Fernanda Fehring – Foto: Acervo pessoal

Por Fernanda Fehring

Na minha coluna de estreia para a Harper’s Bazaar Brasil, escolhi mostrar um dos hotéis mais incríveis e queridos do nosso País: a Comuna do Ibitipoca. Me refiro à Comuna como um hotel, mas a verdade é que “Ibiti”, como o local é conhecido por muitos de seus admiradores, é muito mais do que isso.

Foto: Divulgação

A Comuna

Esse é um lugar como nenhum outro. Estamos falando de um local de natureza exuberante e culturalmente riquíssimo, mas que nasceu com um propósito muito forte e bem definido. Traz em seu DNA os ideais de preservação ambiental e desenvolvimento social. Localizada em Conceição do Ibitipoca, um distrito do município de Lima Duarte, em Minas Gerais, a Comuna se define como um projeto “socioambiental experimental focado no homem e sua casa, o planeta”. Mas o que isso quer dizer de fato?

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Tudo começou em 1984, quando o proprietário Renato Machado comprou a Fazenda do Engenho e transformou a área, colada ao Parque Nacional de Ibitipoca, em uma reserva ambiental privada. Na época, o local era conhecido como Reserva do Ibitipoca. Desde então, Machado vem comprando terras para criar um “cinturão verde” de proteção ambiental em torno do parque e hoje já conta com 5.000 hectares de área que foi anteriormente degradada. Desse território, 99% se encontram em processo de “rewild”, ou seja, um local de recuperação de fauna e flora nativas da Mata Atlântica. Sua área total já é quatro vezes maior do que a de seu vizinho, o Parque Nacional do Ibitipoca.

O Hotel

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Quase dez anos atrás, o hotel foi aberto na sede da antiga fazenda, um belo casarão reformado, com o intuito de propiciar experiências perto da natureza para pessoas que valorizassem o conceito do “novo luxo”. A intenção era oferecer conforto e uma hospedagem da melhor qualidade, mas com foco nos serviços, na gastronomia local, nos muitos passeios oferecidos e na beleza natural do local. Mais tarde, outra atração seria também o conjunto de obras de artes levadas para lá, que transformaram o local em um verdadeiro museu a céu aberto.

Hospedagem

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As acomodações são divididas em diferentes conceitos de hospedagem, e comecei minha estadia na sede, ou no “Engenho Lodge”. É a opção mais luxuosa e que ainda mantém as características de uma antiga fazenda, com 8 amplas suítes muito confortáveis e lindamente decoradas. A “Casa Carlinhos”, uma casa com 3 suítes ao lado da sede, é uma opção igualmente charmosa e linda (a minha preferida), ideal para pequenos grupos e famílias. De lá, a vista do Pico do Gavião é de uma beleza indescritível.

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A experiência “Remote” consiste em acomodações em casas no meio do nada, onde o hóspede só chega caminhando, de bicicleta ou em veículos 4×4. São feitas para quem quer o tipo de experiência de isolamento total. O “Isgoné” (uma brincadeira com o nome Eagle’s Nest), está localizado no ponto mais alto da Comuna, a 1.500 m de altitude, e é um aconchegante refúgio em estilo loft. Nesta mesma categoria, “Areião House” está localizada em um dos pontos mais distantes da sede. É uma casa de dois quartos, sala e cozinha e 100% sustentável, na qual a água se aquece quando o hóspede liga o fogão à lenha. Um tipo de aventura com gostinho de Robinson Crusoé (Rs).

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Minha segunda estadia foi na categoria “Village”, mais precisamente no vilarejo do Mogol.

Trata-se do recém-lançado e inovador conceito criado para aqueles que querem experimentar a sensação de viver em uma comunidade do interior. O vilarejo de apenas 121 moradores, localizado dentro da Comuna – e cercado por quatro cachoeiras – tem acomodações localizadas em antigas moradias de produtores rurais, que foram restauradas e transformadas em lofts e casas para hóspedes.

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As palavras de ordem por aqui são charme, descontração, respeito à natureza e vida em comunidade, e o Mogol é uma experiência de hospitalidade como poucas. O vilarejo conta com um restaurante vegetariano, o Yucca, uma igrejinha e um centro de visitantes.  Um spa com uma piscina de borda infinita estava em construção durante minha estadia por lá.

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Atividades

A hotelaria da Comuna é inovadora, caprichada e séria, mas a cereja do bolo é a gama de atividades ao ar livre em um cenário incomparável com qualquer outro hotel do mesmo gênero. A reserva conta com quase 200 km de trilhas privadas na Mata Atlântica e o local está em uma zona de transição para o cerrado, oferecendo uma diversidade impressionante de paisagens, dezenas de cachoeiras, rios, cavernas, grutas e mirantes.

Foto: Acervo pessoal

O destaque para quem estiver no Engenho, é o “Circuito das Águas”, um passeio aos rios e quedas d’água mais lindas da região. Já no Mogol, o ponto alto é um passeio de mountain bike para as cachoeiras e para a Lagoa Negra, inserida em uma paisagem de tirar o fôlego. As bicicletas disponíveis para os hóspedes eram e-bikes (ou bicicletas assistidas), o que fez com que os pedais fossem muito mais fáceis e, consequentemente, mais agradáveis.

