesco e NuBank tem assumido publicamente o compromisso de investir neste mercado. A ONG Etnus cunhou o termo afroconsumo para nomear justamente o quanto aspectos de raça (e se poderia incluir nisso classe e gênero) influenciam no consumo. É preciso que as pessoas se vejam, que impeçamos que práticas desatualizadas no interior do mercado neguem a participação da população negra na economia brasileira.

O empreendedorismo das mulheres negras

Quando olhamos para a população negra no Brasil é preciso que este seja um olhar intersseccional, que considere, para além das questões de raça, a classe e o gênero, como propõe a feminista americana Kimberly Crenshaw. Quando observamos as mulheres negras, notamos que elas compõem 28% da população brasileira, aproximadamente 60 milhões. A maioria delas ainda em trabalhos que envolvem cuidado e limpeza, contudo, segundo pesquisa do Sebrae de 2019, mulheres negras empreendem mais do que mulheres brancas.

O empreendedorismo faz parte da história delas e poderíamos resgatá-lo em 150 anos ou ainda no período da escravidão: os registros são múltiplos de mulheres negras que empreendiam para comprar sua alforria. Ainda segundo a mesma pesquisa do Sebrae, mulheres negras empreendem mais por necessidade. No Brasil, a maioria dos empreendedores são mulheres e, entre as mulheres, as negras são maioria, esse dado é fundamental. Qual seria o poder de consumo das mulheres negras se houvesse programas, políticas e iniciativas da sociedade civil para o fomento ao empreendedorismo? Este é o ponto deste texto.

É um convite a clientes, empresas e leitores a conhecer iniciativas como a AfroLab, do Instituto Feira Preta, que auxilia e orienta o empreendimento por parte de mulheres negras. Iniciativas também como o Movimento Black Money – MBM, fundado por Nina Silva ou ainda a BlackRocks, iniciativa de Maitê Lourenço para promover e incentivar o acesso da população negra nas redes e conexões do universo das startups, de inovação e tecnologia.

O perfil da empreendedora negra tem mudado, com cada vez mais qualificação e envolvimento tecnológico. A imagem da mulher negra que empreende de porta em porta como a Madame CJ Walker tem ficado pra trás. Ela já não é mais uma referência solitária de empoderamento através dos negócios.

É preciso olhar e apoiar as iniciativas de empreendedorismo das mulheres negras – um dos primeiros passos é romper com as imagens de controle que desqualificam. É preciso construir as condições de sonho, seja através do microcrédito público, seja por meio da construção de fundos de investimento. O presente (e futuro) dos negócios é a mulher negra.

Conheça os empreendimentos

Afrikedin

É uma consultoria especializada em diversidade étnico-racial que tem como propósito a busca pela equidade racial e empoderamento da população negra, provocando mudanças sociais em uma perspectiva antirracista, antielitista e antisexista.

Afro Oportunidades

É uma empresa especializada na diversidade étnica que tem como objetivo ampliar a empregabilidade dos afrodescendentes no mercado de trabalho.

Afro Presença

É uma plataforma de inclusão de jovens negros universitários no mercado de trabalho.

Afrobusiness Brasil

É uma instituição sem fins lucrativos, totalmente comprometida com seu objetivo de criar mecanismos que promovam a integração entre empreendedores, intraempreendedores e profissionais liberais, fortalecendo o processo de inclusão social e econômica da população negra.

Banco de Talentos Negros

É uma iniciativa que tem o objetivo de unir profissionais negros a empregadores do mercado de comunicação.

Carreira Preta

É uma consultoria especializada em ações afirmativas.

Diverse

É uma empresa especializada em gestão da diversidade e inclusão no ambiente de trabalho.

Empodera

É uma consultoria que tem como propósito ser parceira estratégica de grandes empresas no recrutamento e seleção de jovens talentos.

Emprega Preta

É um projeto voluntário, que foi criado por profissionais de recursos humanos, com o objetivo de empoderar, desenvolver e potencializar a carreira de mulheres negras.

Empregueafro

É uma consultoria de recursos humanos, focada em diversidade étnico-racial.d

Empretos

É um grupo que tem como propósito oferecer oportunidades para pessoas negras dentro do campo profissional.

Engajafro

É um projeto que conecta pessoas negras à conteúdo de qualificação, desenvolvimento profissional e oportunidades que alavanquem a sua carreira, a fim de promover a sua inserção no mercado de trabalho.

Hiblack

É uma plataforma que conecta uma rede de profissionais qualificados com empresas de tecnologia preocupadas com a diversidade e a inclusão racial dos seus times, criando um movimento de inclusão no ecossistema de inovação.

Indique uma Preta

É uma consultoria de conexões entre mulheres negras e o mercado de trabalho.

Lista Negrx

É uma rede de recrutamento e seleção de profissionais negros.

Planilha de Pretos

É um canal que conecta pessoas negras a profissionais negros de diferentes áreas.

Pretux

É uma iniciativa que tem como objetivo potencializar a inserção de pessoas pretas no mercado de trabalho, diversificar os times e conquistar espaços de liderança por meio do apoio emocional e qualificação profissional.

Tecnogueto

É uma empresa social de educação e tecnologia, que tem como principal objetivo ajudar pessoas de guetos sociais a entrarem no mercado de tecnologia.