Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

Quem bate o olho na moda feita por Marina Dalgalarrondo para a Ão sai contagiado pelas cores. O impacto é imediato e abre caminho para a multidisciplinaridade. A estilista de 30 anos define a marca como uma plataforma que une imagem e texto em conexão com a arte. A roupa é o canal imediato e projetou seu nome por meio do Projeto Estufa, que leva talentos emergentes às passarelas do SPFW.

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

Para a coleção recém-apresentada, durante os 30 dias de setembro, ela esteve imersa em uma residência artística no Museum Quartier e fez seu primeiro desfile internacional na MQ Vienna Fashion Week. O convite veio de Maria Oberfrank, uma das organizadoras do evento, por indicação do stylist e performer Maurício Ianês.

Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE
Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE

Era o primeiro dia de Marina na cidade quando conversamos por telefone. Mesmo sob efeito do jet lag, a estilista não escondia a ansiedade para arregaçar as mangas e dar continuidade aos trabalhos iniciados em São Paulo com o objetivo de fazer o tempo render por lá. “É uma residência pequena, não daria tempo para produzir uma coleção inteira. Por isso, trouxe várias peças prontas, e aqui continuo a pesquisa”, explica ela.

Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE
Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE

A primeira providência depois de um breve descanso foi conferir as ruas da cidade. “Comecei a entender como o Brasil é um país de belezas diversas e colorido. Trabalho com pesquisa. Por isso, tento conectar o que eu quero fazer e o meu entorno, socialmente e politicamente”, diz a estilista. É com muito preparo que se sente segura. “Sou meio nerd”, revela, bem-humorada.

Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE
Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE

E, também, determinada e organizada. Para a nova coleção, evoluiu no trabalho com elástico, que deu o tom do último desfile, e foi além, acrescentando barbatanas e látex. A transferência das formas do corpo fora da silhueta tradicional continua sendo o carro-chefe para a construção de volumes com peso de estranhamentos. Este ano, a estilista conheceu Raphaela Mehlson, artista visual paulistana radicada em Nova York, que trabalha com látex, e se encantou com o processo. “Ela fez uma variação texturizada a partir de uma base de gesso que adorei. Então, quis usar essa versão, além de uma plana e outra moldada sobre o corpo.”

Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE
Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE

A pesquisa surgiu no desfile em Viena junto com o algodão, seu material-fetiche. Sobre tudo isso veio uma avalanche de beges em três tons de pele em contraste com azul-acinzentado e verde-néon, duo que ela chama de cores extraterrestres. Formada em Artes Cênicas com especialização em figurino, a estilista também fez vários cursos no Parque Lage no período em que morou no Rio de Janeiro. Foi lá que descobriu a obra do artista alemão Josef Albers e o poder dos blocos de cor. “Fiquei pensando em como a cor poderia trazer novos elementos ao vestuário”, recorda.

Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE
Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE

É o que ela vem exercitando desde 2017, quando, já de volta a São Paulo, criou a Ão de maneira despretensiosa enquanto trabalhava na área de publicidade – na bagagem, trazia também a experiência com a , sua primeira grife. Já os volumes vêm do gosto pessoal por roupas confortáveis. Aos pilares estéticos ela acrescenta a sustentabilidade. “Faço uma produção pequena, nunca tive descarte, uso matéria-prima nacional e pago valores justos a quem trabalha comigo. São várias vertentes de mim cuidando da marca e isso me dá controle sobre ela”, argumenta, ressaltando que tem vontade de expandir a Ão para uma plataforma artística.

Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE
Foto: Zé Takahashi/ FOTOSITE

“Tenho amigos da música, teatro, artes plásticas. Podemos produzir coisas diferentes”, diz ela, que, em abril, levou para o Estufa a coleção construída em torno da trilha sonora com o suporte do marido, o músico Sávio Queiroz, que uniu o cravo, um instrumento medieval, a sons eletrônicos de sintetizadores. Tudo isso enquanto ela também mantém, em paralelo, a atuação como figurinista. O trabalho mais recente foi para o novo disco e vídeos de Céu. A moda, para Marina, não é, definitivamente, um fim em si mesmo.

Leia mais:
Sustentabilidade, reuso e inovação: tendências para o verão