Gastronomia

A gastronomia da Comuna é um capítulo à parte e foi levada a sério desde o lançamento do hotel, quando o chef francês Claude Troisgros foi convidado para desenvolver o menu e treinar a equipe. À mesa, uma releitura da cozinha mineira, sempre feita em fogão à lenha, mas com um toque sofisticado. O que se prova ali é uma fusão perfeita entre a explosão de sabores da culinária local e a elegância da técnica francesa.

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O hotel organiza também almoços e jantares em algumas das mais lindas paisagens da reserva: na beira de uma cachoeira, embaixo de uma amendoeira e até dentro de uma gruta.

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No Mogol, o restaurante Yucca, vegetariano comandado pelo chef Mateus Abdo, traz uma proposta de culinária saudável e saborosa, que utiliza alimentos orgânicos produzidos no local.

Wellness

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O hotel conta com um excelente spa montado em um pavilhão centenário próximo à sede. Ali, o hóspede tem a opção de fazer ioga todas as manhãs, meditação e ainda escolher entre uma larga gama de tratamentos corporais e faciais. O spa conta com excelentes terapeutas e o ambiente é divinamente tranquilo e de extremo bom gosto. Fiz a massagem relaxante e a aula de ioga pela manhã e pude conferir o quão especial é esse espaço dedicado ao bem-estar.

Arte

A capacidade da Comuna  de maravilhar e surpreender seus visitantes é enorme. A cada novo passeio, cachoeira visitada ou almoço montado na beira do rio, o coro de “ooohs” e “aaahs” se faz mais forte.  Mas nada, nada mesmo, me preparou para a visita às estátuas gigantes de ferro reciclado da artista plástica californiana Karen Cusolito. Parte da série “Crude Awakening” e feitas de aço reciclado para o festival Burning Man de 2007, as sete estátuas representam diferentes povos, religiões e sentimentos. A mais famosa de todas já virou a imagem mais associada à Comuna: “Ecstasy”, a mulher esguia levemente curvada para trás, que pesa 9 toneladas e mede mais de 9 m e representa o que todos os seres humanos almejam, a “iluminação”.

Foto: Acervo pessoal
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Antes de vê-las ao vivo, eu não fazia ideia do quão difícil foi levá-las até ali. Uma negociação de anos foi necessária para que a artista concordasse em vendê-las a Machado, que, inicialmente, queria comprar apenas “Ecstasy”. A artista se recusou a vender apenas uma peça, pois argumentou que todas eram como uma “família”, que não podia ser separada. E antes de dar o sim definitivo, ela  foi até Ibitipoca para escolher o local exato para expô-las. Ao avistar o lindo platô na Pedra do Tatu, a artista exclamou que sua obra havia “finalmente encontrado sua casa”.

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Acordo fechado e começou quase uma operação de guerra para leva-las até ali. Uma logística que envolveu o transporte das estátuas em carretas até o Porto de Long Beach e, de lá, até Porto de Santos. No caminho até Ibitipoca, foi necessário o fechamento de uma rodovia para que as estátuas pudessem chegar até a Comuna (inteiras) com segurança. 

Projeto socioambiental

Além do projeto de proteção ambiental, que motivou a própria existência da Comuna, há outras iniciativas importantíssimas acontecendo por lá. Uma delas é o Programa de Refaunação, que tem como objetivo reintroduzir espécies originárias da região que estão em extinção ou que abandonaram a área. O primeiro projeto é o Muriqui House, que foi criado em parceria com o MIB (Muriqui Instituto de Biodiversidade) com o objetivo de reintroduzir na área o muriqui, que é o maior primata das Américas.

Foto: Acervo pessoal

As próximas espécies a serem reintroduzidas na reserva serão a anta, a jacutinga, o macuco e a arara vermelha grande.

Na parte social, a Comuna lançou no Mogol, a Ibitipoca University, que oferece cursos e treinamentos de capacitação para a comunidade local, focando no desenvolvimento de práticas de proteção e regeneração do meio ambiente.

Comuna do Ibitipoca
Fazenda do Engenho, S/N
Lima Duarte – MG
Telefone: (32) 98449-2200
www.ibiti.com
@comunadoibitipoca

@fernandafehring é formada em Hotelaria, Gastronomia e Turismo pela Universidade de Surrey, na Inglaterra, e em Cozinha pela École Le Cordon Bleu, de Paris. Foi expatriada por 18 anos, morando em países como Inglaterra, Alemanha, China, França e África do Sul. Mas é no Rio de Janeiro que Fernanda se sente mais feliz. Formada pela McQueens de Londres, Fernanda teve um ateliê de flores durante seis anos no Rio. Trabalha atualmente como curadora de viagens e colunista, e sua grande paixão são as viagens de natureza e de isolamento. País preferido no mundo? África do Sul. Viagem dos sonhos? Alasca.