Foto: Now Fashion

Por Jorge Wakabara

Manhã do primeiro dia de março em Paris, e o ginásio montado em um estúdio de cinema está inundado, com suas primeiras fileiras submersas. É o desfile do Fall 2020 da Balenciaga, no qual o estilista Demna Gvasalia pensa em um cenário apocalíptico de céu relampejante e muito preto, muito longo, muita alfaiataria com ombros pontudos.

Mas a verdade é que as pessoas não estavam tão preocupadas com o foco de dengue e leptospirose: o verdadeiro assunto da temporada era a Covid-19, ou o novo coronavírus, que havia proliferado em plena semana de moda de Milão, alguns dias antes, e podia estar ali, entre um air kiss e outro, criando um clima de paranoia.

Outros estilistas já se inspiraram em cenários de fim de mundo, de Rick Owens (cujo universo criativo traz o apocalipse como parte integrante) a Raf Simons (que, no Fall 2018 da Calvin Klein, trouxe faixas refletivas, equipamentos de segurança e um “laranja uniforme de equipe de resgate”).

Só que, agora, a ameaça é real: o aquecimento global e a pandemia batem à porta. A gente espera pela catástrofe usando o macacão de paetê prateado Balenciaga ou as soluções da indústria da moda, tanto em termos de sistema de apresentação de coleções quanto de criação, serão outras?

No caso do COVID-19, houve baixa no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Fora eventos desmarcados, Giorgio Armani foi o primeiro a decidir fazer um desfile a portas fechadas e sem plateia, com transmissão ao vivo. Por aqui, À La Garçonne fez o mesmo. Tantas outras marcas cancelaram desfiles de resort que iriam acontecer ainda neste semestre – o que faz pensar que a gente adora desfile, mas precisa desse tanto? Ações apenas com streaming e re-see (hora marcada para ver a coleção de perto nas araras do showroom) substituem as apresentações na passarela de maneira eficaz e, importantíssimo, mais barata? São tão efetivas quanto um desfile-show?

Surge mais uma oportunidade para derramar um dos clichês do empreendedorismo: “Crise é oportunidade”. E não é porque algo é clichê que, necessariamente, é falacioso – situações complexas realmente podem servir de estímulo para soluções criativas. Ou simplesmente de cunho prático: algumas grifes substituíram seus gifts típicos para convidados dos desfiles por máscaras (aquelas mais simples, que, na verdade, devem ser usadas por quem já tem o vírus para evitar o contágio dos outros) e álcool em gel (para passar nas mãos, como medida preventiva).

Mais útil que uma nécessaire – o fashionista agradece. Crise e criatividade podem ser um casamento explosivo na moda e temos exemplos históricos disso: um deles é Edith Bouvier Beale, mais conhecida como Little Edie e uma das musas de Marc Jacobs, prima de Jackie O. No documentário “Grey Gardens” (1975), a falência dela e de sua mãe assusta, mas seu exercício de styling, a partir do pouco que lhe restou, encanta.

A expressão fashion não requer recursos; customização, upcycling e ressignificação são palavras em alta. Não à toa, a sustentabilidade se transformou em valor: é uma resposta à crise do sistema produtivo que consome recursos de forma, voilá, insustentável.

O mercado de revenda é um dos que mais crescem na moda e não tem sido olhado com carinho por grande parte da indústria. O relatório de 2019 da GlobalData afirmou que o aumento dele nos últimos três anos é 21 vezes mais rápido que o do varejo. O maior hype vem dos colecionadores de tênis, os sneakerheads, mas também dá para perceber que a revenda é mais que isso.

A japonesa Wego, por exemplo, mistura sua moda jovem com peças de segunda mão organizadas como… novas. Todas as camisas xadrezes em uma arara, higienizadas, passando impressão de produção com grade de tamanho e cores, mesmo que existam pequenas variações de modelo e tecido. Moletons do Planet Hollywood, todos dobradinhos em duas pilhas. Por aí vai: quem não gosta de garimpar simpatiza com esse modelo de visual merchandising e se joga.

Por outro lado, novos estilistas nascem já inseridos em uma realidade em que a sustentabilidade é fator primordial e não um diferencial. É o caso da MoiDien, por exemplo, do vietnamita Tom Trandt, que usa de artifícios como recortes menores na construção da roupa e embalagens feitas de retalhos que podem ser reutilizadas como ecobags – tudo para garantir o desperdício zero de tecido.

Existem poucos fornecedores de tecido no Vietnã, mas ele transformou esse problema em uma qualidade: as roupas da MoiDien se destacam esteticamente, são únicas. E isso chama mais atenção do que o upcycling por si só. O inferno de um também pode ser o paraíso de outros.

Uma plataforma de videoconferência, a Zoom Video Comunications, viu suas ações na bolsa aumentarem consideravelmente. É que muita gente tem preferido usá-la no lugar de reuniões presenciais. Serviços que previnem os clientes de saírem à rua e entrarem em contato com outras pessoas devem surfar na situação, como e-commerces e delivery.

O ponto de venda físico, se já estava assustado, agora sua frio. Em caso de descompressão, coloque a máscara de oxigênio. Mas fica claro que, quem tiver ideias que respondam aos problemas à altura, sai respirando mais fundo.